Questão 53 — ENEM 2025 BelémCaderno azul · 1º Dia
Não ignoro que muitos foram e são de opinião de que as coisas do mundo são governadas de tal modo pela fortuna e por Deus e que os homens não podem corrigi-las com a prudência, e até não têm remédio algum contra eles. Por isso, poder-se-ia julgar que não devemos incomodar-nos demais com as coisas, mas deixar-nos governar à sorte.
MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
Diante dessas reflexões de Maquiavel, qual é a função do livre-arbítrio nos domínios da política?
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Pensamento político moderno; Maquiavel; fortuna e virtù
- ⚡ Nível: Médio — exige compreender o conceito de virtù contra o fatalismo da fortuna
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Política na Modernidade: Maquiavel e a autonomia da política (CH5)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Para Maquiavel, qual a função do livre-arbítrio na política?"
- Palavras-chave decisivas: fortuna, prudência, deixar-nos governar à sorte, livre-arbítrio
- Armadilha típica: reduzir Maquiavel a "os fins justificam os meios" e escolher alternativas bélicas ou belicistas.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o livre-arbítrio/virtù orienta o príncipe a agir diante da imprevisibilidade da fortuna.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Fortuna: no pensamento maquiaveliano, força imprevisível que condiciona metade dos eventos humanos — acaso, sorte, circunstância.
- Virtù: capacidade ativa do governante de lidar com a fortuna, antecipar-se às mudanças, tomar decisões prudentes; é exatamente a atuação do livre-arbítrio na política.
- Livre-arbítrio: Maquiavel recusa o fatalismo; o governante deve agir, não se entregar à sorte — a política é domínio da ação humana.
- Contexto: Maquiavel escreve "O Príncipe" (1513) na Florença conturbada do Renascimento, em meio à instabilidade das cidades-estado italianas e às invasões estrangeiras; defende a autonomia da política como arte do possível.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "muitos foram e são de opinião de que as coisas do mundo são governadas de tal modo pela fortuna e por Deus" → visão fatalista que Maquiavel vai refutar.
- Evidência 2: "poder-se-ia julgar que não devemos incomodar-nos demais com as coisas, mas deixar-nos governar à sorte" → Maquiavel apresenta essa posição para recusá-la.
- Síntese: o livre-arbítrio entra em cena para enfrentar a imprevisibilidade, e não para se submeter a ela.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — O dualismo maquiaveliano fortuna/virtù No capítulo XXV de "O Príncipe", Maquiavel afirma que a fortuna rege cerca de metade dos eventos; a outra metade cabe ao soberano agir com virtù. O livre-arbítrio é, portanto, instrumento para domar a sorte.
Subpasso 4.2 — Função do livre-arbítrio Se tudo dependesse da fortuna, o governante seria inútil. A ação racional (prudência) do príncipe consiste em antecipar-se às mudanças e decidir nas situações incertas — é exatamente "orientar o soberano no campo das incertezas".
Subpasso 4.3 — Verificação A alternativa B traduz essa função: livre-arbítrio = guia de ação do príncipe diante da contingência (fortuna). As demais fogem do tema ou distorcem o pensamento de Maquiavel.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Aplacar a aspiração de poder dos súditos. ❌ Incorreta: o livre-arbítrio, em Maquiavel, é tema do soberano, não mecanismo de controle das aspirações dos súditos; além disso, ele não discute essa dimensão no fragmento.
B) Orientar o soberano no campo das incertezas. ✅ Correta: exatamente a função da virtù — agir com prudência diante da fortuna e das contingências do governo.
C) Estabilizar a administração por meio do diálogo. ❌ Incorreta: Maquiavel não associa estabilidade a diálogo/consenso, mas à ação decidida do príncipe; seu realismo político é distinto da tradição deliberativa.
D) Relativizar os valores morais no escopo das tradições. ❌ Incorreta: embora Maquiavel separe política e moral tradicional, o fragmento trata de fortuna/prudência, não de relativismo moral; a alternativa desloca o tema.
E) Aprimorar o espírito bélico para a conquista de territórios. ❌ Incorreta: guerra é importante para Maquiavel, mas não é do que trata este trecho; o tema é a capacidade de decidir diante do acaso, e não o militarismo.
🏆 Gabarito: B — o livre-arbítrio, em Maquiavel, orienta o príncipe a agir com prudência em meio à imprevisibilidade da fortuna.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas B captura a função da virtù frente à fortuna.
- Padrão de cobrança: Maquiavel no ENEM aparece pela autonomia da política e pelo par fortuna/virtù.
- Generalização: Maquiavel inaugura a política moderna ao enfatizar a ação humana e a racionalidade prática frente ao acaso.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que associem Maquiavel a diálogo, bélico ou moralidade — o eixo no trecho é fortuna/livre-arbítrio.
- Conexões com outros temas: Hobbes, Bodin, soberania, realismo político, razão de Estado.