Questão 23 — ENEM 2025 BelémCaderno azul · 1º Dia
A borboleta azul
"Ninguém nasce borboleta", pensou Breno. Depois disse baixinho: "A borboleta é um presente do tempo". Lá fora, ela, a borboleta, não pensava nada disso. Ocupava-se em voar pela noite de árvore em árvore. Era azul e sem dúvida um dia havia sido lagarta. Breno tem nove anos e é uma criança, a lagarta é como se fosse uma borboleta criança, mas quando Breno for adulto vira homem e não borboleta, e homens não voam. Sonho de Breno é voar, seja como piloto de avião ou jogador de futebol. Como borboleta, Breno nunca chegou a pensar, tem nove anos, mas sabe que é menino e não lagarta. A avó de Breno sempre diz: "Lagarta queima o dedinho e come planta, mas vira borboleta. Ninguém nasce borboleta". Agora o menino pensa e olha a borboleta na janela. "De manhã vi um monte de buraquinhos nas folhas"; explicaram a ele: "É coisa de lagarta". Os buracos nas acerolas e goiabas eram coisa dos passarinhos. Isso ninguém precisou explicar, porque ele sempre viu os passarinhos indo bicar as frutas, menos o beija-flor, que só ia bicar a água no copo de flor pendurado na goiabeira. "O que será que borboleta come? Será que beija-flor só bebe água?". Pensou muito nisso e sentiu fome. Saiu em direção à cozinha.
MARTINS, G. O sol na cabeça. São Paulo: Cia. das Letras, 2018.
Nesse fragmento, a estratégia que constrói a narração sob a perspectiva do protagonista é a
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Narrativa contemporânea brasileira e discurso indireto livre
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer o recurso formal que aproxima narrador e personagem
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Estratégias narrativas e focalização (H15/H16)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual recurso constrói a narração sob a perspectiva do menino Breno?"
- Palavras-chave decisivas: estratégia, narração, perspectiva do protagonista
- Armadilha típica: escolher "diminutivos" (que existem, mas não definem a perspectiva) ou "descrição pormenorizada" (que não é o recurso central).
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar o discurso indireto livre, ou seja, a voz do personagem infiltrando-se na voz do narrador.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Discurso direto: fala marcada por verbo dicendi e aspas/travessão.
- Discurso indireto: o narrador reporta a fala/pensamento, ajustando pessoa e tempo.
- Discurso indireto livre: mistura as duas formas — o narrador assume a perspectiva do personagem sem verbo dicendi, deixando os pensamentos da personagem invadirem a narração.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Como borboleta, Breno nunca chegou a pensar, tem nove anos, mas sabe que é menino e não lagarta." → frase do narrador que reproduz o raciocínio ingênuo do menino — sem aspas.
- Evidência 2: "O que será que borboleta come? Será que beija-flor só bebe água?" → interrogações típicas da consciência infantil, inseridas no fluxo narrativo.
- Síntese: entre trechos entre aspas (pensamentos diretos de Breno) e trechos sem aspas com sintaxe infantil, a voz do personagem se funde à voz do narrador — isto é discurso indireto livre.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Detectar o procedimento O texto alterna pensamentos entre aspas ("Ninguém nasce borboleta") e narração em 3ª pessoa que adota a lógica do menino ("lagarta é como se fosse uma borboleta criança"). Esse procedimento é o discurso indireto livre.
Subpasso 4.2 — Ler o efeito O leitor acompanha o mundo infantil "por dentro": curiosidade, inferências ingênuas, associações (lagarta → criança; borboleta → adulto). Essa fusão é o que garante a perspectiva do protagonista.
Subpasso 4.3 — Verificação Os diminutivos (buraquinhos, dedinho) e descrições ajudam, mas sem a incorporação da voz do personagem não haveria perspectiva; o recurso decisivo é, portanto, a fusão das vozes.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) recorrência de termos na forma diminutiva. ❌ Incorreta: há diminutivos ("buraquinhos", "dedinho"), mas são recurso secundário; não são o que constrói a perspectiva do protagonista.
B) inserção de memórias no decorrer do enredo. ❌ Incorreta: o texto se passa no presente da consciência de Breno; não há evocação de memórias narradas como flashbacks.
C) descrição pormenorizada do entorno do personagem. ❌ Incorreta: o texto é sucinto nas descrições; o foco é a vida interior do menino, não o ambiente.
D) incorporação da voz do personagem à voz do narrador. ✅ Correta: o discurso indireto livre faz os pensamentos e a sintaxe infantil de Breno infiltrarem a narração em 3ª pessoa, garantindo sua perspectiva.
E) mescla de planos narrativos nos tempos presente e passado. ❌ Incorreta: os verbos no pretérito ("pensou", "disse") são da narração, não criam alternância estruturada entre planos temporais; não é esse o recurso que dá perspectiva.
🏆 Gabarito: D — o discurso indireto livre incorpora a voz infantil de Breno à voz do narrador, o que garante a perspectiva do protagonista.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: o recurso decisivo é a fusão das vozes — marca clássica do discurso indireto livre.
- Padrão de cobrança: ENEM cobra reconhecimento de estratégias narrativas em prosa contemporânea.
- Generalização: quando o narrador em 3ª pessoa adota a lógica, o léxico ou a sintaxe do personagem sem aspas, é discurso indireto livre.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que mencionem recursos formais sem relação direta com ponto de vista.
- Conexões com outros temas: focalização, foco narrativo, Machado de Assis (pioneiro do indireto livre no Brasil).