Questão 22 — ENEM 2025 BelémCaderno azul · 1º Dia
Coração tição
Quero me lambuzar nos mares negros
para não me perder,
conseguir chegar no meu destino.
Não quero ser parda, mulata
Sou afro-brasileira-mineira.
Bisneta
de uma princesa de Benguela.
Não serei refém de valores
que não me pertencem.
Quero sentir meu coração
como um tição.
Não vou deixar que o mito
do fogo entre as pernas iluda e desvie
homens e mulheres
daqui por diante.
CRUZ, A. E... Feito luz. Florianópolis: ND, 2006.
Nesse poema, o jogo entre afirmações e negações reflete a expressividade de um eu lírico que
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Poesia contemporânea negra brasileira e construção do eu lírico
- ⚡ Nível: Médio — exige articular afirmações e negações do texto para reconhecer a recusa às imposições históricas
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Literatura como instrumento de afirmação identitária e crítica social (H15/H16)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O jogo entre afirmar e negar no poema serve para mostrar um eu lírico que faz o quê?"
- Palavras-chave decisivas: jogo entre afirmações e negações, Não quero ser parda, mulata, Não serei refém, Não vou deixar que o mito
- Armadilha típica: escolher "reivindicação da feminilidade" ou "resgate do mito africano" sem perceber que a estrutura do poema se faz pela recusa de imposições.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que as negações sistemáticas apontam para um sujeito que recusa rótulos e estereótipos historicamente atribuídos ao corpo negro feminino.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Eu lírico: voz que enuncia o poema; pode afirmar identidades, recusar imposições, revisar heranças.
- Identidade afro-brasileira: poesia contemporânea (Ana Cruz, Conceição Evaristo, Miriam Alves etc.) que problematiza termos coloniais ("parda", "mulata") e o mito do "fogo entre as pernas" aplicado à mulher negra.
- Paralelismo por negação: recurso que reforça o movimento de recusa ("Não quero...", "Não serei...", "Não vou deixar...").
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Não quero ser parda, mulata / Sou afro-brasileira-mineira." → recusa rótulos coloniais e reivindica categoria autodefinida.
- Evidência 2: "Não serei refém de valores / que não me pertencem." → recusa uma herança cultural imposta de fora.
- Evidência 3: "Não vou deixar que o mito / do fogo entre as pernas iluda e desvie..." → recusa o estereótipo hipersexualizado historicamente projetado sobre a mulher negra.
- Síntese: três negações encadeadas constroem o gesto central do poema — rejeitar imposições forjadas pelo olhar colonial/patriarcal sobre o corpo e a identidade da mulher negra.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear o padrão formal Das quatro estrofes, três começam ou se organizam em torno de negações ("Não quero", "Não serei", "Não vou"). A repetição cria o tom de manifesto.
Subpasso 4.2 — Nomear o que é recusado São recusados: termos coloniais ("parda", "mulata"), valores alheios, mito sexualizado. Tudo são imposições historicamente forjadas.
Subpasso 4.3 — Verificação O "quero me lambuzar nos mares negros" e "Sou afro-brasileira-mineira" afirmam pertencimento, mas o eixo estrutural é a recusa. A afirmação positiva só se constrói à custa da negação das imposições. Logo, o eu lírico recusa imposições historicamente forjadas.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) recusa imposições historicamente forjadas. ✅ Correta: as negações rejeitam rótulos coloniais, valores alheios e estereótipos sexualizados — todos construídos historicamente.
B) desenha sua identidade por meio da memória. ❌ Incorreta: o poema não se apoia em lembranças/cenas do passado; apoia-se na negação ativa de rótulos presentes.
C) resgata heranças míticas do território africano. ❌ Incorreta: o poema não celebra mitologia africana — apenas menciona Benguela como origem genealógica e rejeita o "mito" sexualizador.
D) reivindica o reconhecimento de sua feminilidade. ❌ Incorreta: o poema trata da experiência racializada e recusa a hipersexualização; a feminilidade não é a categoria reivindicada em primeiro plano.
E) rejeita a noção de emotividade associada a gênero. ❌ Incorreta: não há discussão sobre emotividade de gênero; a imagem do "coração como tição" é afirmação de identidade racial, não negação de afetividade feminina.
🏆 Gabarito: A — as negações articuladas no poema recusam rótulos coloniais, valores estrangeiros e estereótipos — todos imposições historicamente forjadas sobre a mulher negra.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: o eixo estrutural do poema é a recusa; o "não" se repete para desmontar imposições.
- Padrão de cobrança: o ENEM valoriza a poesia contemporânea afro-brasileira e cobra leitura crítica de identidades.
- Generalização: quando o eu lírico se define por meio de "não quero", "não serei", o foco é a recusa de rótulos externos.
- Dica de eliminação rápida: se há negações paralelas, a resposta provavelmente envolve "recusa" ou "rejeição" de imposições.
- Conexões com outros temas: Conceição Evaristo, literatura de autoria feminina negra, decolonialidade.