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Questão 85ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

TEXTO I

Manda o Santo Ofício da Inquisição que ninguém, Seja qual for seu estado, idade ou condição, pare com carroça, caleça ou montaria nem atrapalhe com mesas “Ou cadeiras O centro das ruas, que vão da Inquisição a "São Domingos, nem atravesse a procissão em ponto “algum da ida ou da volta, amanhã, 19 do corrente, em “Que se celebrará auto de fé. E também que nem nesse dia nem nos dos açoites ouse alguém atirar nos réus maçãs, pedras, laranjas nem outra coisa qualquer.

PA-MA, R. Anais da Inquisição da Lima. São Paulo: Edusp Giordano, 1992 (adaptado)

TEXTO II

Como acontece em todos os ritos, o sentido do auto da fé é conferido pela sequência dos atos que o compõem. Os lugares, as posturas, os gestos, as palavras são fixados previamente em toda a sua complexidade. Por isso, 0 auto da fé apresenta momentos fortes — durante a preparação, a encenação, o ato e a recepção — que convém seguir em seus pormenores.

BETHENCOURT F. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália — séculos XV-XIX. São Paulo: Cia. das Letras. 2000.

O rito mencionado nos textos demonstra a capacidade da Igreja em

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Idade Moderna, Inquisição, ritos e controle social
  • ⚡ Nível: Médio — requer entender a função simbólica do rito inquisitorial como produtor de comportamento coletivo
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Modernidade, Igreja Católica, controle social, ritos e poder
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que o rito do auto de fé da Inquisição demonstra que a Igreja era capaz de fazer?"
  • Palavras-chave decisivas: auto de fé, rito, sequência dos atos, lugares, posturas, gestos, palavras fixados previamente
  • Armadilha típica: ler o primeiro texto (Santo Ofício proibindo que se joguem pedras e laranjas nos réus) e concluir que a Igreja queria "abrandar as punições". Na verdade, a proibição serve para organizar o rito, para que a solenidade não vire tumulto popular descontrolado. Não se trata de benevolência, mas de formatação do espetáculo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o auto de fé é um rito disciplinado, previamente coreografado, cujo objetivo era ensinar aos fiéis como se portar, o que temer e em que acreditar.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Inquisição e Santo Ofício: tribunal eclesiástico criado pela Igreja Católica durante a Idade Média e reativado com força na Idade Moderna (séculos XV-XIX), especialmente na Espanha (1478) e em Portugal (1536). Sua função declarada era combater heresias, mas na prática atingia judeus convertidos, mouriscos, cristãos-novos, protestantes, acusados de feitiçaria e dissidentes diversos.
  • Auto de fé: ritual público em que a Inquisição apresentava os acusados, lia suas sentenças e executava as penas (reconciliações, açoites, prisão, entrega ao braço secular para queima). Era um evento solene, organizado em praças centrais, com presença da autoridade civil, religiosa e do povo. Sua estrutura era inteiramente coreografada, desde a procissão até a leitura final.
  • Rito como dispositivo de poder: os antropólogos e historiadores (Mary Douglas, Peter Burke, Francisco Bethencourt) mostram que os ritos não são apenas cerimônias vazias — são máquinas de produção de significado e de comportamento. Ao repetir gestos, palavras e posturas, o rito naturaliza uma ordem social, ensina ao espectador o que é aceitável, o que é reprovável e o que acontece com quem transgride.
  • Produção de padrões de conduta: ao exibir publicamente o castigo do herege, o auto de fé não apenas punia o condenado; ele disciplinava toda a comunidade de fiéis, ensinando-lhes a ortodoxia católica e o medo das consequências do desvio. Produzia, portanto, modelos de comportamento religioso e social.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Manda o Santo Ofício da Inquisição que ninguém (...) pare com carroça, caleça ou montaria nem atrapalhe com mesas ou cadeiras o centro das ruas" → o espaço físico é previamente organizado e protegido, como em qualquer encenação solene. A rua é liberada para a procissão.
  • Evidência 2: "nem nesse dia nem nos dos açoites ouse alguém atirar nos réus maçãs, pedras, laranjas nem outra coisa qualquer" → a proibição de arremessar objetos mostra que o rito deve ser contemplado em silêncio e obediência, como um culto, não como um linchamento popular. A ideia não é poupar o réu, é impor ordem no rito.
  • Evidência 3: "o sentido do auto da fé é conferido pela sequência dos atos que o compõem. Os lugares, as posturas, os gestos, as palavras são fixados previamente em toda a sua complexidade" → o segundo texto teoriza a natureza ritualística do auto de fé: tudo é coreografado para produzir efeito simbólico.
  • Evidência 4: "o auto da fé apresenta momentos fortes — durante a preparação, a encenação, o ato e a recepção" → o rito é descrito como uma encenação em etapas, o que reforça sua função de produção de modelos de comportamento.
  • Síntese: o rito do auto de fé ensina publicamente como se deve conduzir um cristão, o que se deve temer e o que acontece aos transgressores. Ele é, portanto, uma máquina de produção de padrões de conduta.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Entender a natureza do auto de fé

O auto de fé era o ápice público da Inquisição. Após meses ou anos de processo secreto, o réu era apresentado em uma cerimônia pública, com procissão, missa, leitura da sentença e, quando cabível, execução pelo braço secular. O espetáculo reunia milhares de pessoas, autoridades civis e religiosas e funcionava como ato de reafirmação da fé católica.

Subpasso 4.2 — Ler o primeiro texto como regulação do rito

O edital proibindo carroças e lançamento de frutas e pedras mostra que a Inquisição precisava controlar até o comportamento do público. A ordem não é abrandar punição, é garantir que o rito seja contemplado com a solenidade esperada. Quando o povo arremessa laranjas, o ritual se transforma em carnaval e perde seu efeito pedagógico. A Inquisição quer que todos observem em posição de respeito, temor e reverência.

Subpasso 4.3 — Ler o segundo texto como teoria do rito

Bethencourt afirma que o auto de fé é um rito em quatro momentos (preparação, encenação, ato e recepção) e que todos os elementos — lugares, posturas, gestos, palavras — são fixados previamente. Essa descrição é de um ritual, ou seja, de uma ação simbólica planejada para produzir efeitos sociais. O que se encena ensina.

Subpasso 4.4 — Nomear o efeito pedagógico do rito

O objetivo final do auto de fé era ensinar à comunidade o que é ser um bom cristão, o que é a heresia, o que acontece ao herege e como a Igreja reafirma a ortodoxia. Ao repetir o rito, produz-se nos fiéis um padrão interno de comportamento: obediência, temor, submissão à ortodoxia, conformidade aos modelos da fé. Essa produção de padrões de conduta é a resposta correta.

Subpasso 4.5 — Verificação

A alternativa D — "produzir padrões de conduta" — traduz com precisão o efeito final do rito inquisitorial. Nenhuma outra alternativa captura o elo entre o aparato ritual descrito e o objetivo disciplinar da Igreja.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) abrandar cerimônias de punição.

Incorreta: o edital não pede compaixão pelo réu; pede silêncio, ordem e reverência. Não há abrandamento: há formalização. A proibição de jogar objetos existe para manter a solenidade do rito, não para poupar sofrimento ao condenado, que continua sendo açoitado ou queimado conforme a sentença.

B) favorecer anseios de violência.

Incorreta: exatamente o oposto. A Inquisição proibia o arremesso de pedras porque a violência popular espontânea quebraria o caráter sagrado do rito. O auto de fé é violência ordenada, ritualizada, sob controle da instituição, e não desencadeamento de ódio coletivo irrefletido.

C) criticar políticas de disciplina.

Incorreta: a Inquisição é precisamente uma política de disciplina religiosa e social, não sua crítica. Nenhum dos textos apresenta postura crítica ao modelo disciplinar; ao contrário, descrevem sua operação em detalhes.

D) produzir padrões de conduta.

Correta: o rito formatado, coreografado e repetido ensina ao público como se portar, o que pensar e em quem confiar. A Igreja demonstra, por meio do auto de fé, sua capacidade de moldar o comportamento social produzindo modelos de conduta religiosa e cívica. Essa é a leitura consagrada por historiadores como Bethencourt, Peter Burke e Adriano Prosperi.

E) ordenar cultos de heresia.

Incorreta: a Igreja não ordena cultos de heresia; ela os persegue. Heresia é a acusação que recai sobre os réus do auto de fé. Seria absurdo atribuir à Inquisição o papel de organizar os cultos que ela própria punia.

🏆 Gabarito: D — o auto de fé, enquanto rito solene e formatado até no comportamento da plateia, demonstra a capacidade da Igreja de produzir padrões de conduta na sociedade moderna.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: todos os elementos dos dois textos (controle do espaço público, proibição de tumulto, coreografia de gestos e palavras, momentos do rito) convergem para a mesma ideia: o rito é um dispositivo pedagógico que produz comportamento nos fiéis.
  • Padrão de cobrança: o ENEM trabalha Inquisição, Reforma, Contrarreforma, festas religiosas e rituais cristãos como formas de controle social. O foco é quase sempre como a Igreja usa a religião para conformar mentalidades coletivas.
  • Generalização: sempre que uma questão descrever ritual, cerimônia, procissão, festa religiosa formatada pela Igreja, a resposta costuma apontar para disciplinamento, produção de comportamento, reforço da ortodoxia.
  • Dica de eliminação rápida: alternativas que digam "abrandar", "favorecer violência popular" ou "criticar disciplina" contradizem a lógica do rito inquisitorial. Em 30 segundos, elimina-se A, B, C e E.
  • Conexões com outros temas: Reforma Protestante e Contrarreforma; autos de fé em Goa e no Brasil colonial; cristãos-novos e perseguição inquisitorial; ritos religiosos e poder simbólico em Peter Burke e Mary Douglas; processo civilizador em Norbert Elias.

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