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Questão 84ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

TEXTO I

Uma filosofia da percepção que queira reaprender a

ver o mundo restituirá à pintura e às artes em geral seu

“lugar verdadeiro.

MERLEAU-PONTY M. Conversas: 1948. São Pauo Marbns Fontes, 2004.

TEXTO II

Os grandes autores de cinema nos pareceram confrontáveis não apenas com pintores, arquitetos, músicos, mas também com pensadores. Eles pensam

com imagens, em vez de conceitos.

DELEUZE, G Cinema 1. a imagem-movimento. São Paulo: Brasilense, 1983 (adaptado).

De que modo os textos sustentam a existência de um saber ancorado na sensibilidade?

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Estética, fenomenologia da percepção, filosofia da arte
  • ⚡ Nível: Difícil — exige compreender que ambos os autores colocam a sensibilidade (percepção visual, imagem) como via de conhecimento, e não como simples apoio à razão
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Estética e conhecimento sensível; filosofia contemporânea
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "De que maneira os dois textos defendem que existe um saber baseado na sensibilidade e não apenas no raciocínio conceitual?"
  • Palavras-chave decisivas: filosofia da percepção, reaprender a ver o mundo, pensam com imagens, em vez de conceitos, saber ancorado na sensibilidade
  • Armadilha típica: reduzir "saber sensível" a "juízo de gosto" kantiano (belo/feio), que é uma leitura clássica, mas não é o que dizem Merleau-Ponty e Deleuze. Nos dois, a sensibilidade não é apenas avaliação estética: é forma de conhecer. A questão pede precisamente o deslocamento do saber para o terreno da percepção.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a percepção sensível (ver, olhar, perceber) é entendida pelos filósofos como uma experiência de conhecimento, e não um simples apoio, enfeite ou gosto subjetivo da razão.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Merleau-Ponty e a fenomenologia da percepção: Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) é autor da obra Fenomenologia da Percepção, central na filosofia francesa do século XX. Para ele, o corpo percebe o mundo antes de qualquer conceito e a percepção é constitutiva do próprio saber. Reaprender a ver é, portanto, recuperar uma camada primordial de conhecimento.
  • Deleuze e o cinema como pensamento: Gilles Deleuze (1925-1995) escreve dois volumes sobre cinema (A Imagem-Movimento e A Imagem-Tempo) nos quais defende que o cinema é uma forma de pensamento que opera por imagens. Para ele, os grandes cineastas são pensadores no mesmo nível dos filósofos, arquitetos ou músicos, só que produzem conhecimento por meio de imagens em movimento, e não por conceitos escritos.
  • Saber sensível: oposição clássica na filosofia entre conhecimento racional/conceitual (razão pura, lógica, abstração) e conhecimento sensível (percepção, experiência corporal, afetos, imagens). A tradição racionalista costuma subordinar o sensível ao racional. Merleau-Ponty e Deleuze invertem essa hierarquia e atribuem ao sensível uma dignidade cognitiva própria.
  • Juízo de gosto em Kant: na Crítica da Faculdade do Juízo, Kant analisa o belo como um juízo subjetivo universalizável, ligado ao prazer desinteressado. Embora seja uma teoria importante da estética, é diferente da tese fenomenológica do saber perceptivo.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Uma filosofia da percepção que queira reaprender a ver o mundo" → Merleau-Ponty afirma que há uma filosofia cuja tarefa é reaprender a ver, ou seja, que o ato de olhar é o próprio campo do pensamento filosófico.
  • Evidência 2: "restituirá à pintura e às artes em geral seu lugar verdadeiro" → a arte não é ornamento, é o lugar onde o olhar se educa. Logo, a arte produz conhecimento por meio da percepção.
  • Evidência 3: "grandes autores de cinema nos pareceram confrontáveis não apenas com pintores, arquitetos, músicos, mas também com pensadores" → Deleuze equipara cineastas a pensadores, atribuindo-lhes estatuto cognitivo, não decorativo.
  • Evidência 4: "Eles pensam com imagens, em vez de conceitos" → a imagem é elevada ao mesmo patamar do conceito na produção de conhecimento, o que é o ponto central da questão.
  • Síntese: para Merleau-Ponty, o olhar educado pela arte é experiência de conhecimento; para Deleuze, a imagem é pensamento. Ambos defendem que há saber na sensibilidade, e não apenas emoção ou juízo.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a tese comum aos dois textos

Os dois trechos sustentam a mesma ideia: a sensibilidade — em especial o ato de olhar e a imagem — é uma via legítima de conhecer o mundo. Não é apenas um complemento lúdico ou afetivo da razão; é um modo de pensamento tão válido quanto a conceituação filosófica.

Subpasso 4.2 — Desmontar a hierarquia razão/sensibilidade

A tradição filosófica cartesiana e kantiana costumava pôr a razão acima da sensibilidade. Os sentidos enganavam, a razão corrigia. Merleau-Ponty e Deleuze pertencem a uma tradição (fenomenologia e filosofia contemporânea francesa) que desfaz essa hierarquia: o corpo percebe antes de conceituar, e a imagem pensa antes de ser traduzida em palavras. Logo, o saber sensível tem autonomia.

Subpasso 4.3 — Ler o ponto preciso em Merleau-Ponty

Quando Merleau-Ponty diz que a filosofia da percepção deve "reaprender a ver o mundo", ele não está pedindo que o filósofo tenha uma experiência estética ou sentimental. Está pedindo que o filósofo reconheça no olhar uma forma de acesso ao mundo. O olhar é, nesse sentido, experiência de conhecimento — é por meio dele que o mundo se dá a ser conhecido.

Subpasso 4.4 — Ler o ponto preciso em Deleuze

Deleuze vai na mesma direção: os cineastas pensam com imagens. Isso significa que a imagem não é um meio para transmitir uma ideia já pronta; é ela mesma o lugar onde o pensamento acontece. Um filme de Hitchcock ou de Godard produz pensamento visual que não pode ser traduzido integralmente em conceitos escritos. Isso eleva a sensibilidade (imagem, som, movimento) à categoria de atividade cognitiva.

Subpasso 4.5 — Escolher a alternativa compatível

A única alternativa que capta esse deslocamento é a C: "Considerando o olhar como experiência de conhecimento". Ela traduz fielmente a proposta dos dois textos, ao afirmar que olhar é conhecer, não apenas sentir ou avaliar.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Admitindo o belo como fenômeno transcendental.

Incorreta: a ideia de belo transcendental remete a certa metafísica estética (algo entre Platão e Schopenhauer), não ao projeto de Merleau-Ponty nem de Deleuze. Ambos estão justamente interessados em trazer a arte para a experiência concreta do corpo e da imagem, e não em postular um belo além do mundo.

B) Reafirmando a vivência estética como juízo de gosto.

Incorreta: o juízo de gosto é uma categoria kantiana, ligada ao belo como prazer desinteressado e universalizável. Não é sobre isso que falam os dois textos. Merleau-Ponty e Deleuze não reduzem a experiência estética a avaliar se algo é belo; defendem que a percepção e a imagem produzem pensamento.

C) Considerando o olhar como experiência de conhecimento.

Correta: é exatamente o que Merleau-Ponty propõe quando pede uma filosofia da percepção que "reaprenda a ver o mundo" e o que Deleuze defende quando afirma que cineastas "pensam com imagens". O olhar, em ambos, é modo de conhecer.

D) Apontando as formas de expressão como auxiliares da razão.

Incorreta: essa alternativa é a armadilha mais perigosa porque parece razoável. Mas "auxiliares da razão" mantém a hierarquia tradicional: a razão é a protagonista, a arte é acessório. Os dois autores recusam exatamente essa subordinação. Para eles, arte e percepção produzem pensamento autônomo, não são suporte da razão conceitual.

E) Estabelecendo a inteligência como implicação das representações.

Incorreta: a alternativa soa vagamente filosófica, mas desloca o debate para o campo das representações mentais, lembrando teorias cognitivistas ou empiristas. Merleau-Ponty e Deleuze não trabalham com a ideia de representação mental como fundamento da inteligência — a fenomenologia, aliás, critica essa noção. A tese central de ambos é que percepção e imagem são ativas, não apenas representações.

🏆 Gabarito: C — os dois textos sustentam que o olhar, e de modo mais amplo a imagem, é experiência de conhecimento, ou seja, uma forma legítima e autônoma de saber ancorada na sensibilidade.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: o par Merleau-Ponty e Deleuze forma uma dupla clássica para defender que a percepção é pensamento. A alternativa C é a única que preserva essa autonomia cognitiva do sensível.
  • Padrão de cobrança: o ENEM traz com frequência questões de estética contemporânea usando autores como Merleau-Ponty, Deleuze, Benjamin, Adorno. Costuma cobrar o deslocamento da arte como ornamento para a arte como forma de conhecimento.
  • Generalização: quando uma questão estiver comparando arte e filosofia, o gabarito normalmente elogia a arte como modo próprio de pensamento, não como mero enfeite, ilustração ou apoio à razão.
  • Dica de eliminação rápida: alternativas que subordinam arte à razão ("auxiliares da razão") ou reduzem o estético a "gosto" caem na tradição que os dois filósofos criticam. Descartá-las é o primeiro passo.
  • Conexões com outros temas: fenomenologia husserliana; Walter Benjamin e a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica; Nietzsche e a afirmação da vida sensível; Bergson e a intuição como modo de conhecimento.

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