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Questão 80ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

Advento da Polis, nascimento da filosofia: entre as duas ordens de fenômenos, os vínculos são demasiado estreitos para que o pensamento racional não apareça, em suas origens, solidário das estruturas sociais e mentais próprias da cidade grega. Assim recolocada na história, a filosofia despoja-se desse caráter de revelação absoluta que às vezes lhe foi atribuído, saudando, na jovem ciência dos jônios, a razão intemporal que veio encarnar-se no Tempo. A escola de Mileto não viu nascer a Razão; ela construiu uma Razão, uma primeira forma de racionalidade. Essa razão grega não é a razão experimental da ciência contemporânea.

VERNANT, J. P. Origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Difel, 2002.

Os vínculos entre os fenômenos indicados no trecho foram fortalecidos pelo surgimento de uma categoria de pensadores, a saber:

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Origens do pensamento grego, pólis e sofística
  • ⚡ Nível: Médio — o texto é denso e exige conhecer as escolas pré-socráticas e o papel dos sofistas na cidade democrática
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Filosofia Antiga, relação entre democracia grega, retórica e racionalidade
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual categoria de pensadores fortaleceu os vínculos entre a pólis (cidade) e o surgimento da racionalidade filosófica na Grécia?"
  • Palavras-chave decisivas: Polis, filosofia, estruturas sociais, vínculos, primeira forma de racionalidade
  • Armadilha típica: confundir "origem do pensamento racional" com os pré-socráticos de Mileto e responder que os jônios são a chave. O texto, porém, pede quem fortaleceu a ligação entre pólis e razão — ou seja, aqueles que operaram dentro da cidade, no debate público. E Vernant é explícito: a escola de Mileto iniciou uma forma de razão, mas ela não é o elo com a pólis.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar a categoria de pensadores cuja atividade se confunde com a vida cívica, com a prática do discurso, da persuasão e da argumentação diante do cidadão.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Pólis grega: a cidade-Estado grega, sobretudo Atenas do século V a.C., é o espaço em que a palavra se torna instrumento central da vida política. A ágora, a assembleia e os tribunais exigem do cidadão a capacidade de argumentar publicamente para convencer seus pares.
  • Nascimento da filosofia: Jean-Pierre Vernant, o autor citado, defende que a filosofia grega nasce articulada à pólis e não por geração espontânea. A passagem do mito ao lógos é um processo social, e a razão emerge como uma prática ligada ao debate cívico.
  • Sofistas: são pensadores itinerantes que surgem no século V a.C., deslocando-se de cidade em cidade, oferecendo ensino pago em troca da instrução dos jovens em áreas como retórica, gramática, política e argumentação. Protágoras, Górgias, Hípias, Pródico são os nomes mais conhecidos. Eles encarnam a função educativa e política da palavra na democracia.
  • Retórica como ferramenta cívica: a retórica é a arte de bem falar para persuadir o interlocutor. Nos tribunais e assembleias da democracia grega, saber falar era saber participar da vida política. Por isso a retórica torna-se disciplina central — e o sofista, o especialista em ensiná-la.
  • Outras escolas: os epicuristas, estoicos, peripatéticos e poetas rapsodos são outras tradições importantes, mas cada uma cumpre um papel diferente — algumas posteriores à consolidação da pólis clássica, outras ligadas à vida interior ou ao mito.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Advento da Polis, nascimento da filosofia: entre as duas ordens de fenômenos, os vínculos são demasiado estreitos" → a tese de Vernant une explicitamente o surgimento da cidade ao surgimento da filosofia.
  • Evidência 2: "o pensamento racional não apareça, em suas origens, solidário das estruturas sociais e mentais próprias da cidade grega" → a racionalidade grega é um produto social da cidade, não um milagre individual.
  • Evidência 3: "A escola de Mileto não viu nascer a Razão; ela construiu uma Razão, uma primeira forma de racionalidade" → Vernant ressalta que essa primeira forma é incipiente e não é a única, abrindo espaço para outras formas de razão ligadas mais diretamente à vida cívica.
  • Evidência 4: "Essa razão grega não é a razão experimental da ciência contemporânea" → a razão grega é discursiva, argumentativa, ligada ao debate público — exatamente o terreno dos sofistas.
  • Síntese: o comando pede a categoria de pensadores que fortalece o elo entre a pólis e a filosofia. Essa categoria é aquela que opera no centro da vida política pela palavra — os sofistas.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Entender o problema histórico colocado por Vernant

Vernant argumenta que a filosofia grega não brota isolada dos filósofos de Mileto. Ela é um fenômeno que se consolida junto com a pólis, isto é, junto com a cidade-Estado que faz do debate público o modo de tomar decisões coletivas. Essa articulação exige pensadores capazes de ensinar a cidadãos comuns como argumentar.

Subpasso 4.2 — Ligar pólis e palavra

A democracia ateniense coloca o cidadão no centro da decisão política. Para participar, ele precisa saber falar bem, construir argumentos, refutar teses adversárias, defender-se em tribunal, convencer a assembleia. A palavra deixa de ser monopólio de sacerdotes ou poetas rapsodos e passa a ser ferramenta cívica universal. Essa demanda cria um novo tipo de profissional: o mestre de retórica.

Subpasso 4.3 — Identificar a categoria de pensadores

Os sofistas são exatamente esses mestres. Protágoras, Górgias e Hípias atravessavam a Grécia ensinando jovens a argumentar. Eles consolidaram a ideia de que a palavra bem treinada era poder político. Por esse motivo, figuram como a categoria que mais estreitou o vínculo entre a vida da pólis e a nova racionalidade filosófica — uma racionalidade discursiva, retórica, argumentativa.

Subpasso 4.4 — Testar as demais categorias

Os epicuristas defendem a vida feliz, mas surgem mais tarde, no período helenístico, longe do momento em que a filosofia se vincula ao nascimento da pólis clássica. Os estoicos também são posteriores e dedicam-se à ética da resistência aos infortúnios. Os peripatéticos são a escola aristotélica, voltada para o ensino enciclopédico, mas já tardia em relação ao elo original entre pólis e filosofia. Os poetas rapsodos, por sua vez, representam exatamente o momento anterior à filosofia — o mundo do mito — que Vernant aponta como o que foi superado.

Subpasso 4.5 — Verificação

Somente uma categoria encaixa na tese do texto: aquela cuja atividade se define pelo ensino da palavra pública — os sofistas. Eles representam a passagem do mito ao lógos no terreno político e educativo, fortalecendo o vínculo entre pólis e razão.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Os epicuristas, envolvidos com o ideal de vida feliz.

Incorreta: o epicurismo é uma escola helenística, surge no fim do século IV a.C., bem depois do nascimento da pólis democrática clássica. Além disso, seu foco é a ataraxia individual, a busca da felicidade privada, e não o fortalecimento da vida cívica. A escola de Epicuro até recomenda afastamento da política.

B) Os estoicos, dedicados à superação dos infortúnios.

Incorreta: o estoicismo é também helenístico-romano, posterior ao elo originário entre pólis e filosofia que Vernant discute. Seu eixo é a ética do autocontrole diante do destino, não a construção da razão política no interior da cidade grega clássica.

C) Os sofistas, comprometidos com o ensino da retórica.

Correta: são os pensadores que, atuando na pólis democrática, ensinaram aos cidadãos a arte de argumentar e persuadir. Ao transformar a palavra em ferramenta cívica e em objeto de ensino, consolidaram o vínculo entre a cidade-Estado e a racionalidade filosófica discursiva, exatamente o elo que Vernant enfatiza.

D) Os peripatéticos, empenhados na dinâmica do ensino.

Incorreta: os peripatéticos são a escola fundada por Aristóteles, cujo funcionamento no Liceu se dá já no século IV a.C. Apesar de importantes para a filosofia, não são eles que fundam o vínculo entre pólis e razão; pelo contrário, chegam num momento em que esse vínculo já havia sido tecido e são, em parte, seus herdeiros sistemáticos.

E) Os poetas rapsodos, responsáveis pela narrativa do mito.

Incorreta: os rapsodos recitavam Homero e Hesíodo, transmitindo o universo mítico. Eles representam precisamente o modelo anterior, que a filosofia vem substituir. Em vez de fortalecer os vínculos entre pólis e razão, são a cultura oral anterior ao lógos racional.

🏆 Gabarito: C — os sofistas, ao ensinarem a retórica como ferramenta da vida cívica, fortaleceram os vínculos entre o advento da pólis e o nascimento da filosofia, como sustenta Vernant.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra C é a única alternativa que cita uma categoria de pensadores historicamente contemporâneos à consolidação da pólis clássica e cuja atividade central — ensinar retórica — é o que articula cidade e razão no argumento de Vernant.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra filosofia pré-socrática e sofística com frequência, muitas vezes a partir de trechos de comentadores como Vernant, Kirk-Raven, Werner Jaeger. A questão testa se o estudante sabe associar cada escola ao seu contexto histórico.
  • Generalização: sempre que uma questão citar "pólis", "democracia ateniense", "ensino", "retórica", "argumentação", a resposta quase sempre passa pelos sofistas ou por Sócrates. E o ENEM tende a valorizar o papel dos sofistas como educadores políticos, não a visão pejorativa construída por Platão.
  • Dica de eliminação rápida: estoicos e epicuristas são sempre helenísticos, portanto posteriores à fundação clássica da pólis; elimina duas alternativas em segundos. Peripatéticos são aristotélicos, também tardios. Rapsodos representam o mito, oposto da filosofia. Sobra a C.
  • Conexões com outros temas: passagem do mito ao lógos; papel de Sócrates na filosofia ateniense; democracia e cidadania em Atenas; retórica em Aristóteles; críticas platônicas aos sofistas.

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