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Questão 79ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

Hoje sou um ser inanimado, mas já tive vida pulsante em seivas vegetais, fui um ser vivo; é bem verdade que do reino vegetal, mas isso não me tirou a percepção de vida vivida como tamborete. Guardo apreço pelos meus criadores, as mãos que me fizeram, me venderam, e pelas mulheres que me usaram para suas vendas e de tantas outras maneiras. Essas pessoas, sim, tiveram suas subjetividades, singularidades e pluralidades, que estão incorporadas a mim. É preciso considerar que a nossa história, de móveis de museus, está para além da mera vinculação aos estilos e à patrimonialização que recebemos como bem material vinculado ao patrimônio imaterial. A nossa história está ligada aos dons individuais das pessoas e suas práticas sociais. Alguns indivíduos consagravam-se por terem determinados requisitos, tais como o conhecimento de modelos clássicos ou destreza nos desenhos.

FREITAS, J. M.; OLIVEIRA, L. R. Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, n. 14, maio-ago. 2020 (adaptado).

Ao descrever-se como patrimônio museológico, o objeto abordado no texto associa a sua história às

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Cultura material, patrimônio e memória social
  • ⚡ Nível: Médio — exige leitura atenta de um texto em primeira pessoa e articulação com o conceito de patrimônio imaterial ligado a saberes e práticas
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Patrimônio cultural, cultura material e imaterial; reconhecimento dos sujeitos sociais como produtores de cultura
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Ao se descrever como patrimônio museológico, a qual dimensão o próprio objeto vincula a sua história?"
  • Palavras-chave decisivas: história, dons individuais, práticas sociais, modelos clássicos, destreza nos desenhos
  • Armadilha típica: confundir "patrimônio museológico" com a ideia estreita de preservação do prédio do museu ou do estilo estético do móvel, caindo em alternativas que falam de conservação arquitetônica ou de estilos. O texto insiste justamente no contrário: o valor do objeto está além disso.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o tamborete atribui sua história às pessoas que o produziram e usaram, valorizando saberes, habilidades e vivências culturais incorporadas no objeto.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Cultura material e imaterial: a cultura material é formada pelos objetos (utensílios, móveis, construções); a cultura imaterial corresponde aos saberes, técnicas, modos de fazer, histórias e práticas sociais que esses objetos carregam. A museologia contemporânea entende que todo objeto patrimonial é também portador de dimensões imateriais.
  • Patrimônio e sujeitos produtores: a concepção atual de patrimônio ultrapassa o critério estético-estilístico e valoriza os grupos sociais que produzem e utilizam os bens. Artesãos, quitandeiras, baianas de tabuleiro, marceneiros populares passam a ser reconhecidos como sujeitos centrais da história dos objetos.
  • Biografia dos objetos: cada objeto carrega uma trajetória de mãos que o fabricaram, venderam, usaram e transmitiram. Ao narrar-se em primeira pessoa, o tamborete aciona a ideia de que o bem material só faz sentido quando se remete às competências dos indivíduos que ali deixaram sua marca.
  • Saberes e destrezas populares: o texto menciona "conhecimento de modelos clássicos" e "destreza nos desenhos". Essas são habilidades técnico-artísticas reconhecidas socialmente — não são vocações religiosas, nem perícia de antropólogo, nem talento econômico. São habilidades culturais de quem criou e de quem usou.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Guardo apreço pelos meus criadores, as mãos que me fizeram, me venderam, e pelas mulheres que me usaram" → o tamborete ancora sua história em três grupos de sujeitos (criadores, vendedores, usuárias) cujo valor está no que fizeram com suas mãos e no modo como viveram.
  • Evidência 2: "Essas pessoas, sim, tiveram suas subjetividades, singularidades e pluralidades, que estão incorporadas a mim" → o móvel afirma que as experiências culturais dessas pessoas ficaram incorporadas a ele, logo o valor museológico está nas pessoas, não só no objeto.
  • Evidência 3: "está para além da mera vinculação aos estilos e à patrimonialização que recebemos como bem material" → o texto recusa explicitamente a leitura que reduz o móvel ao estilo ou ao bem material isolado.
  • Evidência 4: "Alguns indivíduos consagravam-se por terem determinados requisitos, tais como o conhecimento de modelos clássicos ou destreza nos desenhos" → aqui estão explicitados os atributos que tornam os sujeitos relevantes: conhecimento artístico e habilidade técnica, ou seja, competências culturais e artísticas.
  • Síntese: o texto transfere o eixo da história patrimonial do objeto em si para as habilidades artísticas e culturais das pessoas que o produziram, comercializaram e utilizaram.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a tese central do texto

O tamborete, personificado, defende que a história de um móvel de museu não se explica apenas pelo estilo, pela marcenaria ou pela classificação estética, mas principalmente pelas pessoas que o construíram, venderam e usaram. O objeto é, portanto, um arquivo de memórias sociais vivas.

Subpasso 4.2 — Localizar os atributos atribuídos às pessoas

No final do excerto aparecem duas palavras-chave: "conhecimento de modelos clássicos" e "destreza nos desenhos". Esses dois termos descrevem habilidades. A primeira é um saber cultural (conhecer referências, tradições, padrões); a segunda é uma competência artística (desenhar bem, executar com perícia). Somadas, caracterizam exatamente o que se chama de habilidades artísticas e culturais.

Subpasso 4.3 — Cruzar com as mulheres que usaram o móvel

O texto lembra que baianas usavam o tamborete "para suas vendas e de tantas outras maneiras". As vendedoras de rua são, na cultura brasileira, depositárias de um conjunto de saberes culinários, rituais e estéticos. Nesse sentido, "tantas outras maneiras" inclui usos culturais ligados a práticas religiosas, alimentares, sociais e simbólicas. Ou seja, o objeto também absorveu cultura das usuárias.

Subpasso 4.4 — Costurar com a definição de patrimônio imaterial

Quando o texto diz que a história do móvel está "para além da mera vinculação aos estilos e à patrimonialização que recebemos como bem material vinculado ao patrimônio imaterial", ele pede que o leitor enxergue o objeto a partir do patrimônio imaterial — os saberes, fazeres e referências culturais das pessoas. Essa articulação entre o bem material (o tamborete) e as habilidades das pessoas que o cercam é o coração do argumento.

Subpasso 4.5 — Verificação

O objeto atribui sua história: (1) aos criadores, reconhecidos por conhecimento artístico; (2) aos vendedores, parte da cadeia de circulação; (3) às mulheres que o usaram em práticas socioculturais. A palavra que sintetiza tudo isso é "habilidades artísticas e culturais dos sujeitos". A alternativa A é a única coerente com o recorte proposto pelo texto.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) habilidades artísticas e culturais dos sujeitos.

Correta: é exatamente o que o texto afirma. O tamborete ancora sua história nas competências técnicas e culturais dos indivíduos que o fabricaram (destreza nos desenhos, modelos clássicos) e das mulheres que o usaram em suas práticas sociais. Patrimônio material e imaterial se articulam por meio dessas habilidades.

B) vocações religiosas e pedagógicas dos mestres.

Incorreta: o texto não menciona, em nenhum momento, vocação religiosa nem prática pedagógica. Embora haja móveis ligados a rituais e a escolas de ofícios, o recorte do tamborete é outro — o de trabalho manual artístico e uso cotidiano. A alternativa transporta o leitor para um universo conceitual estranho ao texto.

C) naturezas antropológica e etnográfica dos expositores.

Incorreta: a questão não trata dos curadores, antropólogos ou equipes que expõem o móvel. O olhar é o do próprio objeto falando sobre quem o criou e usou, não sobre quem o estuda ou catalogou. A alternativa inverte o sujeito da história: quem dá significado ao móvel não é o expositor, mas o artesão e o usuário popular.

D) preservações arquitetônica e visual dos conservatórios.

Incorreta: essa alternativa é a armadilha mais evidente, porque se apega ao estilo e à conservação — categorias que o próprio texto rejeita expressamente. O trecho afirma que a história está "para além da mera vinculação aos estilos". Apelar para preservação arquitetônica é ignorar a tese explícita do excerto.

E) competências econômica e financeira dos comerciantes.

Incorreta: embora o tamborete cite aqueles que o venderam, o texto não elogia sua astúcia econômica nem sua eficiência financeira. A referência ao comércio é apenas parte da cadeia de circulação do objeto. O critério proposto pelo texto é a habilidade artística, não a competência financeira.

🏆 Gabarito: A — o tamborete vincula sua história às habilidades artísticas e culturais dos sujeitos que o produziram e utilizaram, expressas nos "dons individuais", no "conhecimento de modelos clássicos" e na "destreza nos desenhos".

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a alternativa A é a única que traduz com fidelidade a ideia de que o valor patrimonial do tamborete reside nos saberes técnicos e nas práticas culturais dos sujeitos envolvidos em sua biografia, conforme o texto repete em diferentes passagens.
  • Padrão de cobrança: o ENEM adora questões sobre patrimônio imaterial com textos que personificam objetos, narram festas populares ou descrevem saberes tradicionais. Sempre que aparecer um texto mostrando que o bem cultural carrega "modos de fazer" e "modos de viver", o foco recai sobre as pessoas e seus saberes.
  • Generalização: em questões sobre cultura material e imaterial, o sujeito relevante costuma ser quem produz e usa o bem, não a instituição que o guarda. Procure a alternativa que valoriza as pessoas e suas práticas.
  • Dica de eliminação rápida: ao ver termos como "conservatórios", "expositores" ou "mestres religiosos" em alternativas, desconfie. São quase sempre distratores que deslocam o eixo das pessoas comuns produtoras de cultura para instituições ou categorias irrelevantes ao texto. Em 30 segundos, eliminam-se C, D e E.
  • Conexões com outros temas: IPHAN e registro de bens imateriais (baianas do acarajé, modo de fazer viola de cocho); cultura popular brasileira; história dos ofícios e do trabalho artesanal; memória e identidade social.

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