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Questão 75ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

O povo Kambeba é o povo das águas. Os mais velhos costumam contar que o povo nasceu de uma gota-d'água que caiu do céu em uma grande chuva. Nessa gota estavam duas gotículas: o homem e a mulher. “Por essa narrativa e cosmologia indígena de que nós somos o povo das águas é que o rio nos tem fundamental importância”, diz Márcia Wayna Kambeba, mestre em Geografia e escritora. Todos os dias, ela ia com o pai observar o rio. lá em silêncio e, antes que tomasse para si a palavra, era interrompida. “Ouça o rio”, o pai dizia. Depois de cerca de duas horas a ouvir as águas do Solimões, ela mergulhava. “Confie no rio e aprenda com ele”, “Fui entender mais tarde, com meus estudos e vivências, que meu pai estava me apresentando à sabedoria milenar do rio”.

Rios amazônicos influenciam no agro e em reservatórios do Sudeste.

Disponível em www.uo com.br Acesso em 14 out. 2021.

Pelo descrito no texto, o povo Kambeba tem o rio como um(a)

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia/Geografia → Cultura indígena, cosmovisão, patrimônio imaterial e relação simbólica com o território
  • ⚡ Nível: Fácil — exige interpretar uma narrativa indígena e nomear corretamente o tipo de vínculo entre o povo Kambeba e o rio
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Diversidade cultural, povos originários e patrimônio (CH-3: comparar diferentes processos formativos das culturas, identificando suas matrizes)
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que tipo de vínculo o povo Kambeba mantém com o rio Solimões, segundo a narrativa de Márcia Wayna Kambeba?"
  • Palavras-chave decisivas: povo das águas, cosmologia indígena, fundamental importância, sabedoria milenar do rio, confie no rio e aprenda com ele
  • Armadilha típica: classificar o rio como "objeto tombado e museográfico" (A) por confundir patrimônio cultural com patrimônio material/oficial. Outra armadilha é "herança religiosa e sacralizada" (B): a relação Kambeba com o rio é cosmológica, mas não pertence à categoria sociológica de "religião institucional" — é cosmovisão indígena, dimensão mais ampla. Há ainda quem caia em "cenário bucólico e paisagístico" (C), reduzindo a relação a estética visual.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o rio é, simultaneamente, referência cultural ancestral (cosmologia, identidade, saberes transmitidos) e vínculo afetivo (memória do pai, infância, escuta cotidiana). Patrimônio cultural e afetivo une as duas dimensões.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Cosmologia indígena: sistema integrado de explicações sobre origem, lugar e destino dos seres humanos, animais, elementos naturais e seres espirituais. Não é "religião" no sentido ocidental institucional; é uma maneira global de compreender o mundo, em que natureza e cultura não são separadas.
  • Patrimônio cultural imaterial: bens culturais transmitidos de geração em geração, como saberes, modos de fazer, narrativas, rituais, formas de expressão. O conceito ampliou, no Brasil (Decreto 3.551/2000) e na UNESCO (Convenção 2003), a antiga ideia de patrimônio restrita a edificações e objetos. Para os povos indígenas, rios, florestas e territórios são patrimônio cultural vivo, não objetos congelados.
  • Vínculo afetivo com o território: dimensão subjetiva e emocional da relação com o lugar — memória pessoal, laços familiares, lembranças geracionais. No texto, o pai ensinando a filha a "ouvir o rio" é exemplo claro desse vínculo.
  • Diferença entre patrimônio tombado e patrimônio cultural vivo: "tombamento" é instrumento jurídico do Estado para preservar bens materiais. Mas há patrimônio cultural que existe sem tombamento, na vivência cotidiana das comunidades. Para os Kambeba, o rio não é "objeto" em vitrine; é parte constitutiva de quem eles são.
  • Cosmovisão das águas (povos amazônicos): muitos povos indígenas amazônicos (Kambeba, Tikuna, Kokama, ribeirinhos) constroem identidade a partir do rio: nascimento mítico nas águas, transporte, alimentação, ritmo de cheia e seca, mitologia. O rio não é recurso; é sujeito de relação.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "o povo das águas" + "nasceu de uma gota-d'água que caiu do céu" → o rio é parte da origem mítica do povo. Trata-se de cosmologia, ou seja, dimensão cultural fundante. Isso descarta o registro meramente paisagístico (C).
  • Evidência 2: "Todos os dias, ela ia com o pai observar o rio" + "Ouça o rio" → o vínculo passa de geração para geração na esfera familiar e cotidiana. Aqui está o elemento afetivo: aprendizagem amorosa entre pai e filha. Isso descarta o registro de objeto-museu (A).
  • Evidência 3: "sabedoria milenar do rio" → o rio é fonte de conhecimento ancestral, transmitido entre gerações. Trata-se de patrimônio cultural imaterial vivo, e não de bem submetido a tombamento institucional.
  • Síntese: combinando origem mítica + transmissão geracional + saber ancestral + relação afetiva, chega-se a "patrimônio cultural e afetivo".

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o tipo de vínculo descrito

A narrativa apresenta o rio como elemento que (1) explica a origem do povo, (2) é referência cosmológica diária, (3) é fonte de aprendizagem geracional, (4) está ligado à memória afetiva (pai-filha). Esse conjunto não é cabível na categoria de "objeto" (que é estática), nem na de "religião" institucional (que pressupõe doutrina, clero, templos), nem na de "paisagem" (que é externa e meramente visual). É um vínculo identitário, simbólico e afetivo.

Subpasso 4.2 — Aplicar a categoria de patrimônio cultural

A categoria contemporânea de patrimônio cultural — especialmente no recorte do patrimônio imaterial — abrange justamente as referências culturais que estruturam a identidade de um grupo: saberes, narrativas, modos de relação com o território. O rio Solimões, para os Kambeba, é referência cultural ancestral, transmitida pela oralidade e pela vivência cotidiana. É patrimônio porque organiza a identidade do grupo e porque é transmitido geracionalmente.

Subpasso 4.3 — Acrescentar a dimensão afetiva

A cena entre Márcia e seu pai dá ao patrimônio uma camada afetiva: o aprendizado se faz no silêncio, no mergulho, na confiança. Aqui não há doutrina, mas amor e escuta. Por isso a alternativa precisa juntar as duas palavras: cultural (porque pertence à identidade coletiva do povo) e afetivo (porque é vivido na intimidade familiar e pessoal).

Subpasso 4.4 — Verificação

A alternativa E ("patrimônio cultural e afetivo") combina exatamente essas duas dimensões. As demais perdem ou a dimensão cultural-coletiva (D), ou a dimensão afetivo-vivencial (A), ou trocam por uma categoria estrangeira à cosmovisão indígena (B, religião) ou por uma categoria estética externa (C, paisagem).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) objeto tombado e museográfico.

Incorreta: "objeto tombado" pertence ao registro jurídico-institucional do patrimônio material brasileiro (IPHAN). A relação Kambeba com o rio é viva, cotidiana e cosmológica, não estática nem dependente de proteção estatal. Além disso, "objeto" coisifica o rio, que para os Kambeba é sujeito de relação. A alternativa transforma uma realidade vivida em peça de museu.

B) herança religiosa e sacralizada.

Incorreta: embora a relação tenha caráter sagrado, classificar a cosmovisão indígena como "religião" no molde ocidental (com doutrina, clero, ritos institucionalizados) é reducionismo etnocêntrico. A própria autora usa o termo cosmologia, mais amplo que religião. A alternativa força o vocabulário religioso ocidental sobre uma realidade que se descreve em outros termos.

C) cenário bucólico e paisagístico.

Incorreta: "bucólico/paisagístico" descreve uma relação estética e externa com a natureza — o rio como cartão-postal, como cenário a ser contemplado de fora. O texto mostra o oposto: o rio é parte constitutiva da identidade Kambeba, fonte de saber ancestral, presença ativa que ensina. Reduzi-lo a paisagem é descartar tudo que o texto afirma.

D) riqueza individual e efêmera.

Incorreta: o texto descreve uma relação coletiva ("o povo das águas") e milenar ("sabedoria milenar do rio"). "Individual e efêmera" é exatamente o oposto: nem é de uma só pessoa, nem é passageira. Patrimônio cultural é, por definição, transgeracional e compartilhado.

E) patrimônio cultural e afetivo.

Correta: combina as duas dimensões presentes no texto — a cultural (cosmologia ancestral, saber transmitido entre gerações, identidade do "povo das águas") e a afetiva (a memória da infância com o pai, a escuta cotidiana, o aprendizado amoroso). É a categoria contemporânea adequada para descrever a relação dos Kambeba com o Solimões.

🏆 Gabarito: E — o rio é, ao mesmo tempo, referência cultural milenar do povo Kambeba (origem cosmológica, saber ancestral) e vínculo afetivo vivenciado nas relações familiares cotidianas, configurando patrimônio cultural e afetivo.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que combina as duas dimensões centrais do texto — a coletiva-cultural (cosmologia, identidade, saber milenar) e a individual-afetiva (memória do pai, escuta, mergulho). Todas as outras descartam uma dessas dimensões ou impõem categorias estranhas à cosmovisão indígena.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra com regularidade o tema dos povos indígenas e da diversidade cultural a partir de relatos em primeira pessoa. A resposta correta, em geral, é aquela que respeita o vocabulário do próprio povo descrito e usa categorias contemporâneas amplas (patrimônio imaterial, cosmologia, identidade) em vez de categorias estreitas ou eurocêntricas (religião, museu, paisagem).
  • Generalização: sempre que um texto descreve a relação entre um povo tradicional e seu território como fonte de identidade e saber, a resposta tende a apontar para patrimônio cultural (e, frequentemente, afetivo). Cuidado para não reduzir essa relação a categorias jurídicas (tombamento), estéticas (paisagem) ou religiosas (cultos).
  • Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas que coisifiquem o rio (A — objeto), que o tornem externo (C — cenário) ou que descrevam algo passageiro/individual (D). Sobram B e E; basta perguntar "religião institucional ou patrimônio vivido?". O texto fala em cosmologia e saberes, então E.
  • Conexões com outros temas: patrimônio imaterial (Decreto 3.551/2000); UNESCO e a Convenção do Patrimônio Imaterial (2003); Constituição de 1988 e direitos territoriais indígenas (art. 231); cosmovisão Yanomami (Davi Kopenawa, A queda do céu); ribeirinhos amazônicos e povos das águas; conflitos por hidrelétricas (Belo Monte) como ameaça ao patrimônio cultural-afetivo.

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