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Questão 76 — ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia
Lá embaixo está o Açude ltans, com seu formigueiro a cavar a terra. É mesmo impressionante o esforço daquele formigar de homens ao sol, lavados em suor, que não param, em longas filas pacientes acompanhando centenas de burricos que sobem e descem, numa ciranda comovente e silenciosa, cada burrico com duas caixas de terra no lombo. É o labor organizado para a salvação da terra e do homem. Depois do semideserto que tanto nos acabrunhou o espírito por falta de chuvas, o esforço destes milhares de sertanejos, todos vestidos de brim mescla e calçando alpercatas, no combate consciente à esterilidade da natureza, com as famílias alojadas em pequeninas casas de taipa e telha — embrião de futura cidade — impressionava-nos profundamente,
VALE - M. História do Açude ans, município de Calcó (RN). Brasília, 1994 (adaptado)
Na construção do empreendimento descrito, destaca-se a presença de
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia/História → Região Nordeste, semiárido, frentes de açudagem e formação do espaço sertanejo
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer a política de combate à seca e identificar quem efetivamente trabalhava nos açudes do sertão nordestino
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Formação territorial brasileira, semiárido e organização do trabalho (CH-2: analisar a produção do espaço pelos diferentes grupos sociais)
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Quem trabalhava na construção do açude descrito no texto, e qual o resultado social desse trabalho?"
- Palavras-chave decisivas: Açude (Itans, RN), formigueiro de homens, milhares de sertanejos, brim mescla, alpercatas, famílias alojadas em casas de taipa, embrião de futura cidade, combate à esterilidade da natureza
- Armadilha típica: confundir o autor da política (engenheiros do DNOCS, governo federal) com a mão de obra (sertanejos pobres flagelados pela seca). A alternativa A (engenheiros) é distrator clássico: engenheiros projetaram, mas quem executou com pá, picareta e burrico foi a massa de trabalhadores sertanejos. Outra armadilha é o "coronel" da B — coronéis eram beneficiados pela política da açudagem, mas não trabalhavam nas obras.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o texto descreve a presença massiva de trabalhadores sertanejos comuns mobilizados pelas frentes de emergência, e que essa mobilização gerava novos núcleos urbanos ("embrião de futura cidade").
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Semiárido nordestino: região marcada por chuvas escassas e irregulares, secas periódicas e dificuldades de manter atividades agropecuárias estáveis. As secas históricas (1877-79, 1915, 1932, 1958) provocaram fome, mortalidade e migrações em massa.
- Política de açudagem: estratégia federal iniciada com a IOCS (Inspetoria de Obras Contra as Secas, 1909), depois IFOCS e DNOCS (a partir de 1945), consistente em construir açudes para armazenar água e dar trabalho aos flagelados durante as secas. Foi a chave da chamada "indústria da seca": os açudes muitas vezes beneficiavam grandes proprietários, mas mobilizavam, na obra, multidões de pequenos lavradores e sertanejos famintos.
- Frente de trabalho/frentes de emergência: modalidade de mobilização de mão de obra em que sertanejos vítimas da seca eram contratados para obras públicas (açudes, estradas, barragens) em troca de salários ínfimos, alimentação básica e abrigo. Permitia ao Estado conter migrações e fixar populações no semiárido.
- Formação de novos espaços urbanos: os canteiros de obras dos grandes açudes, com milhares de famílias alojadas, frequentemente deram origem a vilas e cidades novas no sertão. O próprio texto sinaliza isso: "embrião de futura cidade".
- Estrutura agrária e coronelismo: os "coronéis" eram grandes proprietários que controlavam terras, votos e recursos hídricos. Eles se beneficiavam da política de açudagem (muitos açudes ficavam em fazendas particulares), mas não trabalhavam nas obras — quem trabalhava era a massa de sertanejos pobres.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "formigueiro a cavar a terra" + "formigar de homens ao sol, lavados em suor" → ênfase no trabalho braçal coletivo, executado por uma multidão de pessoas comuns. A imagem de formigueiro reforça quantidade e esforço físico.
- Evidência 2: "milhares de sertanejos, todos vestidos de brim mescla e calçando alpercatas" → identificação social precisa: são sertanejos (gente do sertão, em geral pequenos lavradores), com vestimenta humilde típica (brim mescla, alpercatas). Não são engenheiros (terno e prancheta), nem coronéis (beneficiários, não executores), nem operários industriais (categoria urbana de fábrica).
- Evidência 3: "famílias alojadas em pequeninas casas de taipa e telha — embrião de futura cidade" → o canteiro de obras já é um núcleo urbano em formação: famílias inteiras alojadas, sugerindo permanência prolongada e potencial desenvolvimento de uma cidade nova. Aqui está a chave da resposta: trabalhadores formando novos espaços.
- Síntese: o texto descreve massa de sertanejos comuns trabalhando braçalmente em obra pública e, no processo, criando um novo núcleo populacional — a futura cidade.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar quem é a multidão descrita
O autor descreve "milhares de sertanejos" com vestimenta humilde, em trabalho exaustivo sob o sol, com famílias alojadas em casas precárias de taipa. Não são técnicos especializados nem proprietários: são trabalhadores braçais, vítimas da seca, mobilizados pelo governo nas frentes de açudagem. Esse perfil descarta de saída engenheiros (A), coronéis (B) e negociantes (E), que pertencem a outros estratos sociais.
Subpasso 4.2 — Identificar o que esses trabalhadores produzem
Além do açude em si, eles produzem algo a mais: o canteiro de obras vira "embrião de futura cidade". Isto é, o trabalho da multidão não cria apenas a obra hidráulica — cria também um novo espaço urbano, com casas, ruas, vida coletiva. A construção da infraestrutura traz consigo a fundação de uma localidade. Esse é o sentido da expressão "formação de novos espaços" presente na alternativa D.
Subpasso 4.3 — Distinguir "operários" de "trabalhadores"
A alternativa C ("operários na distribuição dos recursos hídricos") usa o termo "operário", que tem sentido específico — trabalhador assalariado da indústria fabril. Os homens descritos no texto não são operários no sentido técnico: são sertanejos contratados em frente de emergência, sem vínculo de fábrica. Além disso, eles não distribuem água — eles constroem o reservatório. Por isso a expressão correta é "trabalhadores na formação de novos espaços".
Subpasso 4.4 — Verificação
A alternativa D capta com precisão tanto a categoria social (trabalhadores, no sentido amplo de mão de obra braçal mobilizada) quanto a consequência espacial da obra (formação de novos espaços urbanos, "embrião de futura cidade"). É a leitura coerente de cada parte do texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) engenheiros na execução de canais fluviais.
❌ Incorreta: engenheiros existem no projeto e na supervisão técnica, mas não constituem a "multidão de sertanejos vestidos de brim mescla" descrita no texto. Além disso, a obra é um açude (reservatório de água), não um canal fluvial. A alternativa erra tanto o sujeito (engenheiros, não sertanejos) quanto o objeto (canal, não açude).
B) coronéis na ampliação de antigas fazendas.
❌ Incorreta: coronéis eram proprietários e patrões, não trabalhadores braçais. Eles podiam se beneficiar da política de açudagem (a chamada "indústria da seca"), mas não cavavam terra ao sol. Além disso, o texto descreve a construção de uma nova obra que origina uma futura cidade, não a ampliação de fazendas antigas.
C) operários na distribuição dos recursos hídricos.
❌ Incorreta: "operário" remete tecnicamente ao trabalhador da indústria urbana. Os homens descritos são sertanejos em frente de emergência, mobilizados pela seca, e não operários fabris. Mais grave: o texto descreve a construção do açude (cavar a terra com burricos carregando caixas de terra), não a distribuição posterior das águas. Confundem-se duas etapas (construir x distribuir) e dois universos sociais (sertanejo x operário).
D) trabalhadores na formação de novos espaços.
✅ Correta: "trabalhadores" abrange exatamente a multidão de sertanejos descrita; "formação de novos espaços" capta o sentido da expressão "embrião de futura cidade" — a construção do açude funda também um novo núcleo urbano, gerando um espaço inédito no semiárido. As duas partes da alternativa correspondem ao texto.
E) negociantes na organização de redes comerciais.
❌ Incorreta: o texto não descreve atividade comercial, mas trabalho braçal de construção. Negociantes (comerciantes) não cavam terra com burricos. A alternativa troca completamente a natureza da cena descrita.
🏆 Gabarito: D — a multidão descrita é de trabalhadores sertanejos mobilizados nas frentes de açudagem, e o canteiro de obras gera um novo espaço urbano ("embrião de futura cidade"), o que corresponde precisamente a "trabalhadores na formação de novos espaços".
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que reúne, com fidelidade ao texto, o sujeito social correto (trabalhadores sertanejos, não engenheiros, coronéis, operários ou negociantes) e o efeito espacial correto (formação de um novo núcleo populacional no semiárido).
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a história do semiárido nordestino, as políticas de combate à seca (DNOCS, Sudene, transposição do São Francisco) e a formação do espaço sertanejo. Sempre que aparecer um relato sobre obras hidráulicas no Nordeste, vale lembrar que a mão de obra eram os flagelados, não os técnicos.
- Generalização: em descrições de canteiros de obra públicos do semiárido, engenheiros são minoria invisível e sertanejos são a maioria descrita. A alternativa correta tende a apontar a massa de trabalhadores e o efeito territorial (vilas, cidades, estradas, novos núcleos).
- Dica de eliminação rápida: identifique quem está descrito ("milhares de sertanejos com brim mescla") e elimine alternativas que apresentam outros estratos sociais (engenheiros, coronéis, negociantes) ou categorias profissionais erradas (operários fabris). Sobra rapidamente a opção correta.
- Conexões com outros temas: "indústria da seca" e crítica de Celso Furtado; transposição do Rio São Francisco; migração nordestina para Sudeste; obras de Eclantério Vianna sobre o sertão (Os Sertões, de Euclides da Cunha); cangaço; coronelismo na República Velha; Sudene e desenvolvimento regional.