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Questão 73ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

A história do Primeiro de Maio de 1890 — na França e na Europa, o primeiro de todos os Primeiros de Maio — é, sob vários aspectos, exemplar. Resultante de um ato político deliberado, essa manifestação ilustra o lado voluntário da construção de uma classe — a classe operária — à qual os socialistas tentam dar uma unidade política e cultural através daquela pedagogia da festa cujo princípio, eficácia e limites há muito tempo tinham sido experimentados pela Revolução Francesa.

PERROT M Os excluídos da história operários, mulheres e prisioneiros, Ro de Janero Paz e Terra. 1988

Com base no texto, a fixação dessa data comemorativa tinha por objetivo

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História/Sociologia → Movimento operário, formação da classe trabalhadora e datas comemorativas como pedagogia política
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular movimento operário, simbologia política e o conceito de identidade coletiva a partir de uma autora marxista historiográfica (Michelle Perrot)
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Industrialização, classe operária e movimentos sociais (CH-1: interpretar historicamente diferentes formas de manifestação política)
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Para que serviu a fixação do 1º de Maio, segundo Michelle Perrot? Qual era o objetivo político-pedagógico dos socialistas?"
  • Palavras-chave decisivas: classe operária, construção de uma classe, unidade política e cultural, pedagogia da festa, socialistas
  • Armadilha típica: confundir "construir uma classe" com "construir uma nação" (alternativa C — memória nacional) ou com "criar uma comunidade cívica" (D — pertencimento ao Estado). O texto é claríssimo: trata-se da construção de uma classe, não de uma nação nem de uma cidadania genérica. Outra armadilha é a alternativa E (tradição popular) — popular ≠ classe; popular é difuso, classe é específico.
  • O que a resposta precisa demonstrar: entender que o 1º de Maio foi instrumento deliberado de forjamento de uma identidade comum entre operários — uma identidade de classe, transnacional, distinta da nacional ou cívica.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Construção da classe operária: segundo a historiografia (E. P. Thompson, Michelle Perrot), a classe operária não é dado automático da industrialização — é construída historicamente por meio de experiências comuns, lutas, símbolos e instituições (sindicatos, partidos, jornais, festas). Ela se forma quando trabalhadores percebem-se como tendo interesses comuns e adversários comuns.
  • Identidade coletiva: sentimento de pertencimento a um grupo social que partilha experiências, símbolos e projetos. No caso da classe operária, a identidade coletiva opera acima das diferenças nacionais, regionais e profissionais (metalúrgicos, têxteis, mineiros), unificando-os como trabalhadores explorados pelo capital.
  • Pedagogia da festa: expressão de Perrot que retoma a tradição inaugurada pela Revolução Francesa (festas cívicas, plantio de árvores da liberdade, juramentos coletivos). Festas e rituais públicos ensinam os participantes a se reconhecerem como membros de uma comunidade política, fixando memórias, gestos e palavras de ordem.
  • 1º de Maio (1890): data instituída pela Segunda Internacional Socialista (Congresso de Paris, 1889) em homenagem aos trabalhadores mortos na greve de Chicago de 1886 (Haymarket). A primeira manifestação ocorreu em 1890, simultaneamente em vários países, justamente para criar a percepção de uma classe operária mundial unida.
  • Socialismo internacional: o movimento socialista da Segunda Internacional defendia que a luta operária não poderia ser nacional — deveria ser internacional, porque o capital também era. Daí a importância simbólica de uma data celebrada no mesmo dia em vários países.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "ato político deliberado" → não é uma data espontânea, popular ou tradicional: foi decidida estrategicamente por militantes. Isso elimina E (tradição popular, que pressupõe origem espontânea/imemorial).
  • Evidência 2: "construção de uma classe — a classe operária" → o substantivo central do texto é classe. Não nação, não comunidade cívica, não burguesia. Quem responde sem fixar a palavra "classe" cai em distratores.
  • Evidência 3: "os socialistas tentam dar uma unidade política e cultural" → o objetivo é criar unidade entre pessoas dispersas (operários de fábricas, ofícios, países diferentes). "Unidade" é sinônimo prático de identidade coletiva.
  • Síntese: o 1º de Maio foi mecanismo de fabricação simbólica da identidade operária. A resposta correta deve nomear esse processo como afirmação de uma identidade coletiva (de classe).

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar quem são os agentes e o público da data

O texto diz que os socialistas organizaram o 1º de Maio para a classe operária. Não se trata de evento religioso, nacional ou cultural-folclórico: é um ato político-organizativo de um movimento (socialismo) dirigido a um grupo social específico (operários). Esse recorte já direciona a resposta para o terreno da identidade de classe.

Subpasso 4.2 — Compreender a "pedagogia da festa"

Perrot diz que os socialistas usam a "pedagogia da festa" para construir cultural e politicamente a classe. Festas funcionam como rituais que ensinam identidade: marcham juntos, cantam o mesmo hino, levantam as mesmas bandeiras, ouvem os mesmos discursos. O conjunto ritual produz a sensação de pertencer a um nós coletivo. É exatamente o mecanismo descrito por Émile Durkheim na efervescência coletiva dos rituais.

Subpasso 4.3 — Distinguir classe de nação, cidadania e povo

A "comunidade cívica" da alternativa D refere-se à participação no Estado-nação (cidadania, voto, deveres patrióticos). A "memória nacional" da C refere-se à construção do imaginário de uma nação (datas como 7 de Setembro, 14 de Julho na França). A "tradição popular" da E refere-se a costumes difusos da cultura comum. Nenhuma dessas categorias coincide com classe operária internacional — que era exatamente o que o 1º de Maio buscava construir, em explícita oposição às identidades nacionais (no Congresso de 1889, a data foi escolhida para ser internacional, negando a moldura do Estado-nação).

Subpasso 4.4 — Verificação

A alternativa B ("afirmar uma identidade coletiva") cobre exatamente o que Perrot descreve: a unidade política e cultural de uma classe é uma forma de identidade coletiva. As demais alternativas trocam o sujeito (nação, cidadania, povo, burguesia) e perdem o eixo do texto.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) valorizar um sentimento burguês.

Incorreta: o 1º de Maio é a data dos trabalhadores, organizada pelos socialistas, em oposição direta aos interesses da burguesia industrial (que era patroa nas fábricas). A alternativa inverte completamente a base de classe do evento. Confundir burguesia (donos dos meios de produção) com proletariado (vendedores da força de trabalho) é erro conceitual primário em sociologia marxiana.

B) afirmar uma identidade coletiva.

Correta: a "unidade política e cultural" da classe operária mencionada por Perrot é precisamente a fabricação de uma identidade coletiva — sentimento compartilhado de pertencer ao mesmo grupo social, com os mesmos interesses e adversários. A "pedagogia da festa" é o mecanismo ritual usado para produzir essa identidade.

C) edificar uma memória nacional.

Incorreta: memória nacional pertence ao registro do Estado-nação (datas pátrias, heróis nacionais, símbolos da pátria). O 1º de Maio é justamente o oposto: foi concebido como data internacional, celebrada no mesmo dia em vários países para mostrar que a classe operária está acima das fronteiras nacionais. Confunde nação (recorte territorial-político) com classe (recorte socioeconômico).

D) criar uma comunidade cívica.

Incorreta: comunidade cívica remete ao vínculo entre cidadão e Estado, à participação nas instituições políticas (voto, deveres, direitos). O 1º de Maio não foi pensado para integrar o operário ao Estado liberal-burguês — foi pensado para reuni-lo a outros operários fora ou contra o Estado, em torno do projeto socialista. A alternativa troca o eixo de classe pelo de cidadania.

E) definir uma tradição popular.

Incorreta: tradição popular sugere origem espontânea, difusa, imemorial — costumes que se enraízam por gerações sem autoria identificável. O texto, ao contrário, afirma que o 1º de Maio é "ato político deliberado" — escolhido por militantes, com data, autores e objetivos precisos. Confundir construção política deliberada com folclore espontâneo descaracteriza o evento.

🏆 Gabarito: B — o 1º de Maio foi instrumento deliberado de afirmação da identidade coletiva da classe operária, por meio da pedagogia da festa que dava unidade política e cultural a trabalhadores dispersos.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que mantém o sujeito do texto (a classe operária) e o objetivo do texto (unidade = identidade). As demais trocam o sujeito (burguesia, nação, cidadania, povo) e descaracterizam a tese central de Perrot.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência o tema do movimento operário e da formação da classe trabalhadora, especialmente articulado a símbolos (1º de Maio, hino da Internacional), instituições (sindicatos, partidos socialistas) e datas (greves, congressos). Sempre que o texto enfatizar "construção" ou "fabricação" de algo coletivo, a resposta tende a apontar para identidade coletiva ou para o caráter deliberado/político do processo.
  • Generalização: identidades coletivas (de classe, de gênero, de etnia, religiosas) não são naturais — são construídas historicamente por meio de práticas simbólicas, rituais e instituições. Reconhecer essa lógica construtivista é a chave para acertar questões sobre movimentos sociais.
  • Dica de eliminação rápida: sublinhe a palavra "classe" no enunciado. Toda alternativa que troque "classe" por "nação", "burguesia", "cidadania" ou "povo" está fora. Sobram poucas opções, e basta confirmar qual fala em "identidade" ou "unidade".
  • Conexões com outros temas: Segunda Internacional Socialista (1889); greve de Haymarket (Chicago, 1886); E. P. Thompson e a formação da classe operária inglesa; conceito de cultura operária; sindicalismo no Brasil (anarquismo na Primeira República, comunismo nos anos 1920); festas cívicas da Revolução Francesa.

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