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Questão 70 — ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

TEXTO I
interseccionalidade: intercruzamento de desigualdades que gera padrões complexos de discriminação.
TEXTO II
Considerando o conceito apresentado no Texto I e os dados apresentados no Texto II, no Brasil, são fatores que intensificam o fenômeno da discriminação:
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Interseccionalidade, desigualdade social e feminização da pobreza
- ⚡ Nível: Médio — exige cruzar um conceito sociológico com a leitura comparativa de barras de um gráfico do IBGE
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Desigualdades e direitos humanos — reconhecer como diferentes marcadores sociais se sobrepõem e multiplicam a exclusão
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Lendo o gráfico que compara pobreza entre arranjos domiciliares e cruzando com o conceito de interseccionalidade, quais dois fatores aparecem intensificando a discriminação no Brasil?"
- Palavras-chave decisivas: interseccionalidade, intercruzamento de desigualdades, fatores que intensificam, discriminação
- Armadilha típica: escolher "idade e nupcialidade" apenas porque o gráfico menciona filhos até 14 anos e cônjuge. Essas categorias aparecem no gráfico como recortes demográficos, mas não são os eixos de desigualdade interseccional que o comando pede. Ter ou não cônjuge e ter ou não filhos é uma configuração familiar; raça e gênero, por sua vez, são marcadores de opressão historicamente reconhecidos pela sociologia, e são exatamente eles que fazem a proporção saltar de 41,5% (mulheres brancas) para 64,4% (mulheres pretas e pardas) no mesmo arranjo doméstico.
- O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que o conceito de interseccionalidade exige olhar para marcadores de poder (raça, gênero, classe, sexualidade, etc.) e que os dados do gráfico evidenciam, no mesmo arranjo familiar, uma diferença de quase 23 pontos percentuais entre mulheres brancas e mulheres pretas/pardas — ou seja, gênero e raça se somam e intensificam a vulnerabilidade.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Interseccionalidade: conceito formulado pela jurista estadunidense Kimberlé Crenshaw em 1989, no contexto de análises sobre o tratamento judicial de mulheres negras nos EUA. Designa a sobreposição de diferentes sistemas de opressão (racismo, sexismo, classismo, homofobia, capacitismo) sobre um mesmo corpo. A consequência é que essa sobreposição não apenas soma desvantagens, mas as multiplica — produzindo padrões de discriminação que são qualitativamente distintos da experiência de cada marcador isolado.
- Feminização da pobreza: expressão que descreve a tendência, observável em estatísticas de vários países, de concentração da pobreza em lares chefiados por mulheres, especialmente mulheres com filhos e sem cônjuge. Suas causas envolvem desigualdade salarial, sobrecarga do trabalho de cuidado (trabalho doméstico não remunerado), precariedade do emprego feminino e ausência de políticas públicas de creche.
- Racialização da pobreza no Brasil: o Brasil, como sociedade pós-escravocrata, mantém uma divisão racial do trabalho e da renda. Mulheres pretas e pardas ocupam a base da pirâmide social em praticamente todos os indicadores — educação, renda, emprego, expectativa de vida, mortalidade materna. A intersecção entre raça e gênero é, portanto, particularmente dramática no caso brasileiro.
- Arranjos domiciliares como recorte estatístico: o IBGE classifica os domicílios brasileiros em vários formatos: casal com filhos, casal sem filhos, unipessoal, monoparental (um adulto com filhos), etc. O monoparental feminino — especialmente "mulher sem cônjuge com filhos até 14 anos" — é o arranjo de maior vulnerabilidade econômica no país.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
O Texto I é uma definição concisa de interseccionalidade: "intercruzamento de desigualdades que gera padrões complexos de discriminação". O texto não dá exemplos — cabe ao gráfico do Texto II preenchê-los.
O Texto II é um gráfico de barras do IBGE (dezembro de 2018), intitulado "Proporção de pessoas abaixo da linha de pobreza — Por arranjo domiciliar no Brasil — 2017". As barras representam diferentes configurações de domicílio e o percentual delas em situação de pobreza:
- Mulher sem cônjuge e com filho(s) até 14 anos: 56,9% (barra muito alta)
- Mulher preta ou parda sem cônjuge e com filho(s) até 14 anos: 64,4% (barra ainda mais alta)
- Mulher branca sem cônjuge e com filho(s) até 14 anos: 41,5% (barra claramente menor, mas ainda significativa)
- Casal com filho(s): barra bem menor (aproximadamente metade do primeiro grupo)
- Outros, Unipessoal, Casal sem filho: barras baixas
- Evidência 1: "Mulher sem cônjuge e com filho(s) até 14 anos: 56,9%" → o arranjo monoparental feminino com filhos pequenos tem quase 57% de pessoas pobres, um índice altíssimo.
- Evidência 2: "Mulher preta ou parda sem cônjuge e com filho(s) até 14 anos: 64,4%" → quando se acrescenta o recorte racial (preta ou parda), o índice sobe para 64,4%.
- Evidência 3: "Mulher branca sem cônjuge e com filho(s) até 14 anos: 41,5%" → no mesmo arranjo monoparental feminino, mas quando a mulher é branca, o índice cai para 41,5%.
- Evidência 4 (comparação): a diferença entre mulheres pretas/pardas (64,4%) e mulheres brancas (41,5%) no mesmo arranjo é de 22,9 pontos percentuais. Esse desnível revela que, além do gênero (já visível na altíssima pobreza das mães solo em geral), a raça adiciona uma camada de vulnerabilidade que quase dobra a condição de pobreza.
- Síntese: o gráfico mostra, com dados do IBGE, que ser mulher aumenta a chance de pobreza e que ser mulher preta ou parda multiplica essa chance. Os dois marcadores — gênero e raça — se intercruzam e intensificam a discriminação, exemplo clássico do que Crenshaw chamou de interseccionalidade.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Entender o que o comando pede
O comando não pergunta quais são os principais indicadores demográficos do gráfico, pergunta quais são os "fatores que intensificam o fenômeno da discriminação" à luz da interseccionalidade. Precisamos, portanto, identificar os eixos de desigualdade visíveis no gráfico — eixos ligados a posições sociais historicamente desvantajosas — e não qualquer categoria demográfica.
Subpasso 4.2 — Identificar o primeiro eixo: gênero
Comparando as barras, vemos que o arranjo "mulher sem cônjuge com filho(s) até 14 anos" tem 56,9%, enquanto "casal com filho(s)" tem um índice bem menor. Isso significa que, quando o domicílio depende unicamente da mulher, a pobreza é muito maior — sinal claro da feminização da pobreza. A desigualdade de gênero é um dos eixos.
Subpasso 4.3 — Identificar o segundo eixo: raça
Dentro do próprio grupo de mulheres monoparentais, o gráfico ainda desdobra a análise: brancas têm 41,5%, pretas/pardas têm 64,4%. Essa diferença só pode ser explicada pelo marcador racial — o mesmo arranjo familiar, o mesmo gênero, a mesma faixa etária dos filhos, mas diferentes raças produzem taxas de pobreza radicalmente distintas. Esse é o segundo eixo de desigualdade.
Subpasso 4.4 — Aplicar o conceito de interseccionalidade
Crenshaw cunhou o conceito para descrever exatamente esse tipo de situação: uma mulher preta não sofre discriminação como "mulher em geral" nem como "pessoa negra em geral"; ela sofre uma discriminação específica, que nasce da sobreposição das duas condições. No Brasil, o dado numérico confirma a teoria: o intercruzamento entre ser mulher e ser preta/parda multiplica a pobreza, e esse é um "padrão complexo de discriminação" no sentido do Texto I.
Subpasso 4.5 — Descartar os distratores
As demais alternativas citam categorias que, embora presentes implicitamente no gráfico ou no cotidiano brasileiro, não são os eixos explicitamente cruzados pelo dado. Por exemplo: o gráfico menciona filhos até 14 anos, mas isso é uma janela etária dos dependentes, não um eixo de desigualdade dos adultos pesquisados. O gráfico menciona "sem cônjuge", mas nupcialidade é um estado civil, não um marcador de poder. Nenhuma dessas categorias cumpre o critério do conceito do Texto I.
Subpasso 4.6 — Verificação
Os dois eixos visíveis no gráfico que correspondem a sistemas de opressão reconhecidos pela sociologia (interseccionalidade) são gênero (mulher) e raça (preta/parda). A alternativa que cita "raça e gênero" é a única coerente com o comando. Confirmado.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Raça e gênero.
✅ Correta: o gráfico mostra que mulheres monoparentais já são o grupo mais pobre (56,9%), e que esse índice sobe para 64,4% quando a mulher é preta ou parda e cai para 41,5% quando é branca. A diferença de quase 23 pontos entre o mesmo arranjo doméstico só é explicada pela combinação entre gênero (ser mulher) e raça (ser preta/parda). É exatamente o tipo de intercruzamento que a interseccionalidade de Crenshaw descreve: dois sistemas de opressão (sexismo e racismo) sobrepostos no mesmo corpo.
B) Etnia e habitação.
❌ Incorreta: etnia poderia até ser confundida com raça, mas "habitação" não é um eixo apresentado pelo gráfico. O gráfico fala de arranjos domiciliares (configurações familiares), não de tipos de moradia ou acesso a habitação. Misturar a categoria errada invalida a alternativa, mesmo que o primeiro termo pudesse funcionar.
C) Idade e nupcialidade.
❌ Incorreta: idade e nupcialidade são recortes demográficos, não sistemas de opressão. O fato de os filhos terem até 14 anos é um limite estatístico usado pelo IBGE para definir "família com crianças", e o "sem cônjuge" indica apenas um estado civil. Nenhum dos dois é um marcador de poder no sentido interseccional. A diferença entre mulheres brancas e pretas no mesmo arranjo provaria que esses fatores sozinhos não explicam a discriminação — raça é decisiva.
D) Profissão e sexualidade.
❌ Incorreta: o gráfico não informa profissão nem sexualidade das pessoas pesquisadas. Embora ambos possam ser eixos válidos de análise interseccional em outros contextos, não é o que o Texto II apresenta. A alternativa inventa categorias ausentes dos dados.
E) Escolaridade e fecundidade.
❌ Incorreta: escolaridade e fecundidade também não aparecem no gráfico. O gráfico compara arranjos domiciliares por raça e gênero, sem medir anos de estudo nem número médio de filhos por mulher. Assim como a alternativa D, essa opção projeta categorias externas ao Texto II.
🏆 Gabarito: A — os dados do IBGE revelam que gênero e raça, quando combinados, elevam drasticamente a pobreza entre mulheres brasileiras monoparentais, o que ilustra perfeitamente o conceito de interseccionalidade apresentado no Texto I.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a letra A cita dois eixos que a sociologia reconhece como sistemas de poder (gênero e raça) e que estão explicitamente marcados nas barras do gráfico. As demais alternativas ou citam categorias fora do gráfico (B, D, E) ou citam recortes demográficos sem peso interseccional (C).
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra interseccionalidade com frequência em questões de Sociologia, geralmente apresentando dados do IBGE, do IPEA ou de pesquisadoras feministas como Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez e Djamila Ribeiro. Gênero e raça são, disparadamente, o par mais cobrado no contexto brasileiro.
- Generalização: sempre que uma questão cruzar um conceito sociológico (interseccionalidade, desigualdade, exclusão) com um gráfico de múltiplas barras, procure qual é a barra mais alta e por que ela é a mais alta. Os marcadores que explicam a diferença são a resposta.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que citem categorias ausentes do gráfico (habitação, profissão, sexualidade, escolaridade, fecundidade — nenhum desses termos aparece no Texto II) e alternativas que citem apenas recortes demográficos sem peso histórico de desigualdade. Sobra apenas "raça e gênero".
- Conexões com outros temas: feminicídio; feminização da pobreza; movimento feminista negro; Lei de Cotas Raciais; abolição da escravatura e suas heranças; Bolsa Família; políticas públicas de igualdade de gênero; mortalidade materna de mulheres negras.