Mesma questão em outros cadernos
Questão 69 — ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia
Colegas, na mente e no coração do povo, a Crimeia sempre foi uma porção inseparável da Rússia. Essa firme convicção se baseia na verdade e na justiça e foi passada de geração em geração, ao longo do tempo, sob quaisquer circunstâncias, apesar de todas as drásticas mudanças que nosso país atravessou durante todo o século XX.
Disponível em hitp 4g1.globo.com. Acesso em: 28 jul. 2014.
Considerando a dinâmica geopolítica subjacente ao texto, a justificativa utilizada por Vladimir Putin, em 2014, para anexação dessa península apela para o argumento de que
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Geopolítica contemporânea, anexação da Crimeia, nacionalismo étnico-linguístico
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar o argumento retórico de Putin e identificar a doutrina geopolítica subjacente
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Geopolítica pós-Guerra Fria, nacionalismos e conflitos territoriais
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual argumento geopolítico Putin mobiliza em 2014 para justificar a anexação da Crimeia pela Rússia?"
- Palavras-chave decisivas: na mente e no coração do povo, porção inseparável da Rússia, verdade e justiça, passada de geração em geração
- Armadilha típica: optar por "expulsão das forças navais ocidentais" pensando na importância estratégica de Sebastopol, ou em "integração regional" por confundir anexação com cooperação. A retórica do discurso de Putin, contudo, se baseia explicitamente em continuidade cultural e histórica da Crimeia com o povo russo — não em estratégia militar nem em integração econômica.
- O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que Putin invoca a doutrina do "direito de sangue" / "um povo, um Estado" — povos de mesma origem cultural-linguística devem estar submetidos à mesma autoridade estatal.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Princípio nacionalista etnolinguístico: doutrina oitocentista segundo a qual cada nação, definida por idioma e cultura comuns, deve ter seu próprio Estado (princípio das nacionalidades). Bismarck o usou para a unificação alemã; Cavour para a italiana. Variações modernas sustentam que onde há uma minoria etnolinguística "presa" em outro Estado, ela deve ser "reunificada" com sua pátria original — ideia que legitimou anexações e guerras ao longo do século XX (Sudetos, Áustria, Dânzig).
- Crimeia — perfil histórico: a península tem população majoritariamente de língua russa. Foi incorporada à Rússia no século XVIII por Catarina II, transferida à Ucrânia soviética em 1954 por ato administrativo de Kruschov e tornou-se parte da Ucrânia independente em 1991. Depois da Revolução Maidan em 2014, a Rússia realizou um referendo contestado e anexou a Crimeia, alegando defender a população russa local.
- Retórica da "inseparabilidade": na fala de Putin, a Crimeia é apresentada como "sempre inseparável" do povo russo, o que é geopolítica na chave identitária. O território é tratado não como fronteira administrativa, mas como extensão orgânica da nação.
- Contraste com o direito internacional: desde a Carta da ONU, o princípio da integridade territorial dos Estados prevalece sobre reivindicações etnolinguísticas. A anexação da Crimeia foi, por isso, considerada ilegal pela maior parte da comunidade internacional.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "na mente e no coração do povo, a Crimeia sempre foi uma porção inseparável da Rússia" → "povo" aqui é tratado como unidade cultural prévia à divisão política. O discurso funde Crimeia e Rússia na imaginação nacional.
- Evidência 2: "Essa firme convicção se baseia na verdade e na justiça" → a apelação é moral-identitária, não jurídica. Putin contorna o direito internacional e apela à "verdade" cultural.
- Evidência 3: "foi passada de geração em geração, ao longo do tempo, sob quaisquer circunstâncias, apesar de todas as drásticas mudanças" → insiste na continuidade transtemporal da identidade. Mesmo quando a Crimeia era parte da Ucrânia soviética ou independente, continuava "pertencendo" à Rússia, pela cultura.
- Síntese: o raciocínio de Putin é o de que a identidade cultural e linguística comum obriga a unidade política. Onde há um povo, deve haver um só Estado. É a lógica do princípio das nacionalidades aplicada ao século XXI.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o tipo de argumento do discurso
O discurso de Putin não é jurídico (não invoca tratados), não é econômico (não fala em comércio), não é militar (não menciona bases navais). É puramente identitário: cultural, linguístico, histórico. A Crimeia pertenceria à Rússia porque seu povo seria parte do povo russo.
Subpasso 4.2 — Traduzir isso em termos geopolíticos
Em geopolítica, a tese de que uma população com idioma e cultura comuns "deve" estar sob uma mesma autoridade estatal tem nome: princípio das nacionalidades ou nacionalismo etnolinguístico. Essa lógica já foi usada para unificar a Alemanha (1871), a Itália (1870), e depois para justificar a anexação dos Sudetos por Hitler (1938). Em 2014, Putin atualiza a mesma doutrina: povo russo = Estado russo = Crimeia.
Subpasso 4.3 — Distinguir cuidadosamente das demais alternativas
- O texto não menciona a União Soviética em sentido imperialista, apenas "nosso país". Não há apelo à reconstituição do império soviético.
- O texto não menciona organismos internacionais (ONU, OEA), então não argumenta a partir de incapacidade destes.
- O texto não fala em livre circulação de pessoas e mercadorias; integração regional (Eurásia, Mercosul, UE) é tema distinto.
- O texto não menciona forças navais ocidentais nem soberania militar; a palavra "soberania" sequer aparece.
Subpasso 4.4 — Verificação
A única alternativa que captura a lógica cultural-linguística do discurso é aquela que afirma: populações com idioma comum devem estar submetidas à mesma autoridade estatal. Essa é, textualmente, a reivindicação de Putin quando ele diz que a Crimeia "sempre foi inseparável" do povo russo.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) as populações com idioma comum devem estar submetidas à mesma autoridade estatal.
✅ Correta: traduz precisamente a doutrina etnolinguística invocada por Putin. A Crimeia é reivindicada porque sua população compartilha idioma e cultura com a Rússia — o argumento clássico do princípio das nacionalidades aplicado à geopolítica contemporânea.
B) o imperialismo soviético havia se acomodado às pretensões das potências vizinhas.
❌ Incorreta: o texto não faz referência ao período soviético como algo a ser recuperado, nem afirma que esse imperialismo se "acomodou" — ao contrário, Putin é leitor crítico do colapso soviético, visto como tragédia geopolítica. A alternativa não corresponde ao argumento do discurso.
C) os organismos transnacionais são incapazes de solucionar disputas territoriais.
❌ Incorreta: nenhuma passagem do texto menciona ONU, OTAN, OSCE ou qualquer organismo internacional. A crítica à incapacidade de instituições transnacionais, embora seja recorrente na retórica russa, não está nesse trecho. É extrapolação injustificada.
D) a integração regional supõe a livre circulação de pessoas e mercadorias.
❌ Incorreta: integração regional é lógica econômica (Mercosul, União Europeia). Putin não está defendendo integração econômica com a Ucrânia, e sim anexação territorial unilateral. São conceitos completamente diferentes. Livre circulação não é o tema.
E) a expulsão das forças navais ocidentais garantiria a soberania nacional.
❌ Incorreta: o texto não menciona forças navais ocidentais nem soberania militar. Embora Sebastopol, porto da frota do Mar Negro, seja estrategicamente relevante, esse argumento não aparece no discurso citado. O aluno deve se limitar ao que o texto diz, não à sua interpretação geopolítica geral.
🏆 Gabarito: A — Putin justifica a anexação pela doutrina etnolinguística de que um povo culturalmente unido deve estar sob a mesma autoridade estatal, apagando a divisão administrativa ucraniana em favor de uma "unidade" identitária.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa A é a única que descreve o raciocínio geopolítico presente no discurso — povo comum, Estado comum. Todas as demais exigiriam pontos que o texto simplesmente não contém.
- Padrão de cobrança: em questões sobre geopolítica contemporânea, o ENEM frequentemente apresenta discursos de líderes e pede identificação da doutrina subjacente. O aluno deve aprender a decodificar frases carregadas de retórica identitária ("nosso povo", "sempre nosso", "inseparável") como marcadores de nacionalismo etnolinguístico.
- Generalização: sempre que um Estado reivindica território alheio alegando que a população local é culturalmente sua, ele está mobilizando uma versão do princípio das nacionalidades. Esse princípio é historicamente o mais usado para anexações modernas.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que tragam conceitos externos ao trecho (OTAN, integração regional, frota naval) quando o discurso citado é puramente identitário. O ENEM é literalista: responde-se ao texto, não ao conhecimento geopolítico extra.
- Conexões com outros temas: guerra Rússia-Ucrânia, Revolução Maidan, nova Guerra Fria, OTAN, princípio da integridade territorial, autodeterminação dos povos, conflitos étnicos nos Bálcãs, Kosovo.