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Questão 68ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

TEXTO I

A Marinha identifica, na voz de Thomas Barnett, uma ampla região potencialmente insubmissa ou simplesmente irredutível às normas gerais de funcionamento promovidas pelos Estados Unidos e sancionadas pelo Fundo Monetário Internacional, pela Organização Mundial do Comércio e pelo Banco Mundial. E não necessariamente por sua consciência rebelde, mas sim, em muitos casos, pela insubstancialidade de suas instituições estatais.

TEXTO II

As preocupações do governo estadunidense expressas no texto e no mapa evidenciam uma estratégia para

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Geopolítica contemporânea e hegemonia dos Estados Unidos
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular um texto de geopolítica crítica com a leitura de um mapa-múndi temático sobre recursos estratégicos
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Geopolítica mundial — reconhecer estratégias de manutenção da hegemonia norte-americana sobre regiões ricas em recursos naturais
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Quando o Pentágono identifica uma 'brecha' de países fora das normas dos EUA, FMI, OMC e Banco Mundial, qual estratégia geopolítica está sendo planejada sobre esses países?"
  • Palavras-chave decisivas: Marinha, Estados Unidos, FMI / OMC / Banco Mundial, brecha, Novo Mapa do Pentágono, estratégia
  • Armadilha típica: confundir o tema com "intercâmbio cultural" (porque o mapa cobre vários continentes) ou com "preservação de recursos naturais" (porque o mapa mostra petróleo, gás e biodiversidade). São leituras ingênuas que desconsideram o emissor da preocupação: trata-se de um documento militar estadunidense, cuja lógica é projetar poder e controlar regiões estratégicas, e não promover cultura ou proteger o meio ambiente.
  • O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que a "brecha crítica" apontada pelo Pentágono coincide com áreas de concentração de recursos naturais fundamentais (petróleo, gás, biodiversidade) e que a estratégia estadunidense consiste em garantir acesso, controle e influência sobre essas áreas — ou seja, ampliar sua influência econômica sobre zonas consideradas "insubmissas".

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Hegemonia dos EUA no pós-Guerra Fria: depois do colapso da União Soviética (1991), os Estados Unidos emergiram como única superpotência global. Sua influência é exercida por quatro canais principais: militar (OTAN, bases, frotas navais), econômico (dólar, multinacionais, FMI, Banco Mundial), comercial (OMC) e cultural (indústria do entretenimento). Manter essa hegemonia exige monitorar e neutralizar regiões "fora das regras".
  • Novo Mapa do Pentágono (Thomas Barnett, 2003): livro do estrategista Thomas Barnett que divide o mundo em dois núcleos. O "núcleo funcional" é formado pelos países integrados à globalização liderada pelos EUA, com Estados fortes, mercados abertos e adesão às normas internacionais. A "brecha crítica" (The Gap) reúne países considerados ameaçadores à ordem — Estados frágeis, territórios sem controle efetivo, áreas de conflito — que formam uma faixa tropical contínua entre a América Latina, África Subsaariana, Oriente Médio, Balcãs, Cáucaso e Sudeste Asiático. Para Barnett, a tarefa dos EUA seria "encolher a brecha" por meio de presença militar, pressão econômica e integração forçada à globalização.
  • Recursos estratégicos: petróleo, gás natural e biodiversidade (variedade germoplásmica, isto é, reservas genéticas de plantas, microrganismos e animais úteis à agricultura, à indústria farmacêutica e à biotecnologia). Essas duas categorias de recursos concentram-se predominantemente na zona tropical — justamente onde está a "brecha".
  • FMI, Banco Mundial e OMC: instituições criadas ou reformuladas no pós-1945 sob liderança estadunidense para regular a economia mundial. Sua pauta inclui abertura comercial, proteção de propriedade intelectual (incluindo patentes biológicas) e estabilidade financeira. Países que resistem às suas normas são vistos, na ótica do Pentágono, como obstáculos à ordem global.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

O Texto I, extraído de um livro crítico de Ana Esther Ceceña sobre hegemonia e emancipação no século XXI, descreve como a Marinha estadunidense, em diálogo com o estrategista Thomas Barnett, identifica uma "ampla região potencialmente insubmissa ou simplesmente irredutível às normas gerais de funcionamento promovidas pelos Estados Unidos e sancionadas pelo FMI, OMC e Banco Mundial". O texto esclarece ainda que a insubmissão não é necessariamente ideológica: muitas vezes, ela decorre apenas da "insubstancialidade de suas instituições estatais" — ou seja, do fato de esses países terem Estados fracos, incapazes de impor a ordem liberal-global internamente.

O Texto II (a figura) é um mapa-múndi no qual estão representados três elementos sobrepostos:

  • Círculos claros (alta densidade e variedade germoplásmica): concentrados na zona intertropical, cobrindo a Amazônia (norte da América do Sul), a América Central e Caribe, a África Subsaariana (Congo, Guiné), o Sudeste Asiático e a Oceania (Nova Guiné). Essas são as regiões de megabiodiversidade planetária.
  • Círculos escuros (petróleo e gás): concentrados no Oriente Médio (Golfo Pérsico), no norte da África (Argélia, Líbia), no Mar Cáspio, no Golfo do México, na Venezuela e em partes da Ásia Central e Sibéria. São as principais reservas energéticas do mundo.
  • Faixa pontilhada: desenha um anel que envolve toda a zona intertropical, da América Central e Caribe até o Sudeste Asiático, passando pela África Subsaariana, Oriente Médio e Ásia Central. Essa faixa está identificada pela legenda como "a 'brecha' crítica do Novo Mapa do Pentágono".
  • Evidência 1: "Marinha [...] identifica [...] uma ampla região potencialmente insubmissa ou simplesmente irredutível às normas gerais de funcionamento promovidas pelos Estados Unidos" → o emissor da preocupação é militar e estadunidense; o objeto da preocupação são países considerados "insubmissos".
  • Evidência 2: "sancionadas pelo Fundo Monetário Internacional, pela Organização Mundial do Comércio e pelo Banco Mundial" → as normas que esses países resistem a cumprir são as da ordem econômica liberal liderada pelos EUA.
  • Evidência 3 (mapa): a faixa pontilhada da "brecha crítica" coincide geograficamente com a concentração de petróleo, gás e biodiversidade. Não é aleatório: são exatamente as regiões que detêm os principais recursos estratégicos do planeta.
  • Evidência 4 (mapa): os países do "núcleo funcional" (EUA, Europa Ocidental, Japão, Austrália) estão fora da brecha e ficam localizados onde há pouca concentração dos dois recursos marcados. Eles são os consumidores; os países da brecha são os fornecedores.
  • Síntese: a preocupação estratégica do Pentágono em relação à "brecha" não é cultural nem ambiental — é econômica e geopolítica. Os EUA querem garantir que as regiões portadoras dos recursos essenciais para sua economia e indústria fiquem sob a lógica das normas do FMI/OMC/Banco Mundial, ou seja, sob sua influência econômica.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o emissor e seus interesses

O texto é claro: quem identifica a "brecha" é a Marinha dos Estados Unidos, em consonância com o estrategista do Pentágono Thomas Barnett. O Pentágono é o Departamento de Defesa dos EUA — sua função é planejar operações militares e projetar poder. Quando ele mapeia uma "ampla região insubmissa", não está preparando um programa de intercâmbio cultural nem uma iniciativa ambiental. Está preparando projeção de poder.

Subpasso 4.2 — Identificar o objeto da preocupação

O mapa mostra que a faixa pontilhada (brecha) contém exatamente os dois recursos marcados: petróleo/gás (energia) e variedade germoplásmica (biodiversidade). São os dois tipos de recurso mais cobiçados pela economia mundial contemporânea. O primeiro sustenta toda a matriz energética, a indústria pesada e o transporte globais; o segundo é a matéria-prima da agricultura, da indústria farmacêutica, cosmética e biotecnológica.

Subpasso 4.3 — Conectar a preocupação ao interesse hegemônico

A coincidência entre "brecha crítica" e concentração de recursos estratégicos não é casual — é estruturante. Os EUA não se preocupam com essas regiões por desinteresse; preocupam-se justamente porque elas detêm aquilo de que a economia estadunidense e global depende. A estratégia é, portanto, garantir acesso, pressionar pela integração dessas regiões à ordem econômica liberal (FMI/OMC/Banco Mundial) e, quando necessário, recorrer à presença militar (daí o envolvimento da Marinha).

Essa combinação — pressão econômica por meio de instituições multilaterais + capacidade de intervenção militar — é a definição contemporânea de influência econômica hegemônica. Não é só mercado nem só guerra: é o conjunto dos mecanismos pelos quais uma potência garante que os recursos do mundo continuem fluindo na direção que lhe interessa.

Subpasso 4.4 — Eliminar leituras ingênuas

Alguém poderia sugerir que o interesse é cultural (porque o mapa cobre muitas regiões), tecnológico (porque os EUA dominam tecnologia) ou ambiental (porque há biodiversidade marcada). Todas essas leituras falham por um motivo: o emissor é a Marinha e o vocabulário é de "insubmissão" e "normas". Não há nenhuma menção a preservação, difusão cultural ou cooperação tecnológica. Ao contrário: o texto descreve uma relação de imposição de normas externas sobre países vistos como fracos.

Subpasso 4.5 — Verificação

A estratégia estadunidense, ao mapear recursos estratégicos dentro da "brecha" e articulá-la com o poderio da Marinha e das instituições financeiras internacionais, configura uma ampliação da influência econômica dos EUA sobre regiões ricas em recursos naturais. Resposta coerente com texto e mapa.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) compartilhamento de inovações tecnológicas.

Incorreta: o texto não menciona tecnologia nem transferência de conhecimento. Pelo contrário, a "brecha crítica" é descrita como uma zona de Estados frágeis ("insubstancialidade de suas instituições estatais"), e o interesse estadunidense é enquadrá-la sob normas externas — não compartilhar tecnologia com ela. Compartilhamento pressupõe reciprocidade e cooperação, o que contradiz a lógica de "insubmissão a ser neutralizada".

B) promoção de independência financeira.

Incorreta: o texto aponta exatamente o oposto. As normas do FMI, OMC e Banco Mundial historicamente reduzem a autonomia financeira dos países periféricos, por meio de condicionalidades, abertura de mercados, privatizações e subordinação ao dólar. Os EUA não promovem a independência financeira desses países; promovem a integração deles à ordem financeira que a própria potência controla.

C) incremento de intercâmbios culturais.

Incorreta: nem o texto nem o mapa tratam de cultura. O texto fala de normas econômicas e militares; o mapa marca recursos naturais (petróleo, gás, biodiversidade) e uma zona geopolítica. Intercâmbio cultural implica trocas simbólicas, educacionais e artísticas voluntárias, o que é um tema completamente diferente da preocupação do Pentágono.

D) ampliação de influência econômica.

Correta: a preocupação do Pentágono é justamente garantir que a zona tropical rica em petróleo, gás e biodiversidade — regiões onde se concentram os recursos estratégicos para a economia mundial — permaneça sob a lógica das normas do FMI, da OMC e do Banco Mundial. A coincidência entre a "brecha crítica" e a localização desses recursos mostra que a estratégia estadunidense visa ampliar sua influência econômica sobre essas regiões, integrando-as (por pressão ou por força) à ordem liberal liderada pelos EUA.

E) preservação de recursos naturais.

Incorreta: o mapa cita petróleo, gás e biodiversidade como recursos cuja localização interessa ao Pentágono, mas a preocupação evidenciada não é de conservação ambiental. A Marinha e Barnett não são órgãos ambientais; estão descrevendo recursos a serem acessados e controlados, não protegidos. Ler o mapa como manifestação ambientalista seria inverter o sentido do documento militar que ele retrata.

🏆 Gabarito: D — a "brecha crítica" do Pentágono coincide com a concentração mundial de petróleo, gás e biodiversidade; a estratégia estadunidense consiste em submeter essas regiões às normas do FMI, OMC e Banco Mundial, ampliando assim sua influência econômica sobre os principais recursos estratégicos do planeta.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a letra D articula corretamente os três elementos da questão — emissor militar estadunidense, normas econômicas internacionais e localização dos recursos estratégicos. As demais alternativas propõem finalidades (tecnologia, cultura, independência, ambiente) que contradizem o tom imperial do texto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a geopolítica dos recursos naturais e a hegemonia dos EUA no pós-Guerra Fria. Sempre que um texto citar FMI, Banco Mundial, OMC, Pentágono ou Marinha dos EUA em conjunto com mapas de petróleo, gás, biodiversidade ou minerais críticos, a resposta quase sempre envolve influência econômica ou controle estratégico.
  • Generalização: em Geopolítica, sempre pergunte "quem é o emissor e o que ele quer?". Documentos do Pentágono projetam poder; documentos do Banco Mundial padronizam economias; documentos da ONU cooperam; documentos ambientalistas protegem. Cada emissor tem seu vocabulário característico.
  • Dica de eliminação rápida: identifique as alternativas que envolveriam cooperação ou benefício para os países mapeados (A, B, C, E) e as que envolveriam interesse da potência mapeadora (D). Quando a fonte é militar e o objeto é uma "ampla região insubmissa", a resposta está do lado do interesse da potência.
  • Conexões com outros temas: geopolítica do petróleo; guerra do Iraque e do Afeganistão; Consenso de Washington; biopirataria e patentes genéticas; ordem mundial multipolar contemporânea; ascensão da China como desafio à hegemonia estadunidense.

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