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Questão 50ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

Na construção da ferrovia Madeira-Mamoré, o que dizer dos doentes, eternos moribundos a vagar entre delírios febris, doses de quinino e corredores da morte? O Hospital da Candelária era santuário e túmulo, monumento ao progresso científico e preâmbulo da escuridão. Foi ali, com suas instalações moderníssimas, que médicos e sanitaristas dirigiram seu combate aos males tropicais. As maiores vitimas, contudo, permaneceriam na sombra à margem do palco, cobaias sem consolo, credores sem nome de uma sociedade que não lhes concedera tempo algum para ser decifrada.

FOOT HARDMAN, F. Trem fantasma: modernidade na selva São Paulo: Cia. das Letras 1988 (adaptado).

No texto, há uma crítica ao modo de ocupação do espaço amazônico pautada na

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Primeira República + Ciclo da Borracha (Madeira-Mamoré) / Geografia → Ocupação da Amazônia
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretar uma crítica historiográfica sobre modernização e trabalho
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Relação entre projeto de modernização/progresso e exploração do trabalhador no Brasil da Primeira República
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que crítica o texto faz ao modo de ocupação do espaço amazônico na construção da Madeira-Mamoré?"
  • Palavras-chave decisivas: eternos moribundos, monumento ao progresso, maiores vítimas, cobaias sem consolo, credores sem nome, sombra à margem do palco
  • Armadilha típica: ler o texto como denúncia puramente ambiental (floresta destruída, fauna ameaçada) ou puramente técnica (inadequação da engenharia). Quem lê assim esquece que as vítimas nomeadas são pessoas — trabalhadores doentes e mortos.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o texto denuncia uma contradição entre a retórica do progresso nacional (ferrovia, ciência, modernidade) e a realidade vivida pelos trabalhadores sacrificados nessa obra.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Ferrovia Madeira-Mamoré: obra construída entre 1907 e 1912 no atual Rondônia, no auge do ciclo da borracha. Contratada pelo governo Rodrigues Alves para cumprir o Tratado de Petrópolis (1903) com a Bolívia, escoaria borracha da Amazônia. Milhares de operários (brasileiros, barbadianos, antilhanos, italianos, espanhóis) morreram de malária, febre amarela, beribéri e acidentes. Ficou conhecida como "ferrovia do diabo".
  • Hospital da Candelária: hospital construído para atender os trabalhadores. Foi ao mesmo tempo "santuário" (tentativa de salvar vidas) e "túmulo" (local de morte em massa). Representa a ambiguidade da modernização: mobiliza ciência e mata gente.
  • Ideologia do progresso (Primeira República): retórica positivista, vigente no Brasil do início do século XX, que justificava obras de modernização como dever civilizatório. Não reconhecia o custo humano concreto. O texto de Foot Hardman é exatamente uma crítica a essa ideologia.
  • Modernização conservadora: conceito usado para descrever modernizações "por cima" — que introduzem infraestrutura, tecnologia e ciência sem transformar relações de trabalho ou incluir a população afetada.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "monumento ao progresso científico e preâmbulo da escuridão" → o Hospital da Candelária é as duas coisas simultaneamente. O texto marca deliberadamente a contradição: a ciência que deveria curar coexiste com a morte em massa.
  • Evidência 2: "As maiores vítimas, contudo, permaneceriam na sombra à margem do palco" → o "palco" é a narrativa oficial do progresso (a ferrovia como feito nacional); a "sombra" são os trabalhadores mortos, invisibilizados. Esse é o contraste explícito do texto.
  • Evidência 3: "cobaias sem consolo, credores sem nome de uma sociedade que não lhes concedera tempo algum para ser decifrada" → os trabalhadores não são apenas vítimas passivas: são credores da sociedade. A sociedade lhes deve reconhecimento, dignidade, direitos. Não pagou.
  • Síntese: o texto constrói uma tensão entre dois polos — o desenvolvimento nacional (ferrovia, ciência, progresso, sociedade) e os trabalhadores (cobaias, credores sem nome, vítimas na sombra). A crítica é exatamente a contradição entre esses dois polos.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar os dois lados da contradição

De um lado, o texto enfatiza o discurso do progresso: "monumento ao progresso científico", "combate aos males tropicais", "instalações moderníssimas". De outro lado, a realidade dos trabalhadores: "eternos moribundos", "delírios febris", "corredores da morte", "cobaias sem consolo", "credores sem nome". A tensão entre os dois é a estrutura do texto.

Subpasso 4.2 — Nomear o polo da "grande narrativa"

O polo do progresso é chamado no enunciado de "ocupação do espaço amazônico" pela ferrovia Madeira-Mamoré. Essa obra era apresentada pelo Estado brasileiro como desenvolvimento nacional — integração da Amazônia ao país, cumprimento de tratados internacionais, modernização via ciência e engenharia.

Subpasso 4.3 — Nomear o polo dos sacrificados

Quem paga o preço desse desenvolvimento nacional são os trabalhadores — brasileiros pobres, imigrantes, antilhanos — que morrem sem serem nomeados, sem direitos, sem memória. O texto os chama de "credores sem nome", sublinhando a ausência de reconhecimento pela sociedade brasileira.

Subpasso 4.4 — Verificação

A alternativa certa precisa nomear explicitamente a contradição entre esses dois polos: desenvolvimento nacional vs trabalhadores. É uma crítica ética ao projeto republicano de modernização, não uma denúncia ecológica nem uma discussão técnica sobre engenharia.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) discrepância entre engenharia ambiental e equilíbrio da fauna.

Incorreta: o texto não menciona fauna, equilíbrio ambiental ou engenharia ambiental. Confunde a crítica do texto (humana, social) com uma crítica ecológica. O substantivo nuclear do texto é "moribundos", não "fauna".

B) incoerência entre maquinaria estrangeira e controle da floresta.

Incorreta: a "maquinaria estrangeira" não é o tema do texto, e "controle da floresta" também não. O foco não é dominar o ambiente, é a morte dos trabalhadores. Alternativa que troca o vetor humano pelo vetor técnico-territorial.

C) incompatibilidade entre investimento estatal e proteção aos nativos.

Incorreta: o texto não fala de populações indígenas ("nativos"). Trata dos operários mobilizados para a obra — trabalhadores assalariados pobres, muitos vindos de fora (Caribe, Europa, Brasil). Confundir trabalhador com indígena é erro de leitura.

D) competição entre farmacologia internacional e produtos da fitoterapia.

Incorreta: o texto cita "quinino" (remédio contra malária) e "médicos e sanitaristas", mas não há competição com fitoterapia nem disputa entre tradições terapêuticas. Alternativa completamente fora do eixo do texto.

E) contradição entre desenvolvimento nacional e respeito aos trabalhadores.

Correta: nomeia exatamente a tensão estrutural do texto — a retórica do progresso nacional (ferrovia, ciência, hospital moderno) conviveu com o desprezo concreto pela vida dos operários. A palavra contradição casa com "monumento ao progresso... preâmbulo da escuridão". Respeito aos trabalhadores casa com "credores sem nome... cobaias sem consolo".

🏆 Gabarito: E — o texto denuncia a contradição central da Madeira-Mamoré: o Estado brasileiro construía o "monumento ao progresso" enquanto abandonava à morte, sem nome e sem direitos, os trabalhadores que faziam a obra.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a letra E preserva os dois eixos que o texto contrasta — progresso nacional e trabalhadores sacrificados. As outras alternativas trocam um dos eixos por temas ausentes (fauna, maquinaria, indígenas, fitoterapia).
  • Padrão de cobrança: o ENEM valoriza críticas à modernização brasileira que expõem seu custo humano. Textos frequentes: Euclides da Cunha (Canudos), Lima Barreto, Foot Hardman, Graciliano Ramos. A resposta certa costuma nomear a contradição entre progresso/modernização e as classes populares.
  • Generalização: quando um texto descrever uma grande obra pública da Primeira República ou da Belle Époque carioca, pergunte-se: "quem pagou o preço?". A resposta certa geralmente é a que nomeia os trabalhadores, pobres, escravizados libertos ou imigrantes como vítimas invisibilizadas.
  • Dica de eliminação rápida: risque alternativas que tratam de engenharia pura, fauna/flora, ou tecnologia sem mencionar pessoas. Se o texto fala em moribundos, cobaias ou vítimas, a resposta correta fala de trabalhadores.
  • Conexões com outros temas: Ciclo da borracha; Tratado de Petrópolis (1903); Primeira República e positivismo; Revolta da Vacina; modernização conservadora; Euclides da Cunha e o olhar crítico sobre o Brasil profundo.

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