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Questão 48 — ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia
Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrounuma árvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que transforma preto em bode expiatório. Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata?
JESUS, C. M. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.
O texto, que guarda a grafia original da autora, expõe uma característica da sociedade brasileira, que é o(a):
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Raça e Etnia + Desigualdade Social (racismo estrutural)
- ⚡ Nível: Fácil — interpretação direta de texto de Carolina Maria de Jesus
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Reconhecer as marcas do racismo estrutural na sociedade brasileira e sua continuidade histórica
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual característica da sociedade brasileira o relato de Carolina Maria de Jesus expõe?"
- Palavras-chave decisivas: preto espancado, guarda civil é branco, bode expiatório, extinta a escravidão, regime da chibata
- Armadilha típica: reduzir o texto a uma denúncia de violência policial isolada ("excesso do guarda") em vez de enxergar o padrão sistêmico. Quem lê assim marca "concentração de renda" ou "precariedade da educação" porque são temas sociais genéricos.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o episódio narrado revela um padrão histórico e institucional — a sociedade brasileira mantém, após a abolição formal, práticas de violência e subordinação que têm cor: recaem sistematicamente sobre a população negra.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Racismo estrutural: conceito cunhado por autores como Silvio Almeida. Não se trata de atitudes individuais isoladas, mas de um sistema em que as instituições (polícia, justiça, mercado de trabalho, escola) reproduzem automaticamente a hierarquia racial, mesmo sem que cada agente seja pessoalmente racista.
- Continuidade pós-abolição: a Lei Áurea (1888) aboliu a escravidão juridicamente, mas não criou políticas de inclusão. A população negra foi abandonada à margem, e instrumentos de controle (como a violência policial) substituíram o feitor.
- Carolina Maria de Jesus: escritora negra moradora da favela do Canindé em São Paulo. Quarto de despejo (1960) é um diário que expõe a vida nas favelas e a violência cotidiana contra os pobres e negros. Texto-documento do cotidiano do racismo estrutural.
- Metáfora da chibata: a chibata é o instrumento de tortura usado contra escravizados. Dizer que "ainda estamos no regime da chibata" é afirmar que a violência escravista sobrevive com roupa nova.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa árvore" → a cena replica o castigo do feitor escravista. A forma da violência já é, em si, uma citação da escravidão.
- Evidência 2: "o guarda civil é branco" e "transforma preto em bode expiatório" → a cor está explícita. A violência não é aleatória, é direcionada pela raça. O agressor tem cor e o agredido tem cor.
- Evidência 3: "Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata?" → Carolina nomeia o problema: a abolição foi formal, mas a prática persiste. É a definição intuitiva de racismo estrutural.
- Síntese: o texto não descreve um incidente isolado, descreve um padrão. Um branco (agente do Estado) espanca um preto numa forma que evoca a escravidão. Esse padrão só é possível porque a sociedade brasileira não se reorganizou após 1888 — herdou e naturalizou a hierarquia racial.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o tipo de violência
A violência descrita não é delinquência individual do guarda. É um agente do Estado (guarda civil) praticando violência física contra um civil negro numa forma ritualizada (amarrar em árvore) que cita um regime passado. Isso a coloca no campo da violência institucional.
Subpasso 4.2 — Identificar o vetor racial
Carolina faz questão de nomear as cores: o guarda é branco, a vítima é preto. Essa nomeação não é detalhe, é estrutura do texto. Ela está dizendo que o critério da violência é a raça. Uma sociedade em que agentes estatais distribuem violência segundo critério racial é uma sociedade com hierarquia racial embutida nas instituições.
Subpasso 4.3 — Conectar com a continuidade histórica
"Ainda estamos no regime da chibata" é uma afirmação forte: a abolição formal (1888) não destruiu a estrutura de subordinação racial, apenas trocou seus instrumentos. Essa é exatamente a tese do racismo estrutural: as instituições que sucederam a escravidão (polícia, mercado de trabalho, sistema penal) herdaram a função de manter os negros em posição subordinada.
Subpasso 4.4 — Verificação
Confirmar com o comando: "característica da sociedade brasileira". A alternativa vencedora precisa nomear algo estrutural, não pontual. Entre as opções, apenas "racismo estrutural" descreve uma característica da sociedade em seu conjunto. As outras descrevem problemas sociais adjacentes, mas não o alvo direto do texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Racismo estrutural.
✅ Correta: nomeia o padrão que Carolina descreve — violência institucional distribuída segundo critério racial e continuidade da hierarquia escravista após a abolição formal. As expressões "preto", "branco", "bode expiatório" e "regime da chibata" são marcas textuais do racismo estrutural.
B) Desemprego latente.
❌ Incorreta: o texto não menciona trabalho, renda ou mercado de trabalho. Desemprego é um problema social importante, mas está completamente ausente da cena. Marcar essa alternativa é responder uma questão que o texto não faz.
C) Concentração de renda.
❌ Incorreta: concentração de renda é um fato econômico estrutural, mas o texto fala de violência física e cor, não de distribuição de riqueza. Confundir os dois planos é apagar a especificidade racial do relato.
D) Exclusão informacional.
❌ Incorreta: "exclusão informacional" remete a desigualdade no acesso à informação, mídia, internet. O texto não toca esse tema — está falando de violência corporal e herança escravista. Alternativa deslocada.
E) Precariedade da educação.
❌ Incorreta: a escola não aparece no texto. Problema real da sociedade brasileira, mas não o que o texto denuncia. Marcar essa alternativa é escolher um problema genérico em vez de ler a cena específica.
🏆 Gabarito: A — o relato de Carolina expõe o racismo estrutural: violência institucional com alvo racial definido, herdeira direta dos mecanismos escravistas que a abolição formal não desmontou.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a letra A nomeia o vetor racial que o texto explicita. As demais alternativas citam problemas reais da sociedade brasileira, mas nenhum é o objeto do texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra racismo estrutural a partir de textos de autores negros (Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento, Djamila Ribeiro). A chave é atenção às marcas explícitas de raça no texto.
- Generalização: quando o enunciado nomear raça ("preto", "branco", "negro") e citar continuidade histórica pós-abolição, a resposta quase sempre envolve racismo estrutural ou desigualdade racial. Não troque por desigualdade social genérica.
- Dica de eliminação rápida: risque imediatamente as alternativas que não têm dimensão racial (economia pura, educação, tecnologia). Se o texto nomeou a cor das pessoas, a resposta tem que preservar essa dimensão.
- Conexões com outros temas: Lei Áurea e o pós-abolição; Silvio Almeida e Lélia Gonzalez; Frente Negra Brasileira; políticas afirmativas; literatura afro-brasileira; violência policial.