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Questão 24 — ENEM 2021Caderno azul · 1º Dia
Seus primeiros anos de detento foram difíceis, aos poucos entendeu como o sistema funciona. Apanhou dezenas de vezes, teve o crânio esmagado, o maxilar deslocado, braços e pernas quebrados, por fim, um dia ficou lesionado da perna quando foi jogado da laje de um pavilhão. Nem todas as vezes ele soube por que apanhou, muito menos da última, quando foi deixado para morrer, mas sobreviveu. Seu corpo, moído no inferno, aguarda o fim dos seus dias. Já não questiona mais. Obedece. Cumpre as ordens. Baixa a cabeça e se retira. Apanha, As vezes com motivo, às vezes sem. Por onde passou, derramaram seu sangue. Seu rastro pode ser seguido. Intriga ter sobrevivido durante tantos anos. Pouquíssimos chegaram à terceira idade encarcerados. MAM, À P Assim no terra como embaixo da terra Rio de Janeso Record, 2017. A narrativa concentra sua força expressiva no manejo de recursos formais e numa representação ficcional que
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Literatura Contemporânea → Representação ficcional do sistema carcerário brasileiro
- ⚡ Nível: Médio — exige identificar a função dos recursos formais na representação da violência sistêmica no cárcere.
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Análise de recursos narrativos em prosa contemporânea; reconhecimento da literatura como denúncia de estados de exceção.
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que representação ficcional emerge do manejo formal desse fragmento?"
- Palavras-chave decisivas: sistema funciona, apanhou dezenas de vezes, deixado para morrer, sem motivo, baixa a cabeça, Cumpre as ordens
- Armadilha típica: Escolher D (inspiram empatia/justiça) por achar que o texto visa comover, sem perceber que a narrativa tem função CRÍTICA — denuncia um estado de exceção permanente, não apela apenas para compaixão.
- O que a resposta precisa demonstrar: Que a narrativa, pelo tom seco e pelos detalhes acumulados de violência normalizada, representa atitudes típicas de um estado de exceção — violência sem motivo, sem direito, sem fim, em que o corpo do preso não tem proteção legal.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Estado de exceção (Agamben): Situação em que a lei é suspensa em nome da própria lei; direitos básicos não se aplicam a determinados corpos/sujeitos. Giorgio Agamben analisa essa figura.
- Homo sacer / vida nua: Conceito filosófico para vidas expostas à violência sem proteção jurídica. O preso descrito no texto vive essa condição.
- Literatura e denúncia: Desde Graciliano Ramos (Memórias do Cárcere), a literatura brasileira constrói o cárcere como alegoria de estado de exceção. A obra contemporânea continua essa tradição.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Apanhou dezenas de vezes, teve o crânio esmagado, o maxilar deslocado, braços e pernas quebrados... deixado para morrer" → acúmulo de violência extrema, narrada em lista seca.
- Evidência 2: "Nem todas as vezes ele soube por que apanhou, muito menos da última" → violência sem motivo/sem razão jurídica — traço do estado de exceção.
- Evidência 3: "Já não questiona mais. Obedece. Cumpre as ordens. Baixa a cabeça e se retira" → descrição da subjetividade já destroçada, reduzida à obediência automática. Não há agência nem direito.
- Síntese: A narrativa representa o cárcere como espaço em que as normas do estado de direito não se aplicam — estado de exceção permanente.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar os recursos formais Frases curtas, enumeração seca de violências, ausência de justificativas, voz narrativa distanciada. O manejo formal é CONTIDO — o que amplifica o impacto da crueldade descrita.
Subpasso 4.2 — Identificar a representação ficcional A figura do preso surrado repetidamente, sem motivo, que "cumpre ordens" e "baixa a cabeça" é a representação ficcional de um sujeito em estado de exceção — sem direito, sem proteção, sem palavra. O sistema carcerário está figurado como zona de suspensão da lei.
Subpasso 4.3 — Verificação A alternativa B ("trazem à tona atitudes de um estado de exceção") nomeia exatamente essa representação. As outras ou trivializam (A: senso comum), confundem foco (C, D, E).
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) buscam perpetuar visões do senso comum. ❌ Incorreta: O texto NÃO perpetua senso comum — questiona-o. O senso comum diz que preso apanha porque mereceu; o texto mostra preso apanhando sem motivo. É crítica, não perpetuação.
B) trazem à tona atitudes de um estado de exceção. ✅ Correta: A narrativa representa o cárcere como espaço em que a violência ocorre sistematicamente sem motivo, a lei não protege e o corpo do preso é exposto à violação. Isso é estado de exceção — suspensão do direito dentro do próprio sistema jurídico.
C) promovem a interlocução com grupos silenciados. ❌ Incorreta: O texto NÃO promove interlocução — representa o silenciamento. O personagem "já não questiona mais". A narrativa dá VOZ ao silenciado, o que é diferente de promover interlocução.
D) inspiram o sentimento de justiça por meio da empatia. ❌ Incorreta: Redução sentimentalista do texto. O objetivo é denunciar um sistema, não apenas emocionar. "Sentimento de justiça por empatia" seria efeito possível, mas não é a REPRESENTAÇÃO central.
E) recorrem ao absurdo como forma de traduzir a realidade. ❌ Incorreta: O texto não é absurdista. A violência descrita é realista, documentável, testemunhada. Não há absurdo literário (Kafka, Beckett) — há relato quase testemunhal.
🏆 Gabarito: B — Os recursos formais (enumeração seca, voz distanciada, violência sem motivo) constroem uma representação ficcional do cárcere como estado de exceção — espaço em que a lei é suspensa e o corpo do preso fica exposto à violência sistemática.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que nomeia corretamente o quadro representado — estado de exceção — em vez de reduzir à empatia ou ao absurdo.
- Padrão de cobrança: ENEM contemporâneo aborda frequentemente literatura de denúncia do sistema carcerário, continuidade da tradição Graciliano Ramos / João Antônio.
- Generalização: Quando a narrativa descreve violência institucional sem motivo e sem reparação, pense em estado de exceção (Agamben, Foucault). É o tema conceitual adequado.
- Dica de eliminação rápida: Descarte A (texto critica, não perpetua), E (não é absurdo). Entre B, C, D: D é sentimentalista demais, C inverte (texto mostra silenciamento, não promove interlocução), B captura o conceito exato.
- Conexões com outros temas: Literatura contemporânea brasileira, sistema carcerário e direitos humanos, Giorgio Agamben, Graciliano Ramos (Memórias do Cárcere), literatura como denúncia.