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Questão 11 — ENEM 2021Caderno azul · 1º Dia
Sinhá Se a dona se banhou Eu não estava lá Por Deus Nosso Senhor Eu não olhei Sinhá Estava lá na roça Sou de olhar ninguém Não tenho mais cobiça Nem enxergo bem Para que me pôr no tronco Para que me aleijar Eu juro a vosmecê Que nunca vi Sinhá [...] porque que talhar meu corpo Eu não olhei Sinhá Para que que vosmincê Meus olhos vai furar Eu choro em iorubá Mas oro por Jesus Para que que vassuncê Me tira a luz. CHICO BUARQUE, JOÃO BOSCO Clico Rio de Janeiro Biscoito Fina, 2011 (fagmento) No fragmento da letra da canção, o vocabulário empregado e a situação retratada são relevantes para o patrimônio linguístico e identitário do país, na medida em que
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura/Português → Canção popular e história → Violência escravocrata como patrimônio identitário
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer a temática da violência escravocrata mobilizada pela canção.
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Relação entre linguagem, identidade e memória histórica; canção como texto literário-argumentativo.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Por que o vocabulário e a situação retratada na canção são relevantes para o patrimônio linguístico e identitário do país?"
- Palavras-chave decisivas: Sinhá, tronco, aleijar, talhar meu corpo, furar meus olhos, choro em iorubá, vosmecê
- Armadilha típica: Escolher B (valorização da cultura africana na música) por ver "iorubá", sem notar que a canção não celebra influência musical — denuncia violência.
- O que a resposta precisa demonstrar: Que a canção retrata a súplica de um escravizado diante do risco de punição física (tronco, mutilação) — violência física e simbólica que marcou a história dos povos escravizados no Brasil.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Escravidão colonial brasileira: Entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos foram trazidos à força, submetidos a castigos físicos (tronco, chibata, ferros) e morais (proibição de língua materna, interdição de cultos).
- Tronco e aleijamento: Instrumentos/práticas de castigo físico aplicados a escravizados. Mencioná-los numa canção é evocar diretamente a memória dessa violência.
- "Choro em iorubá, mas oro por Jesus": Verso que condensa o sincretismo forçado — o escravizado foi impedido de expressar fé ancestral em sua língua, obrigado a assumir a religião do senhor.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Vosmecê", "Sinhá", "Eu juro a vosmecê que nunca vi Sinhá" → vocabulário colonial/escravocrata que marca a hierarquia entre escravizado e senhora.
- Evidência 2: "Para que me pôr no tronco / Para que me aleijar / porque que talhar meu corpo / meus olhos vai furar" → enumeração de violências físicas, em tom de súplica antecipatória.
- Evidência 3: "Eu choro em iorubá / Mas oro por Jesus / Me tira a luz" → dimensão simbólica: a violência atingia também a língua, a fé e a possibilidade de visão/liberdade.
- Síntese: A canção mobiliza vocabulário histórico e descreve uma cena de súplica que remete à violência física e simbólica sofrida pelos povos escravizados.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconhecer o contexto histórico A figura da "Sinhá" (senhora de engenho), o tratamento de "vosmecê" e a referência ao tronco, à mutilação e ao furamento de olhos ancoram a canção num cenário escravocrata do Brasil colônia/império.
Subpasso 4.2 — Identificar as duas dimensões da violência Violência FÍSICA: tronco, aleijamento, talhamento, furamento de olhos. Violência SIMBÓLICA: obrigação de orar a Jesus apesar de chorar em iorubá, perda da "luz" como metáfora de dignidade/identidade.
Subpasso 4.3 — Verificação A alternativa A ("violência física e simbólica contra os povos escravizados") é a única que captura as duas dimensões. As outras tratam de aspectos periféricos (música africana, sincretismo religioso, relação amorosa) ou inexistentes no fragmento.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) remetem à violência física e simbólica contra os povos escravizados. ✅ Correta: O vocabulário (vosmecê, Sinhá, tronco) e a situação (súplica para não ser aleijado ou ter os olhos furados) remetem diretamente às violências físicas e simbólicas do sistema escravocrata brasileiro. A canção preserva essa memória como patrimônio identitário.
B) valorizam as influências da cultura africana sobre a música nacional. ❌ Incorreta: A canção não celebra influências musicais africanas. A menção a "iorubá" não é sobre música, mas sobre língua materna suprimida. O tom é denuncial, não celebratório.
C) relativizam o sincretismo constitutivo das práticas religiosas brasileiras. ❌ Incorreta: A canção não relativiza o sincretismo — denuncia a imposição forçada da religião cristã sobre tradições africanas. Não é relativização, é denúncia.
D) narram os infortúnios da relação amorosa entre membros de classes sociais diferentes. ❌ Incorreta: A canção não trata de amor. O escravizado NEGA ter olhado para a Sinhá no banho ("Sou de olhar ninguém", "Nunca vi Sinhá") — é súplica para evitar punição, não declaração amorosa.
E) problematizam as diferentes visões de mundo na sociedade durante o período colonial. ❌ Incorreta: A canção não problematiza visões de mundo abstratas — ela denuncia uma violência concreta. "Diferentes visões de mundo" é formulação genérica demais para o teor específico da letra.
🏆 Gabarito: A — A canção é patrimônio linguístico-identitário porque mobiliza vocabulário histórico (vosmecê, Sinhá, tronco) e retrata uma cena de súplica diante da violência física (aleijamento, talhamento) e simbólica (iorubá silenciado, oração imposta) sofrida pelos povos escravizados.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que articula as duas dimensões (física e simbólica) da violência escravocrata mobilizadas pela canção.
- Padrão de cobrança: ENEM cobra frequentemente a função crítica/memorialística de canções populares brasileiras — Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso aparecem com regularidade.
- Generalização: Sempre que uma canção brasileira evocar vocabulário colonial (Sinhá, sinhô, vosmecê) e instrumentos de castigo (tronco, chibata), a temática é a memória da escravização e sua violência estrutural.
- Dica de eliminação rápida: Descarte D (não há amor), E (genérico demais), C (não há relativização). Entre A e B, A cobre a dimensão denuncial; B inverte para celebração de influência musical que o texto não faz.
- Conexões com outros temas: Música popular brasileira e memória histórica, Chico Buarque e a canção engajada, escravidão e suas marcas linguísticas, sincretismo religioso.