Questão 48 — ENEM 2025Caderno azul · 1º Dia
A credulidade dos ouvintes aumenta o descaramento do narrador, e o descaramento deste conquista-lhes a credulidade. A eloquência, quando levada a seu patamar mais alto, deixa pouco lugar à razão ou à reflexão, mas, dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos, cativa os ouvintes condescendentes e subjuga-lhes o entendimento.
HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. São Paulo: Edunesp, 2009.
No contexto do século XVIII, o autor propõe uma reflexão radical acerca da arte da eloquência, restringindo-a ao
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Moderna (Iluminismo) → Crítica à Eloquência / Platão e os Sofistas
- ⚡ Nível: Difícil — exige conhecer tanto a posição de Hume sobre eloquência quanto as críticas platônicas aos sofistas.
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Análise de relações conceituais entre filósofos modernos e antigos.
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A que domínio Hume reduz a arte da eloquência, e a que crítica filosófica antiga isso se parece?"
- Palavras-chave decisivas: eloquência, descaramento do narrador, deixa pouco lugar à razão ou à reflexão, dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos, cativa os ouvintes, subjuga-lhes o entendimento
- Armadilha típica: Marcar D (Descartes, racionalidade) ou C (Aristóteles, lógica) associando eloquência a recursos racionais — mas Hume faz exatamente o oposto, mostrando que a eloquência ABDICA da razão.
- O que a resposta precisa demonstrar: Percepção de que Hume restringe a eloquência à persuasão emocional (fora do campo da razão), e que essa restrição ecoa a crítica de Platão aos sofistas.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- David Hume (1711-1776): Filósofo escocês do Iluminismo. Cético, empirista. Em "Investigação sobre o Entendimento Humano", discute os limites da razão e a força das paixões/imaginação.
- Sofistas (séc. V a.C.): Professores ambulantes na Grécia Antiga que ensinavam retórica e argumentação, frequentemente por dinheiro. Críticos os acusavam de usar a eloquência para persuadir (não para chegar à verdade).
- Platão vs. Sofistas: Platão criticou os sofistas (em diálogos como Górgias, Protágoras, Sofista) por reduzirem a filosofia à arte de persuadir — a retórica, segundo Platão, não busca a verdade, mas o convencimento, e manipula as paixões do ouvinte.
- Persuasão × razão: Distinção filosófica clássica — persuadir é convencer sem necessariamente oferecer provas; demonstrar é convencer via razão e evidência. Platão queria filosofia na segunda categoria; acusava sofistas de atuarem na primeira.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "deixa pouco lugar à razão ou à reflexão" → Hume afirma que a eloquência abdica da racionalidade.
- Evidência 2: "dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos" → Hume aponta o alvo da eloquência: afetos, não razão.
- Evidência 3: "cativa os ouvintes condescendentes e subjuga-lhes o entendimento" → Hume usa vocabulário de dominação e manipulação, não de busca da verdade.
- Evidência 4: "A credulidade dos ouvintes aumenta o descaramento do narrador" → Hume denuncia o jogo de manipulação entre orador e audiência, exatamente o que Platão acusava nos sofistas.
- Síntese: Hume reduz a eloquência à persuasão — arte de subjugar o entendimento pelos afetos, não de demonstrar pela razão. Isso ecoa as críticas de Platão aos sofistas.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a tese de Hume
Hume restringe a eloquência ao âmbito da PERSUASÃO — arte de convencer via afetos e imaginação, sem passar pela razão. Ele não está dizendo que a eloquência é lógica, racional ou demonstrativa; está dizendo o oposto.
Subpasso 4.2 — Encontrar o paralelo filosófico histórico
Na filosofia antiga, quem criticou a retórica como arte de persuasão que ignora a verdade foi Platão, especialmente contra os sofistas. Em Górgias, Sócrates (personagem platônico) afirma que a retórica é "adulação" e "cozinha da alma", não verdadeiro conhecimento.
Subpasso 4.3 — Verificação
Hume restringe a eloquência ao âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas — formulação exata da alternativa E.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) sistema de crenças, conforme a proposta kantiana de objetividade do conhecimento.
❌ Incorreta: Kant é posterior a Hume, e sua "objetividade do conhecimento" (categorias a priori do entendimento) não guarda relação direta com crítica à eloquência. Referência deslocada.
B) campo dos absolutos, semelhante ao entendimento medieval dos Universais.
❌ Incorreta: A querela medieval sobre universais (nominalismo × realismo) é sobre a natureza dos conceitos gerais, não sobre retórica ou eloquência. Tema distinto.
C) domínio da lógica, consoante a compreensão aristotélica nos Analíticos.
❌ Incorreta: Os Analíticos de Aristóteles tratam de silogismo e demonstração — raciocínio lógico. Hume faz o contrário: diz que a eloquência NÃO é lógica. Inversão.
D) paradigma da racionalidade, alinhado ao modelo cartesiano de método.
❌ Incorreta: Descartes é ícone da razão. Hume diz explicitamente que a eloquência "deixa pouco lugar à razão" — portanto, ela NÃO é paradigma de racionalidade. Outra inversão.
E) âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas.
✅ Correta: Une precisamente o que Hume faz (restringir eloquência à persuasão emocional) com sua analogia filosófica mais famosa (Platão criticando sofistas pelo mesmo motivo, há mais de 2 mil anos).
🏆 Gabarito Final: E
Hume restringe a eloquência ao âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas — ambos denunciam a retórica como arte de subjugar o entendimento pelos afetos, sem passar pela razão.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que respeita o sentido do texto de Hume e faz analogia histórica coerente.
- Padrão de cobrança: Filosofia no ENEM frequentemente pede paralelos entre autores antigos e modernos. Conheça os "pares" clássicos: Platão × Sofistas, Aristóteles × Lógica/Ética, Descartes × Método, Kant × Razão Pura.
- Generalização: Quando um filósofo crítica a persuasão emocional em favor da razão, ele quase sempre está num diálogo filosófico com as críticas platônicas aos sofistas.
- Dica de eliminação rápida: Elimine alternativas que invertem o sentido do texto (C, D — colocam a eloquência no campo da lógica/razão quando Hume faz o oposto). Elimine alternativas conceitualmente deslocadas (A, B).
- Conexões com outros temas: Platão, Sofistas (Górgias, Protágoras), Iluminismo, ceticismo humeano, retórica antiga.