Questão 30 — ENEM 2025Caderno azul · 1º Dia
Uruku
Urucum
Rocou
(Bixa orellana)
Moju, dono da água, não gosta do cheiro de urucum. Mani’ojarã, dono da mandioca, e os donos das outras plantas cultivadas também não. Eles não suportam. Por isso, os Wajãpi se untam de urucum, deixam o rosto vermelho e se perfumam com seu aroma agradável.
Além disso, os seres agressores, os jarã (donos) e os espíritos terrestres, gostam do cheiro dos fluidos humanos, do sangue, do suor. Então, o urucum os dissimula, protegendo as pessoas que vão caçar, caminhar pela floresta, que estão sendo perturbadas por espíritos em sonhos ou que estão em resguardo, como os doentes. O seu uso é tão cotidiano que os Wajãpi o plantam na aldeia, para ter sempre pertinho. Como o urucum não tem jarã, não tem problema nenhum em arrancar e usar para pintar.
STRAPPAZZON, A. I.; SIGOLO, R. P. Jardins da história: medicinas indígenas. Recife: ObservaPICS, 2022.
Esse verbete contribui para a preservação do patrimônio linguístico nacional, pois apresenta uma
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Variação Linguística → Patrimônio Linguístico Indígena
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer que o verbete define um termo a partir da cosmologia do povo Wajãpi.
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Análise do patrimônio linguístico nacional a partir de saberes ancestrais indígenas.
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que o verbete sobre o urucum preserva como patrimônio linguístico?"
- Palavras-chave decisivas: Uruku, Urucum, Moju, dono da água, Mani'ojarã, dono da mandioca, jarã (donos), Wajãpi
- Armadilha típica: Marcar A (rito medicinal) ou E (propriedades científicas) por ler o verbete como texto médico/biológico, perdendo a dimensão cosmológica/linguística da definição.
- O que a resposta precisa demonstrar: Percepção de que o verbete define o "urucum" a partir da cosmovisão Wajãpi — nomeando "donos" (jarã), espíritos e relações ancestrais.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Povo Wajãpi: Povo indígena do tronco tupi-guarani que habita o norte do Amapá e o sul da Guiana Francesa. É reconhecido pela UNESCO por seu sistema de grafismos corporais (Kusiwa), declarado patrimônio imaterial da humanidade.
- Jarã: Conceito central da cosmologia Wajãpi e de vários povos tupi-guarani — refere-se aos "donos" ou "mestres espirituais" de elementos da natureza (água, mandioca, caça, plantas). Cada elemento tem seu jarã, que precisa ser respeitado.
- Definição ancestral × definição científica: Um verbete que define uma planta a partir de nome científico (Bixa orellana), propriedades químicas e usos medicamentosos é uma definição científica. Um verbete que a define a partir de como ela é vista, usada e significada por um povo originário é uma definição ancestral.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Uruku / Urucum / Rocou / (Bixa orellana)" → o cabeçalho já mostra o termo em língua indígena (Uruku), em português (urucum), em francês (Rocou, da Guiana Francesa) e em nome científico.
- Evidência 2: "Moju, dono da água, não gosta do cheiro de urucum. Mani'ojarã, dono da mandioca, e os donos das outras plantas cultivadas também não" → a definição central é cosmológica: o urucum é o que afasta os jarã.
- Evidência 3: "os Wajãpi se untam de urucum... os seres agressores, os jarã (donos) e os espíritos terrestres, gostam do cheiro dos fluidos humanos... o urucum os dissimula" → a função do urucum é espiritual/protetiva, segundo a cosmologia Wajãpi.
- Evidência 4: "Como o urucum não tem jarã, não tem problema nenhum em arrancar e usar" → o termo é definido a partir do conceito Wajãpi de "jarã" (ter ou não ter dono espiritual).
- Síntese: O verbete não é técnico nem médico — é a definição do termo a partir da visão de mundo ancestral indígena.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que é definido
O que é definido é o urucum (termo lexical), e a definição é oferecida da perspectiva do povo Wajãpi — o que é, para que serve, por que se usa, tudo enquadrado na cosmologia Wajãpi.
Subpasso 4.2 — Identificar o que caracteriza essa definição
A definição mobiliza conceitos ancestrais (jarã, donos espirituais, fluidos que atraem espíritos, dissimulação espiritual) — não definições botânicas ou químicas. Esses conceitos são o núcleo linguístico-cultural do povo.
Subpasso 4.3 — Verificação
O verbete contribui para o patrimônio linguístico ao apresentar uma definição de um termo na perspectiva ancestral indígena — formulação exata da alternativa B.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) explicação de um rito medicinal do povo Wajãpi.
❌ Incorreta: O verbete menciona usos (proteção contra espíritos, caça, resguardo), mas não é um rito medicinal específico. O foco não é o rito, é a definição do termo. Além disso, "medicinal" restringe a função do urucum a cura, enquanto no texto a função é espiritual/protetiva.
B) definição de um termo na perspectiva ancestral indígena.
✅ Correta: O verbete define o termo "urucum" usando as categorias cosmológicas Wajãpi (jarã, donos, espíritos, dissimulação). Essa é a definição ancestral por excelência — e é o que dá ao verbete seu valor como patrimônio linguístico.
C) relação de equivalência entre vocábulos de diferentes línguas indígenas.
❌ Incorreta: O verbete apresenta traduções (Uruku/Urucum/Rocou/Bixa orellana), mas não compara línguas indígenas entre si. A equivalência é entre idiomas (indígena Wajãpi, português, francês, latim científico), não entre línguas indígenas.
D) atualização de saberes tradicionais dos povos indígenas brasileiros.
❌ Incorreta: Não há atualização — o verbete preserva o saber tal como ele é, dentro da cosmologia Wajãpi. Não modifica nem adapta o conhecimento tradicional para o presente científico.
E) descrição das propriedades científicas de plantas silvestres.
❌ Incorreta: O verbete menciona o nome científico (Bixa orellana) no cabeçalho, mas o corpo do texto NÃO descreve propriedades científicas (componentes químicos, usos farmacológicos). A definição é cosmológica, não biomédica.
🏆 Gabarito Final: B
O verbete contribui para o patrimônio linguístico ao definir o termo "urucum" a partir da perspectiva ancestral indígena do povo Wajãpi, mobilizando categorias cosmológicas próprias (jarã, donos, espíritos).
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que identifica o valor patrimonial do verbete como definição ancestral (não botânica, não medicinal, não comparativa).
- Padrão de cobrança: Patrimônio linguístico indígena é tema recorrente no ENEM — especialmente após a valorização das línguas e culturas originárias na BNCC.
- Generalização: Quando um verbete usa conceitos de uma cosmologia específica (jarã, orixá, encantado, dono espiritual), ele está definindo o termo a partir dessa perspectiva ancestral — e é isso que o torna patrimônio.
- Dica de eliminação rápida: Elimine alternativas que deslocam o verbete para o campo científico/médico (A, E) ou comparativo/atualizador (C, D) quando o corpo do texto mobiliza categorias cosmológicas.
- Conexões com outros temas: Povos Wajãpi, Kusiwa (patrimônio imaterial da humanidade), cosmologia tupi-guarani, variação linguística, patrimônio cultural.