Questão 70 — ENEM 2025 BelémCaderno azul · 1º Dia
É com certeza, Senhor, e não com dúvida que em minha consciência eu Vos amo. Vós atingistes meu coração com a Vossa palavra e assim Vos amei. O céu, a terra e tudo que neles existe conclamam-me por toda parte a amar-Vos.
AGOSTINHO. Confissões. Petrópolis: Vozes, 1988.
Na visão do autor, o ser humano tem como característica a
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia medieval cristã, Santo Agostinho e Patrística
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer a concepção agostiniana de que a felicidade humana só se completa em Deus
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Filosofia medieval, fé e razão (CH3 — compreender concepções filosófico-religiosas sobre o humano)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual característica do ser humano Agostinho afirma neste trecho das Confissões?"
- Palavras-chave decisivas: Vos amo, céu, terra [...] conclamam-me a amar-Vos, Confissões, coração com a Vossa palavra
- Armadilha típica: confundir Agostinho com filósofos posteriores (Kant — imperativo categórico; Weber — ética protestante do trabalho) ou atribuir-lhe posições modernas de autonomia
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que em Agostinho o ser humano é radicalmente dependente da graça divina para alcançar a plenitude/felicidade
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Santo Agostinho (354-430): bispo de Hipona, principal pensador da Patrística; combina platonismo e cristianismo; autor de Confissões e Cidade de Deus
- Confissões: obra autobiográfico-filosófica em que Agostinho narra sua conversão e articula a tese de que "o coração humano é inquieto enquanto não repousa em Deus"
- Bem supremo em Deus: para Agostinho, a felicidade plena (beatitudo) só é alcançada em Deus; os bens terrenos são provisórios
- Graça divina: condição indispensável para a salvação e para a vida virtuosa — o homem, por si só, não se basta
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Vós atingistes meu coração com a Vossa palavra e assim Vos amei" → o movimento amoroso parte de Deus; o humano responde, mas depende da iniciativa divina
- Evidência 2: "O céu, a terra e tudo que neles existe conclamam-me por toda parte a amar-Vos" → toda a criação remete o humano ao Criador — a realização está em Deus
- Síntese: o ser humano, segundo Agostinho, encontra sua plenitude na relação com o divino — dependência ontológica de Deus
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Contexto filosófico-religioso Agostinho vive a transição do mundo antigo para o medieval. Partindo do neoplatonismo e do cristianismo paulino, sustenta que o humano tem um "peso" (pondus) que o dirige para Deus — o amor (amor meus, pondus meum). Sem Deus, o ser humano vive na inquietação.
Subpasso 4.2 — Análise do trecho O texto é paradigmático: o "eu" se endereça a Deus em segunda pessoa ("Vos amo"), reconhecendo que a palavra divina atinge o coração e produz amor. A criação inteira aponta para o Criador — ou seja, a felicidade humana depende de ordenar-se a Deus. Essa é a definição agostiniana da condição humana: criatura dependente da graça, cuja realização plena está na comunhão divina.
Subpasso 4.3 — Verificação A alternativa C ("dependência da ordem divina para conquista da felicidade plena") capta exatamente essa tese. As demais ou são anacrônicas (Kant, Weber) ou falsas para Agostinho (autonomia como libertação). Confirma-se.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) abstenção política como resultado da manifestação da fé. ❌ Incorreta: Agostinho escreve A Cidade de Deus justamente como reflexão política; a fé não implica abstenção, mas orientação escatológica da vida — incluindo a vida pública.
B) construção da ideia de autonomia como fonte de libertação. ❌ Incorreta: autonomia é conceito kantiano (séc. XVIII) — oposto, na realidade, à heteronomia da graça agostiniana. Para Agostinho, libertação vem da graça de Deus, não da autonomia do sujeito.
C) dependência da ordem divina para conquista da felicidade plena. ✅ Correta: exatamente o núcleo do pensamento agostiniano — o coração inquieto só repousa em Deus; a felicidade plena (beatitudo) é dom divino, não conquista humana.
D) realização pessoal mediante prosperidade advinda do trabalho. ❌ Incorreta: essa tese é associada à ética protestante weberiana (séc. XVI-XVII), milênios depois de Agostinho, e contraria a hierarquização agostiniana entre bens terrenos (menos) e bem celestial (supremo).
E) busca pela moralidade cristã determinada pelo imperativo categórico. ❌ Incorreta: imperativo categórico é conceito kantiano (séc. XVIII), não agostiniano; ademais, a moralidade agostiniana está fundada no amor a Deus, não numa formalidade racional autônoma.
🏆 Gabarito: C — o ser humano, em Agostinho, depende da ordem divina para alcançar a felicidade plena.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só C é compatível com a Patrística agostiniana — a graça como condição da beatitude
- Padrão de cobrança: o ENEM coloca pensadores medievais (Agostinho, Tomás de Aquino) dialogando com noções modernas como armadilha; cuide da cronologia
- Generalização: filosofia medieval cristã = primazia de Deus como fundamento ontológico e moral; evite atribuir autonomia/razão emancipada a esses autores
- Dica de eliminação rápida: anacronismos filosóficos (imperativo categórico, ética protestante, autonomia moderna) em alternativas sobre Agostinho devem ser cortados
- Conexões com outros temas: Patrística, neoplatonismo cristão, Tomás de Aquino (Escolástica), Kant e autonomia, Weber e ética protestante