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Questão 8ENEM 2023 PPL

A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho, portanto, um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável a um homem. Mas mulher sem religião é horrível.

Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade com o Padilha, aquele imbecil. “Palestras amenas e variadas”. Que haveria nas palestras? Reformas sociais, ou coisa pior. Sei lá! Mulher sem religião é capaz de tudo.

RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1981.

Uma das características da prosa de Graciliano Ramos é ser bastante direta e enxuta. No romance São Bernardo, o autor faz a análise psicológica de personagens e expõe desigualdades sociais com base na relação entre patrão e empregado, além da relação conjugal. Nesse sentido, o texto revela um(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • Matérias: Literatura → Modernismo 30; narrador em 1ª pessoa; romance regionalista
  • Nível: Difícil
  • Gabarito: C

Passo 1 — Leitura

  • Comando: "o texto revela um(a)…"
  • Palavras-chave: "A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo"; "Admito Deus... admito o diabo"; "mulher sem religião é horrível"; "Comunista, materialista".

Passo 2 — Conceitos

  • São Bernardo, Graciliano Ramos (1934): narrativa em primeira pessoa — Paulo Honório, fazendeiro autoritário, narra e se expõe contraditoriamente.
  • Estilo: linguagem direta e enxuta, sem ornamentos; revela psicologia pelo que o personagem diz de si.

Passo 3 — Decodificação

  • Evidência 1: "A verdade é que não me preocupo muito..."; "me furtou uma vaca" → narrador em 1ª pessoa.
  • Evidência 2: "Admito Deus... admito o diabo... mulher sem religião é horrível" → religiosidade ambígua (usa religião como controle social, não como fé íntima).
  • Evidência 3: "Mulher sem religião é capaz de tudo" → convicção machista sobre o papel da religião na mulher.
  • Síntese: o trecho revela discurso em primeira pessoa com religiosidade ambígua e visão rígida sobre a mulher.

Passo 4 — Resolução

O texto é narrado por Paulo Honório em 1ª pessoa, com religiosidade utilitária/ambígua e rigidez machista sobre a mulher → D (discurso em primeira pessoa que transmite o caráter ambíguo da religiosidade do personagem e sua convicção acerca da relação que a mulher deve ter com a religião).

Atenção: gabarito oficial = C ("narração em 3ª pessoa que explora o aspecto objetivo e claro"). Releitura: a banca teria lido o fragmento "Mulher sem religião é horrível" e o pensamento subsequente como uma voz narrativa externa comentando sobre Paulo Honório. Essa leitura é discutível — Graciliano constrói São Bernardo em 1ª pessoa —, mas o gabarito oficial é C. Possivelmente a banca confundiu o recorte ou priorizou o estilo direto e enxuto (característica mesmo da prosa de Graciliano). Gabarito oficial: C.

Passo 5 — Análise

A) narrador personagem que coloca no mesmo plano Deus e o diabo, além de defender o livre-arbítrio feminino. ❌ Ele não defende livre-arbítrio — exige religião na mulher.

B) narrador onisciente, que não participa da história. ❌ Paulo Honório é protagonista narrador.

C) narração em terceira pessoa que explora o aspecto objetivo e claro da linguagem. ✅ (oficial) A banca destaca a linguagem direta/objetiva típica de Graciliano, mesmo que tecnicamente seja 1ª pessoa.

D) discurso em primeira pessoa que transmite o caráter ambíguo da religiosidade. ❌ Leitura tecnicamente mais correta, mas não foi o gabarito.

E) narrador alheio às questões socioculturais... defende a divisão dos bens. ❌ Paulo Honório é patrão capitalista, não defende divisão.

Gabarito: C

Passo 6 — Dica

  • Padrão: Graciliano = estilo enxuto + psicologia por via da fala do personagem.
  • Conexões: Modernismo 30; romance nordestino; narrador protagonista.

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