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Questão 65 — ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

O ápice da ilustração se traduz por uma conduta social caracterizada pela
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Violência de gênero, ciclo da violência doméstica e feminicídio
- ⚡ Nível: Fácil — exige apenas a leitura do esquema visual e o reconhecimento do conceito terminal do ciclo
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Direitos humanos e cidadania — identificar a violência contra a mulher como problema estrutural e reconhecer o feminicídio como sua forma mais extrema
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A espiral mostrada termina numa palavra no topo. Qual conduta social essa palavra-fim representa?"
- Palavras-chave decisivas: ápice, ilustração, conduta social
- Armadilha típica: deixar-se seduzir por "defesa da honra", que é um jargão histórico associado a julgamentos de feminicídios no Brasil antes de 1991, quando assassinos de mulheres eram absolvidos sob o argumento (hoje inaceitável) de terem defendido sua "honra". Essa alternativa captura alunos que reconhecem a ligação histórica, mas não é o conceito que a questão pede. A questão pergunta qual conduta está representada no ápice, não sob qual justificativa ela foi historicamente acobertada.
- O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer o esquema como o ciclo da violência doméstica contra a mulher, perceber que a palavra "MORTE" está no topo e identificar que o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher chama-se feminicídio.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ciclo da violência doméstica: modelo descrito pela psicóloga Lenore Walker na década de 1970. Mostra que a violência conjugal contra a mulher não é um episódio isolado, mas um padrão repetitivo de três fases: acumulação de tensão (pequenas humilhações, gritos, controle), explosão ou agressão (violência física, empurrões, tapas, espancamento) e lua de mel ou reconciliação (arrependimento, promessas, carinho, presentes). O ciclo recomeça e cada repetição tende a ser mais intensa e mais curta.
- Feminicídio: assassinato de uma mulher cometido em razão de ser mulher, geralmente no contexto de violência doméstica ou familiar, ou por discriminação de gênero. No Brasil, é tipificado como crime hediondo pela Lei 13.104/2015, que alterou o Código Penal e incluiu o feminicídio como qualificadora do homicídio.
- Lei Maria da Penha (11.340/2006): marco legal brasileiro de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. Criou medidas protetivas, varas especializadas e define cinco formas de violência (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral).
- Defesa da honra: tese jurídica usada por advogados de acusados de matar esposas, namoradas ou amantes até ser formalmente rejeitada pelo STJ em 1991 e definitivamente inconstitucional pelo STF em 2021. É um eufemismo histórico para encobrir feminicídios, não o nome da conduta.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
A ilustração é um esquema em espiral ascendente, com giros cada vez mais apertados conforme sobe. Em cada volta, aparecem três marcadores em ordem repetida: Lua de mel → Tensão → Agressão → Lua de mel → Tensão → Agressão.... A espiral parte da base larga (primeiro ciclo) e vai estreitando até culminar, no topo, na palavra destacada MORTE. Abaixo da espiral, há uma legenda com três círculos coloridos que definem cada fase:
- Lua de mel (círculo): "carinho, paixão, presentes, promessas, reconciliação, liberdade"
- Tensão: "insulto, humilhação, intimidação, gritos, ameaça, controle, isolamento, medo, conflitos, descumprimento de promessa"
- Agressão: "empurrão, beliscão, puxão de cabelo, sufocamento, arremesso de objetos, tapa, chute, espancamento"
- Evidência 1 (descritiva): a repetição do ciclo lua de mel → tensão → agressão em várias voltas é a reprodução exata do modelo de Lenore Walker para a violência doméstica. O ciclo não para — reinicia.
- Evidência 2 (descritiva): a espiral é ascendente e cada vez mais apertada, o que indica intensificação. Cada volta traz agressões mais graves em intervalos mais curtos.
- Evidência 3 (descritiva): no topo da espiral, isolada, está a palavra MORTE. Não há outra volta depois dela — é o desfecho possível quando o ciclo não é interrompido por denúncia, medida protetiva ou ruptura da relação.
- Evidência 4 (comando): o enunciado fala em "ápice da ilustração" — o ponto mais alto, justamente onde está a palavra MORTE.
- Síntese: o ápice da espiral é a morte da mulher vítima do ciclo de violência doméstica. Sociologicamente e juridicamente, a morte de uma mulher no contexto de violência doméstica ou por razão de gênero é chamada de feminicídio. Esse é o conceito pedido.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconhecer o esquema
O esquema não é uma figura aleatória: reproduz o modelo clássico do ciclo da violência doméstica, presente em campanhas de conscientização do Governo Federal, do Ministério Público e de entidades como a Rede Brasileira de Pesquisa em Feminicídio. As três fases (tensão, agressão, lua de mel) e sua repetição cíclica são marcas inconfundíveis desse modelo.
Subpasso 4.2 — Localizar o ápice
O enunciado define explicitamente que quer o "ápice da ilustração". Numa espiral desenhada verticalmente, o ápice é o ponto mais alto — e nele está escrito MORTE. Não há ambiguidade: o enunciado não pergunta o que inicia nem o que caracteriza o ciclo, pergunta o que está no topo.
Subpasso 4.3 — Nomear a conduta social correspondente
A morte de uma mulher como desfecho de uma relação marcada por violência doméstica tem, no Brasil, um nome jurídico-sociológico preciso: feminicídio. O termo entrou oficialmente no Código Penal brasileiro em 2015 (Lei 13.104/2015), e designa o homicídio de mulher cometido por razão da condição de sexo feminino, especialmente quando envolve violência doméstica, menosprezo ou discriminação de gênero.
A questão pede "conduta social" — e feminicídio é, antes de ser um tipo penal, uma prática social historicamente reiterada, enraizada em relações de poder desiguais entre homens e mulheres.
Subpasso 4.4 — Eliminar os distratores conceituais
É importante distinguir feminicídio de:
- cultura do cancelamento (conduta coletiva de reprovação pública nas redes sociais, sem qualquer relação com violência doméstica);
- postura negacionista (recusa de evidências científicas ou históricas, como o negacionismo climático ou da Covid);
- ação involuntária (ato sem intenção, oposto ao crime doloso que caracteriza o feminicídio);
- defesa da honra (tese jurídica usada para absolver autores de feminicídio; não é a conduta em si, é um argumento retórico para encobri-la).
Subpasso 4.5 — Verificação
O esquema representa o ciclo da violência doméstica com ápice em MORTE. A morte de mulheres nesse contexto é feminicídio. A alternativa que menciona feminicídio é a resposta. Confirmado.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) cultura do cancelamento.
❌ Incorreta: a cultura do cancelamento é um fenômeno contemporâneo das redes sociais em que uma figura pública é alvo de boicote coletivo após comportamento considerado inaceitável. Trata-se de reprovação simbólica e digital, sem relação nenhuma com violência física, doméstica ou com o ciclo representado na espiral. A alternativa insere um tema atual, porém completamente desconectado da ilustração.
B) prática do feminicídio.
✅ Correta: o ápice da espiral é a palavra "MORTE", e a conduta social que traduz a morte de uma mulher como desfecho de violência doméstica ou de gênero é exatamente o feminicídio, tipificado no Brasil como qualificadora do homicídio pela Lei 13.104/2015. O esquema mostra como a intensificação não interrompida do ciclo de tensão, agressão e lua de mel pode levar a esse ápice trágico.
C) postura negacionista.
❌ Incorreta: postura negacionista é a recusa sistemática de fatos comprovados (negar a Covid-19, negar o aquecimento global, negar o Holocausto). Não há nenhum elemento negacionista na espiral, que, ao contrário, reconhece e denuncia um processo. A palavra está em moda, mas não corresponde à conduta representada.
D) ação involuntária.
❌ Incorreta: ação involuntária é um ato realizado sem intenção, como um reflexo ou um acidente. O feminicídio e as demais agressões do ciclo são, por definição, condutas intencionais — agressões deliberadas contra a parceira. Classificar o topo da espiral como "involuntário" seria inverter o sentido da denúncia e retirar a responsabilidade do agressor, o que contradiz todo o espírito da ilustração.
E) defesa da honra.
❌ Incorreta: "defesa da honra" foi uma tese usada por advogados de homens que mataram suas companheiras, no intuito de absolvê-los, e foi definitivamente rejeitada pelo STJ em 1991 e pelo STF em 2021 por ser incompatível com a Constituição. Ela não é o nome da conduta representada no ápice, mas o nome de um argumento jurídico usado para acobertar essa conduta. A questão pede a conduta em si, não a justificativa histórica que a mascarava.
🏆 Gabarito: B — a espiral representa o ciclo da violência doméstica contra a mulher, cujo ápice é a morte, e a prática social da morte de mulheres por razão de gênero chama-se feminicídio.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a letra B nomeia a conduta que corresponde ao topo da espiral. As demais alternativas ou não têm relação com o tema (A, C, D) ou trocam a conduta por uma justificativa histórica usada para camuflá-la (E).
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com regularidade o conceito de feminicídio e o ciclo da violência doméstica, especialmente em questões de Sociologia e Direitos Humanos. A banca costuma apresentar esquemas, infográficos ou trechos da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio.
- Generalização: quando um esquema mostra repetição de fases envolvendo agressões e reconciliações dentro de um relacionamento, é o ciclo da violência doméstica; quando esse ciclo termina em morte, o nome da conduta é feminicídio.
- Dica de eliminação rápida: procure a alternativa que nomeia uma prática específica de violência de gênero. "Cancelamento" e "negacionismo" são termos da esfera pública digital; "involuntária" contradiz a intencionalidade da agressão; "defesa da honra" é uma tese, não uma conduta. Sobra apenas feminicídio.
- Conexões com outros temas: Lei Maria da Penha (11.340/2006); Lei do Feminicídio (13.104/2015); movimentos feministas; direitos humanos das mulheres; mapa da violência no Brasil; intersecções entre gênero, raça e classe na vitimização; função das delegacias da mulher.