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Questão 58ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

TEXTO I

Em março de 1889, quando apareceram as primeiras romarias atraídas pelos milagres da beata Maria de Araújo, Juazeiro inseriu-se no rol da fundação do espaço religioso. Construfa-se mais um centro, como Aparecida do Norte, Canindé ou Lourdes.

RAMOS, F. R. L. O melo do mundo: território sagrado em Juazeiro do Padre Cicero. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2014.

TEXTO II

Não sabemos ao certo quantas pessoas estavam : presentes na capela no momento em que a hóstia sangrou na boca de Maria de Araújo. O Padre Cicero nos conta que o fato surpreendeu não só aos presentes, mas a própria beata parecia atordoada com o ocorrido. O fenômeno continuou acontecendo todas as quartas e sextas na Capela de Nossa Senhora das Dores a partir . daquele dia. Os paninhos manchados do sangue que escorria da hóstia e da boca da beata, a principio, ficaram sob a guarda do Padre Cicero, mas logo foram expostos à visitação pública e, além disso, o sangramento foi. proclamado como milagre sem o conhecimento e sem a autorização do bispo diocesano.

NOBRE, E. Incêndios da alma. Rio de Jarairo; Multifoco, 2018 (adaptado).

As práticas religiosas mencionadas nos textos estão associadas, respectivamente, à:

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Império/Primeira República + Religiosidade popular / Sociologia → Catolicismo popular
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular fundação do espaço sagrado e autonomia leiga em relação à hierarquia eclesiástica
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Reconhecer traços do catolicismo popular brasileiro — formação de centros de romaria e milagres à margem da hierarquia oficial
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "A quais práticas religiosas os Textos I e II estão associados, respectivamente?"
  • Palavras-chave decisivas: fundação do espaço religioso, Juazeiro, Aparecida do Norte, Canindé, Lourdes (Texto I); hóstia sangrou, beata, milagre, sem o conhecimento e sem a autorização do bispo (Texto II)
  • Armadilha típica: marcar alternativas que envolvam "cristianismo medieval", "cerimônias ecumênicas" ou "patrimônios afetivos" — parecem cultas mas não correspondem ao fenômeno brasileiro descrito. O fenômeno específico é catolicismo popular e fundação de lugares sagrados, não misticismo medieval nem ecumenismo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que os textos retratam, respectivamente, (i) a criação de um lugar santo/místico (Juazeiro como centro religioso) e (ii) uma experiência típica do catolicismo popular brasileiro (milagres leigos, beatas, veneração autônoma sem aprovação do bispo).

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Catolicismo popular brasileiro: forma de catolicismo que se desenvolveu no Brasil a partir da escassez de padres e da grande autonomia leiga — marcada por devoção a santos específicos, romarias, promessas, ex-votos, beatas, milagres e santuários informais. Coexiste com (e às vezes se choca com) o catolicismo oficial da hierarquia.
  • Juazeiro do Norte e Padre Cícero: Padre Cícero Romão Batista (1844-1934) foi uma figura central do catolicismo popular do Cariri cearense. A partir do milagre da hóstia sangrenta atribuído à beata Maria de Araújo em 1889, Juazeiro atraiu romeiros e se consolidou como um dos maiores centros de peregrinação do Brasil — contra a vontade da Igreja oficial, que suspendeu Cícero de suas ordens em 1894.
  • Centros de romaria/lugares místicos: Aparecida do Norte (SP), Canindé (CE), Juazeiro (CE), Bom Jesus da Lapa (BA), Lourdes (França). São espaços que a devoção popular consagra como sagrados a partir de aparições, milagres ou achados prodigiosos. O Texto I descreve exatamente esse processo: Juazeiro "se inseriu no rol da fundação do espaço religioso".
  • Milagre e autonomia leiga: no catolicismo popular, milagres são reconhecidos primeiro pela comunidade e depois (ou nunca) pela hierarquia. A beata Maria de Araújo e o sangramento da hóstia são exemplares: a devoção cresceu sem aprovação do bispo de Fortaleza. A comunidade dispensa o selo oficial.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência Texto I: "Juazeiro inseriu-se no rol da fundação do espaço religioso. Construía-se mais um centro, como Aparecida do Norte, Canindé ou Lourdes." → fala explicitamente da fundação de um lugar sagrado, em pé de igualdade com os grandes centros marianos. É a criação de um lugar místico.
  • Evidência Texto II: "os paninhos manchados do sangue... ficaram sob a guarda do Padre Cicero, mas logo foram expostos à visitação pública... o sangramento foi proclamado como milagre sem o conhecimento e sem a autorização do bispo diocesano." → a tônica é a autonomia popular: o milagre é reconhecido pela comunidade, exibido, celebrado, sem passar pelo crivo da hierarquia. É catolicismo popular por definição.
  • Síntese: Texto I = fundação/criação de um lugar místico (espaço sagrado novo); Texto II = experiência típica do catolicismo popular (milagres leigos, veneração autônoma). Esses dois elementos casam com a alternativa E.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Decompor o comando

A questão pede, "respectivamente", o que cada texto descreve. Preciso nomear Texto I e Texto II separadamente e checar qual alternativa tem os dois termos na ordem correta.

Subpasso 4.2 — Nomear o Texto I

O Texto I fala de "fundação do espaço religioso" e coloca Juazeiro ao lado de centros como Aparecida, Canindé e Lourdes. A chave é criação/fundação de um lugar sagrado. Em termos acadêmicos: criação de lugares místicos (ou santuários). É a primeira parte da alternativa E.

Subpasso 4.3 — Nomear o Texto II

O Texto II descreve uma beata atribuindo um milagre à hóstia sangrenta, a guarda dos paninhos pelos padres e a veneração sem autorização do bispo. A chave é catolicismo popular — a forma autônoma, leiga, espontânea de devoção que dispensa o aval oficial. É a segunda parte da alternativa E.

Subpasso 4.4 — Eliminar alternativas por incompatibilidade

  • A: "paisagens urbanas" não se aplica a Juazeiro em 1889 (espaço religioso ≠ urbano); "abandono de componentes espiritualistas" é o oposto do Texto II (o espiritualismo aumenta, não diminui).
  • B: "patrimônios afetivos" é termo vago; "elementos judaizantes" não se aplica a beata e Padre Cícero (não há prática judaica).
  • C: "expansão de fronteiras regionais" não é o foco do Texto I; "subjetivação do cristianismo medieval" é anacrônico — o medieval ficou séculos atrás.
  • D: "circunscrição de bens simbólicos" é termo vago; "cerimônias ecumênicas" implica diálogo entre religiões, o que não aparece nos textos (o fenômeno é interno ao catolicismo).
  • E: "criação de lugares místicos" casa com Texto I; "experiências do catolicismo popular" casa com Texto II. Correspondência perfeita.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Delimitação de paisagens urbanas e abandono de componentes espiritualistas.

Incorreta: os dois termos estão fora do fenômeno. Juazeiro em 1889 é vilarejo sertanejo, não paisagem urbana planejada. E o Texto II mostra crescimento dos componentes espiritualistas (milagre, sangramento, veneração), não abandono. Alternativa com os dois polos invertidos.

B) Demarcação de patrimônios afetivos e apropriação de elementos judaizantes.

Incorreta: "elementos judaizantes" (práticas com raiz no judaísmo) não têm absolutamente nada a ver com beata, hóstia e Padre Cícero. Alternativa deslocada.

C) Expansão de fronteiras regionais e subjetivação do cristianismo medieval.

Incorreta: o Texto I não fala de fronteiras regionais (política/território), fala de espaço religioso. E "cristianismo medieval" é anacronismo pesado — estamos em 1889, fim do século XIX, não idade média. Juazeiro é fenômeno moderno.

D) Circunscrição de bens simbólicos e admissão de cerimônias ecumênicas.

Incorreta: ecumenismo implica abertura entre religiões diferentes (católicos, protestantes, ortodoxos). O fenômeno dos textos é interno ao catolicismo, sem abertura ecumênica. Alternativa conceitualmente deslocada.

E) Criação de lugares místicos e experiências do catolicismo popular.

Correta: cobre exatamente os dois termos dos textos. Texto I = criação de lugar místico (Juazeiro fundado como centro religioso ao lado de Aparecida e Canindé). Texto II = experiência típica do catolicismo popular (milagre reconhecido pela comunidade sem autorização do bispo, beata como mediadora). Encaixe perfeito com os dois textos.

🏆 Gabarito: E — o Texto I descreve a fundação/criação de um lugar místico (Juazeiro) e o Texto II descreve uma experiência clássica do catolicismo popular brasileiro (milagre e beatitude reconhecidos pela devoção leiga, à margem da hierarquia eclesiástica).

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a letra E nomeia os dois fenômenos na ordem correta com vocabulário historiográfico adequado. As demais ou usam termos deslocados (judaizante, ecumenismo, medieval) ou invertem o sentido (abandono do espiritualismo).
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra catolicismo popular brasileiro com frequência, usando casos como Juazeiro/Padre Cícero, Canudos/Antônio Conselheiro, Contestado/João Maria, Muçum, Bom Jesus da Lapa. A resposta certa geralmente destaca autonomia leiga, milagres, romarias, tensão com a hierarquia oficial.
  • Generalização: quando aparecerem beatas, milagres, romarias e autoridade religiosa informal (fora do clero), o tema é catolicismo popular. Se houver fundação de um novo espaço sagrado, some a isso a criação de lugar místico/santuário.
  • Dica de eliminação rápida: descarte termos anacrônicos (medieval para séculos XIX-XX), termos estranhos à tradição (judaizante, ecumenismo) e termos que indiquem abandono ou redução do componente religioso — quando o texto mostra o contrário.
  • Conexões com outros temas: Guerra de Canudos (1896-97) e Antônio Conselheiro; Contestado (1912-16); messianismo no Brasil; Primeira República e conflitos religiosos; Euclides da Cunha e o sertão místico.

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