Pular para o conteúdo
Memorize
HumanasGeografiaMédio

Mesma questão em outros cadernos

79Amarelo87Branco62Rosa

Questão 46ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

Espera, resignado, o dia 13 daquele mês porque, em tal data, usança avoenga lhe faculta sondar o futuro, interrogando a providência, E a experiência tradicional de Santa Luzia. No dia 12 ao anoitecer expõe ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal, que representam, em ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis meses vindouros, de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se estão intactas, pressagiam a seca; se a primeira apenas se deliu, transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a maioria ou todas, é inevitável o inverno benfazejo.

Esta experiência é belíssima.

CUNHA, E. Os sertões. São Paulo: Edilora Três, 19B4.

No experimento descrito, a relação com a paisagem e com a religiosidade permite que o sertanejo seja

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Região Nordeste + Relação Sociedade-Natureza (saberes tradicionais)
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretação literária articulada com conhecimento da Caatinga e da cultura sertaneja
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Saberes tradicionais como leitura empírica do ambiente; interação entre população sertaneja e o bioma Caatinga
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "A partir da experiência das pedrinhas de sal, qual traço do sertanejo a relação com a paisagem E com a religiosidade permite que ele exerça?"
  • Palavras-chave decisivas: paisagem, religiosidade, experiência, pressagiam, Santa Luzia
  • Armadilha típica: interpretar o ritual como mera fé passiva — quem lê assim escolhe alternativas que associam o sertanejo a "devoção", "resignação" ou "acaso", perdendo o núcleo: o ritual é uma técnica de leitura ambiental embalada em símbolos religiosos.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o ritual revela um conhecimento empírico acumulado sobre a Caatinga — o sertanejo interpreta condições físicas do ambiente (umidade noturna) para prever o regime de chuvas.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Saberes tradicionais: conhecimento prático construído por gerações de observação direta do meio. Não é superstição vazia — é ciência empírica codificada em linguagem cultural/religiosa.
  • Bioma Caatinga: bioma semiárido do Nordeste brasileiro marcado por irregularidade das chuvas, altas temperaturas e secas periódicas. Viver nele exige leitura fina das pistas ambientais.
  • Higroscopia do sal: o sal de cozinha absorve água do ar quando a umidade relativa ultrapassa cerca de 75%. Noites com ponto de orvalho alto (prenúncio de sistemas úmidos) deixam o sal derretido como gota. Esse é o princípio físico que o ritual explora.
  • Experiência de Santa Luzia: calendarizada no dia 13 de dezembro (início do período chuvoso esperado), sincretiza marca religiosa com observação meteorológica — a religiosidade dá o quando, a paisagem dá o o quê.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "expõe ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal" → o instrumento do experimento é físico (sal + ar noturno), não mágico. O sertanejo sabe que o ar do sertão reage de forma distinta conforme o mês.
  • Evidência 2: "se a primeira apenas se deliu, transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro" → cada pedra está associada a um mês, e o resultado observado traduz-se em previsão de chuva. Há uma correlação empírica testada pela tradição entre umidade da noite de Santa Luzia e chuvas dos meses seguintes.
  • Evidência 3: "usança avoenga" (usança dos avós) → saber transmitido por gerações, acumulado pela vivência no sertão. É conhecimento coletivo, não individual.
  • Síntese: o ritual é, na essência, uma leitura do microclima da Caatinga feita por alguém que acumulou décadas de observação do bioma. A moldura religiosa é o calendário; o conteúdo é puramente ambiental.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o que o ritual mede de fato

O sal exposto durante a noite absorve umidade do ar. Se a umidade relativa está alta o bastante (acima do ponto higroscópico do NaCl), o sal dissolve parcialmente e aparece como aljôfar (gota). Portanto, o ritual mede concretamente a umidade relativa noturna no início de dezembro — uma variável climática real.

Subpasso 4.2 — Conectar com a previsão sazonal

No Nordeste, a umidade noturna do começo de dezembro correlaciona-se com o avanço de sistemas atmosféricos (ZCIT, frentes, ondas de leste) que trarão — ou não — chuva nos meses seguintes. Gerações de sertanejos observaram essa correlação e a estabilizaram no ritual. O sertanejo traduz um sinal físico do bioma em decisão prática sobre o que esperar de janeiro a junho.

Subpasso 4.3 — Identificar a marca cultural

A religiosidade entra como envoltório simbólico (Santa Luzia, número seis igual a seis meses, ordem de leste para oeste). Ela organiza e transmite o saber, mas não substitui a observação ambiental. O traço central que o sertanejo demonstra é a intimidade com a Caatinga — ele sabe ler os sinais de um bioma que para um forasteiro seria ilegível.

Subpasso 4.4 — Verificação

Confirmar com a pergunta do comando: "a relação com a paisagem e com a religiosidade permite que o sertanejo seja...". A resposta deve ser um traço ativo que junta os dois eixos. "Íntimo à Caatinga ao interpretar condições ambientais" encaixa perfeitamente: íntimo é vínculo afetivo/cultural (o lado religioso e tradicional); interpretar condições ambientais é leitura técnica da paisagem.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) afeito à devoção ao aceitar destinos sacralizados.

Incorreta: inverte o sentido do ritual. O sertanejo não aceita um destino — ele tenta prever para se preparar (plantar, poupar, migrar). A devoção existe, mas é meio, não fim. A alternativa descreve uma resignação que o texto explicitamente contraria ao dizer "interrogando a providência".

B) acostumado à pobreza ao admitir acasos naturais.

Incorreta: traz dois erros. Primeiro, o texto não fala em pobreza nem em acaso. Segundo, o ritual é justamente o oposto da admissão de acaso: é a tentativa de extrair regularidade do aparente acaso climático. Confunde resiliência material com fatalismo.

C) habituado ao solo ao conhecer terrenos cultiváveis.

Incorreta: reduz o saber sertanejo a agronomia (tipos de terreno). O experimento das pedrinhas não fala de solo nem de cultivo — fala de previsão de chuva. Troca o objeto do conhecimento (clima/ar) por outro (solo).

D) íntimo à Caatinga ao interpretar condições ambientais.

Correta: captura exatamente os dois eixos do comando. "Íntimo à Caatinga" responde à relação com a paisagem somada à tradição (religiosidade transmitida como saber). "Interpretar condições ambientais" nomeia o que o ritual faz: ler a umidade do ar como prenúncio de chuva. A evidência das pedrinhas que se deliem em aljôfar é a interpretação de uma condição ambiental concreta.

E) próximo à vegetação ao identificar espécies arbustivas.

Incorreta: desloca o foco para botânica. O ritual não envolve plantas nem identificação de espécies. Confunde intimidade com o bioma com conhecimento florístico — são coisas diferentes.

🏆 Gabarito: D — o sertanejo é íntimo à Caatinga porque a tradição religiosa dá o calendário (Santa Luzia) e a paisagem fornece os dados (umidade noturna que derrete o sal), permitindo-lhe interpretar condições ambientais para se preparar para o regime de chuvas.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a letra D junta os dois eixos exigidos — vínculo cultural/religioso com a Caatinga e leitura técnica do ambiente. As outras alternativas ou apagam a técnica (A, B) ou trocam o objeto do conhecimento (C, E).
  • Padrão de cobrança: o ENEM adora questões que valorizam saberes tradicionais como ciência empírica. Texto-base costuma ser Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos ou reportagens sobre quilombolas e indígenas. A resposta certa quase sempre é a que reconhece conhecimento legítimo no grupo retratado, em vez de tratá-lo como folclore ou ignorância.
  • Generalização: quando uma questão descrever ritual, provérbio ou prática de povo tradicional, pergunte-se "que sinal do ambiente esta prática está lendo?". Se a alternativa nomeia esse sinal, provavelmente é a correta.
  • Dica de eliminação rápida: descarte primeiro qualquer alternativa que use palavras como resignação, acaso, fatalidade, superstição — o ENEM raramente premia esse enquadramento. Depois, descarte as que trocam o objeto do ritual (terreno, vegetação, fauna) quando o texto fala claramente de outra variável (aqui, chuva/umidade).
  • Conexões com outros temas: Região Nordeste e dinâmica climática do semiárido; sincretismo religioso e cultura popular; etnoconhecimento e etnoecologia; obra de Euclides da Cunha como documento histórico-geográfico.

+170.000 questões resolvidas no MemorizeApp

Conhecer App