Questão 12 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Os homens estavam tratando de negócios e eu fiquei longe pra não atrapalhar. Já tinha ido com meu pai a muitos lugares e sabia que, quando ele queria falar de negócio, não gostava que eu ficasse por perto pedindo isso e aquilo. O secos e molhados era um mundo, enorme, eu me perdi lá dentro. Gostei de circular de um canto a outro […]. Percebi que as vozes se alteravam e escutei a do meu pai apertada, mais baixa que as outras. Não sei por que, em vez de ver o que estava acontecendo, me escondi atrás das prateleiras e tentei ouvir o que eles diziam. Não entendi nada, mas pelo tom da conversa, percebi que meu pai estava triste. […] O dono do armazém, cigarro pendurado na boca, sorriu, anotou qualquer coisa num saco de papel e enfiou a caneta sobre a orelha. Tinha uma cara feia e, ao mesmo tempo, me deu raiva e dó dele. […] Meu pai disse, “Vamos, tá na hora”, e pagou a conta, a mercadoria não era boa, que ele compreendesse. Saímos. Antes de chegar na Kombi, olhei de rabo de olho e vi, surpreso, que meu pai estava chorando. Na hora eu achei que seria melhor não olhar, até procurei fingir, pra ele se controlar. Eu senti que ele se envergonharia se eu percebesse. Andamos depressa, a grande mão dele no meu ombro, num toque leve, um carinho resignado. Como quem não quer nada, fiz que estava atento ao movimento das ruas, mas via a dor cobrindo o rosto dele quando o sol cintilou seus olhos.
CARRASCOZA, J. A. Aos 7 e aos 40. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
No texto, a relação entre os personagens adquire uma representação tensa, na perspectiva do narrador-personagem, que reconhece a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- Matérias: Literatura → narrador-personagem (1ª pessoa); tensão emocional em conto contemporâneo
- Nível: Médio
- Gabarito: A
Passo 1 — Leitura
- Comando: "a relação entre os personagens adquire uma representação tensa, na perspectiva do narrador-personagem, que reconhece a…"
- Palavras-chave: meu pai estava triste; a mercadoria não era boa, que ele compreendesse; meu pai estava chorando; ele se envergonharia se eu percebesse; dor cobrindo o rosto dele.
Passo 2 — Conceitos
- Narrador-personagem: criança que observa e interpreta a cena do pai no armazém.
- Tensão central: contraste entre a autoridade do pai (esperada) e a vergonha/submissão que o menino percebe.
- Chave do trecho: "a mercadoria não era boa, que ele compreendesse" → súplica, não imposição. Pai em posição de inferioridade diante do comerciante.
Passo 3 — Decodificação
- Evidência 1: "a voz dele apertada, mais baixa que as outras" → voz submissa do pai.
- Evidência 2: "meu pai estava chorando... ele se envergonharia se eu percebesse" → vergonha do pai pela humilhação sofrida.
- Síntese: o narrador-criança percebe que o pai foi humilhado na negociação — fonte da tensão que ele registra.
Passo 4 — Resolução
A pergunta é específica: o narrador reconhece (percebe) o quê? O conjunto de evidências mostra um pai em posição submissa, que suplica, que chora, que se envergonha. O menino entende que o pai foi humilhado pelo dono do armazém → A.
Passo 5 — Análise
A) humilhação sofrida pelo pai na negociação. ✅ Voz apertada, súplica, choro e vergonha → humilhação reconhecida pelo filho.
B) ameaça nas atitudes do dono do comércio. ❌ O dono é descrito como cínico ("sorriu", "cigarro pendurado"), mas não ameaçador.
C) compaixão pelo comportamento paterno. ❌ Há compaixão, mas não é o que está sendo reconhecido — é efeito, não objeto.
D) tensão entre os homens do armazém. ❌ Generaliza demais; a tensão é entre pai e dono, e é assimétrica.
E) hierarquia entre adulto e criança. ❌ A hierarquia problemática do conto é entre adultos (comerciante × pai), não entre pai e filho.
Gabarito: A
Passo 6 — Dica
- Padrão: conto com narrador-criança → procurar o que a inocência percebe apesar de não verbalizar.
- Dica rápida: quando há choro + vergonha + silêncio, leia como humilhação.
- Conexões: foco narrativo; conto contemporâneo brasileiro; memória afetiva.