Questão 11 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 1º Dia
Dentre as músicas clássicas que tinham potencial para ganhar as ruas das grandes cidades brasileiras, uma se destacou e acabou se transformando em um recado ao inconsciente coletivo: se as notas ouvidas lá longe são a melodia Für Elise, interpretada ao piano, é um caminhão vendendo gás que se aproxima. Essa história, que torna a obra do compositor alemão Ludwig van Beethoven um meme nacional, começou quando as firmas de venda de gás porta a porta queriam uma solução para substituir o barulho das buzinas e os gritos de “Ó o gás”. Com o objetivo de diminuir a poluição sonora, a prefeitura de São Paulo promulgou a Lei n. 11 016, em 1991, que institui que “Fica proibido o uso da buzina, pelos caminhões de venda de gás engarrafado a domicílio, para anunciar a sua passagem pelas vias e logradouros”. Entregadores de empresas de distribuição de gás recorreram a chips com músicas livres de direitos autorais. No início, não era apenas Für Elise — notas de outros temas clássicos também eram ouvidas. Mas a força da bagatela beethoveniana composta em 1810 acabou se sobrepondo às demais e virou praticamente um símbolo.
Disponível em: www.dw.com. Acesso em: 21 dez. 2020 (adaptado).
Ludwig van Beethoven (1770-1827) é mundialmente conhecido como um dos maiores representantes da música de concerto do período romântico. A adoção de uma de suas obras mais difundidas como anúncio de venda de gás engarrafado indica a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- Matérias: Artes → função social da obra; ressignificação cultural
- Nível: Médio
- Gabarito: D
Passo 1 — Leitura
- Comando: "a adoção de uma de suas obras mais difundidas como anúncio de venda de gás engarrafado indica a…"
- Palavras-chave: Für Elise; anúncio de venda de gás; substituir o barulho das buzinas; a bagatela beethoveniana composta em 1810.
Passo 2 — Conceitos
- Ressignificação cultural: uma obra criada para determinado contexto pode adquirir outras funções em tempos/lugares diferentes.
- Für Elise (1810): música de salão/câmara, destinada à apreciação estética — vira sinalização sonora comercial no Brasil urbano dos anos 1990.
- Status da obra: não mudou de qualidade, mudou de função.
Passo 3 — Decodificação
- Evidência 1: "bagatela beethoveniana composta em 1810" (contexto 1) → música para apreciação.
- Evidência 2: "anúncio de venda de gás porta a porta" (contexto 2) → sinalização comercial.
- Síntese: mesma obra, funções radicalmente diferentes em épocas/lugares distintos → ressignificação.
Passo 4 — Resolução
O comando pede o que o fato indica (aponta conceitualmente). Não é sobre educação, nem sobre direito autoral — é sobre como uma obra muda de função. A resposta precisa nomear essa transformação de papel cultural → D (modificação da função que uma obra artística pode sofrer em diferentes épocas e lugares).
Passo 5 — Análise
A) utilização da música erudita como forma de educar a população em geral. ❌ O objetivo do chip não é educar, é anunciar o gás.
B) manutenção da música europeia nos mais variados aspectos da cultura brasileira. ❌ Discutível e colonialista; foco do texto é mudança de função, não permanência cultural.
C) contribuição que a obra do compositor alemão tem na diminuição da poluição sonora. ❌ A diminuição da poluição é efeito da lei, não da obra em si — seria uma leitura superficial.
D) modificação da função que uma obra artística pode sofrer em diferentes épocas e lugares. ✅ Descreve com precisão a ressignificação.
E) articulação entre o poder público e as empresas para contornar as limitações das leis de direito autoral. ❌ Não há "contorno" — o chip usa músicas livres de direitos autorais, cumprindo a lei.
Gabarito: D
Passo 6 — Dica
- Padrão: Arte + Vida urbana no ENEM = tema recorrente é ressignificação (função muda com contexto).
- Dica rápida: se o texto mostra a mesma obra em dois contextos históricos, a resposta é "mudança de função/ressignificação".
- Conexões: função social da arte; indústria cultural; meme; cultura urbana brasileira.