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Questão 7ENEM 2021Caderno azul · 1º Dia

A draga A gente não sabia se aquela draga tinha nascido ai, no Porto, como um pé de árvore ou uma duna. — E que fosse uma casa de peixes? meia dúzia de loucos e bêbados moravam dentro dela, enraizados em suas ferragens. Dos viventes da draga era um o meu amigo Mário-pega- -sapo. [...] Quando Mário morreu, um literato oficial, em necrológio caprichado, chamou-o de Mário-Captura-Sapo! Ai que dor! Ao literato cujo fazia-lhe nojo a forma coloquial. Queria captura em vez de pega para não macular (sic) a língua nacional lá dele... [...] Da velha draga Abrigo de vagabundos e de bêbados, restaram as expressões: estar na draga, viver na draga por estar sem dinheiro, viver na miséria Que ora ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Hollanda Para que as registre em seus léxicos Pois que o povo já as registrou. BARROS, M. Gramática expositiva do chão poesia quase toda Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1990 (fragmento) Ao criticar o preciosismo linguístico do literato e ao sugerir a dicionarização de expressões locais, o poeta expressa uma concepção de língua que

Alternativas

Resolução

📋 Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Variação Linguística → Concepção de língua em poesia de Manoel de Barros
  • ⚡ Nível: Médio — exige identificar a concepção de língua que o poeta defende ao criticar o preciosismo do literato.
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Compreensão de variação linguística; reconhecimento da língua como prática social plural.
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que concepção de língua o poeta defende ao criticar o preciosismo do literato e propor a dicionarização de expressões locais?"
  • Palavras-chave decisivas: preciosismo linguístico, fazia-lhe nojo a forma coloquial, o povo já as registrou, dicionarizar expressões locais
  • Armadilha típica: Escolher A (contrapõe escrita e fala) por ver a menção a registros formais e coloquiais, sem perceber que o poeta NÃO opõe os dois — ele DEFENDE o coloquial popular como digno de registro.
  • O que a resposta precisa demonstrar: Que a concepção de língua do poeta é a de uma instituição viva, plural, em que o uso popular tem valor e merece ser reconhecido — valoriza o uso de variedades populares.

📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Preciosismo linguístico: Apego excessivo à norma culta/rebuscada, com desprezo pelas formas coloquiais e populares. Historicamente associado a uma visão purista da língua.
  • Variação linguística: Conceito da sociolinguística segundo o qual toda língua é plural — varia por região, classe social, situação comunicativa. Nenhuma variedade é intrinsecamente "melhor".
  • Dicionarização: Inclusão formal de termos no léxico registrado por dicionários. Para o poeta, o povo JÁ criou e dicionarizou as expressões — falta apenas o reconhecimento oficial.

🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "um literato oficial, em necrológio caprichado, chamou-o de Mário-Captura-Sapo... fazia-lhe nojo a forma coloquial" → o poeta RIDICULARIZA o preciosismo do literato, criando uma voz irônica contra o purismo.
  • Evidência 2: "Ai que dor!" → exclamação de indignação do poeta diante da atitude do literato.
  • Evidência 3: "Que ora ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Hollanda / Para que as registre em seus léxicos / Pois que o povo já as registrou" → o poeta sugere a dicionarização das expressões populares, afirmando que o povo já tem o direito/legitimidade de criar léxico.
  • Síntese: O poeta combate o purismo e defende a legitimidade das formas populares — valoriza as variedades populares como parte viva da língua.

🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o alvo da crítica O literato, com seu necrológio "caprichado", substitui "pega-sapo" (coloquial/popular) por "Captura-Sapo" (culto/rebuscado). O poeta ridiculariza essa atitude — o literato é a figura do purismo que despreza o popular.

Subpasso 4.2 — Identificar a proposição positiva Depois de criticar o literato, o poeta faz a oferta: "ao filólogo Aurélio Buarque de Hollanda, para que registre em seus léxicos, pois que o povo já as registrou". Ou seja, o poeta não só critica — propõe que as formas populares entrem no dicionário por direito próprio.

Subpasso 4.3 — Verificação contra alternativas A atitude defendida = valorizar as variedades populares como legítimas e dignas de registro. A alternativa D cobre exatamente essa concepção. As outras deslocam o foco ou invertem o sentido.

✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) contrapõe características da escrita e da fala. ❌ Incorreta: O poema não opõe os dois domínios como categorias abstratas. A crítica é ao PURISMO de quem despreza o coloquial, não à existência de diferenças entre escrita e fala.

B) ironiza a comunicação fora da norma-padrão. ❌ Incorreta: O poeta IRONIZA o literato purista, não a fala popular. Inverte o alvo da ironia.

C) substitui regionalismos por registros formais. ❌ Incorreta: O poeta faz exatamente o OPOSTO — defende que os regionalismos ENTREM no registro formal (dicionário). A alternativa inverte a direção.

D) valoriza o uso de variedades populares. ✅ Correta: O poeta ridiculariza o literato purista e sugere que as expressões populares ("estar na draga", "viver na draga") merecem ser dicionarizadas porque "o povo já as registrou". Essa é uma concepção de língua como prática social plural em que as variedades populares têm valor e dignidade.

E) defende novas regras gramaticais. ❌ Incorreta: O poeta não propõe novas regras — propõe o RECONHECIMENTO do léxico popular já existente. A questão não é gramatical, mas lexical/sociolinguística.

🏆 Gabarito: D — Ao criticar o preciosismo e sugerir a dicionarização das expressões populares, o poeta defende uma concepção de língua que valoriza as variedades populares como legítimas e dignas de registro.

🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: D é a única que captura a concepção POSITIVA do poeta — valorização das variedades populares — em vez de descrever apenas a crítica negativa.
  • Padrão de cobrança: ENEM cobra com frequência a distinção entre concepções de língua (purista/normativa vs. variacionista/sociolinguística), especialmente em textos literários que tematizam o próprio falar.
  • Generalização: Poesia que critica purismo e defende o popular sempre corresponde a uma concepção de língua plural, variacionista, baseada no uso social.
  • Dica de eliminação rápida: Descarte C (inverte sentido), E (fala de gramática, não de léxico), B (inverte o alvo). Entre A e D, A é descritiva (apenas descreve a oposição), D é valorativa (defende uma posição) — o poema É valorativo.
  • Conexões com outros temas: Sociolinguística, norma culta vs. uso popular, Manoel de Barros e a poesia da oralidade, papel social dos dicionários.

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