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Questão 30 — ENEM 2021Caderno azul · 1º Dia
Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático. Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do Capitão Pelino, e mesmo quando se falava em algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvidas o homem tem talento, mas escreve: 'um outro', 'de resto'... E contraia os lábios como se tivesse engolido alguma cousa amarga. Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores glórias nacionais. Um sábio... Ao entardecer. depois de ler um pouco o solene, o Candido de Figueiredo ou o Castro Lopes. é de ter passado mais uma vez à tintura nos cabelos, o velho mestre-escola sala vagarosamente de casa, muito abotoado no seu paletó de brim mineiro, encaminhava- -se para a botica do Bastos a dar dous dedos de prosa. Conversar é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão-somente a ouvir. Quando. porém, dos lábios de alguém escapava à menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o agente do Correio, que...” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga 'asseguro', Senhor Bernardes; em português é garanto”. E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras. houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o seu apostolado de vernaculismo. BARRETO. L A Nove Califórmia Daponivel em pras GOMANOpUDÊCO O br Acesso em 24 jul. 2019 Do ponto de vista linguístico, a defesa da norma-padrão pelo personagem caracteriza-se por
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Pré-Modernismo → Crítica ao purismo linguístico em Lima Barreto
- ⚡ Nível: Médio — exige identificar a natureza da defesa da norma-padrão feita pelo personagem Pelino.
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Análise de variação linguística em texto literário; reconhecimento do purismo como postura desconectada do uso real.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Como se caracteriza, do ponto de vista linguístico, a defesa da norma-padrão feita por Pelino?"
- Palavras-chave decisivas: sempre que dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, conversar, botica, dois dedos de prosa, em português é garanto
- Armadilha típica: Escolher A (contestar ensino de regras) ou D (invalidar preceitos da gramática) por achar que o texto de Lima Barreto critica a gramática em si, sem perceber que a crítica é à APLICAÇÃO INDISCRIMINADA dessas regras em contextos informais.
- O que a resposta precisa demonstrar: Que Pelino, ao corrigir tudo em qualquer situação (incluindo conversas informais em botica), DESCONSIDERA os diferentes níveis de formalidade que caracterizam os usos reais da língua.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Variação de registro: Toda língua tem registros de maior ou menor formalidade. Uma conversa informal em botica não exige mesmo rigor que um documento oficial.
- Purismo linguístico: Postura de exigir a norma culta em todas as situações, ignorando o contexto. É o que Pelino encarna caricaturalmente.
- Lima Barreto e a crítica social: Pré-modernista, Lima Barreto ridiculariza os "bacharéis" e "gramáticos" como representantes de um saber inútil e elitista desconectado da vida.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Quando dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava" → Pelino corrige QUALQUER desvio, independente de contexto.
- Evidência 2: "Eu asseguro, dizia o agente do Correio, que..." → fala INFORMAL de conversa de botica. Pelino corrige para "garanto".
- Evidência 3: "houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava seu apostolado de vernaculismo" → ele não se adapta ao contexto nem considera que as pessoas se afastam por causa da correção constante.
- Síntese: Pelino defende a norma padrão sem distinguir entre situações formais e informais — desconsidera a variação de registro.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o erro de Pelino O erro NÃO é defender a norma culta — é aplicá-la em qualquer contexto, mesmo em conversa informal ("dois dedos de prosa" na botica). Ele não percebe que a situação comunicativa define o nível de formalidade adequado.
Subpasso 4.2 — Distinguir as alternativas A (contestar ensino de regras): texto não critica ensino, critica o USO indiscriminado das regras. D (invalidar preceitos da gramática): texto não invalida a gramática, critica sua aplicação descontextualizada. C (complacente com desvios): Pelino não é complacente — é o OPOSTO. E (desconsiderar níveis de formalidade): captura exatamente o erro.
Subpasso 4.3 — Verificação A alternativa E ("desconsiderar diferentes níveis de formalidade nas situações de comunicação") nomeia o problema do personagem. Ele trata uma conversa de botica como se fosse um tratado — aplica o registro formal onde não cabe.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) contestar o ensino de regras em detrimento do conteúdo das informações. ❌ Incorreta: Lima Barreto não discute ensino formal — mostra Pelino aplicando regras em conversas cotidianas. A questão é de USO SOCIAL da língua, não de currículo escolar.
B) resgatar valores patrióticos relacionados às tradições da língua portuguesa. ❌ Incorreta: O texto não tem tom patriótico — é satírico. A caricatura de Pelino não resgata; RIDICULARIZA o purismo.
C) adotar uma perspectiva complacente em relação aos desvios gramaticais. ❌ Incorreta: Pelino é o OPOSTO de complacente — é rígido e corrige tudo. A alternativa inverte a atitude do personagem.
D) invalidar os usos da língua pautados pelos preceitos da gramática normativa. ❌ Incorreta: O texto não invalida a gramática — problematiza sua aplicação indiscriminada. O problema não é que a norma exista; é que Pelino a aplica sem distinguir contextos.
E) desconsiderar diferentes níveis de formalidade nas situações de comunicação. ✅ Correta: Pelino corrige conversas informais (botica, papo cotidiano) como se fossem discurso formal. Ele desconsidera que diferentes situações comunicativas pedem registros diferentes — erro linguístico que o texto critica via sátira.
🏆 Gabarito: E — A defesa da norma-padrão por Pelino caracteriza-se por desconsiderar que diferentes situações de comunicação exigem diferentes níveis de formalidade — ele aplica o registro formal em contextos informais, gerando o efeito caricatural satirizado por Lima Barreto.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que identifica corretamente o problema linguístico do personagem — a falta de adaptação ao contexto.
- Padrão de cobrança: ENEM aborda com frequência variação de registro e crítica ao purismo em Lima Barreto, Mário de Andrade, Manoel de Barros.
- Generalização: Sempre que um personagem defende a norma culta em todas as situações, o erro linguístico é desconsiderar a variação de registro.
- Dica de eliminação rápida: Descarte alternativas que invertem a atitude do personagem (C: complacente). Descarte alternativas que atribuem ao texto uma crítica geral à gramática (A, D) — a crítica é ao USO, não à gramática em si.
- Conexões com outros temas: Pré-Modernismo, Lima Barreto, purismo linguístico e sociolinguística, variação de registro, sátira de costumes.