Questão 35 — ENEM 2018Caderno azul · 1º Dia
“o que será que ela quer
essa mulher de vermelho
alguma coisa ela quer
pra ter posto esse vestido
não pode ser apenas
uma escolha casual
podia ser um amarelo
verde ou talvez azul
mas ela escolheu vermelho
ela sabe o que ela quer
e ela escolheu vestido
e ela é uma mulher
então com base nesses fatos
eu já posso afirmar
que conheço o seu desejo
caro watson, elementar:
o que ela quer sou euzinho sou euzinho
o que ela quer só pode ser euzinho
o que mais podia ser”
FREITAS, A. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Cosac Naify, 2013
No processo de elaboração do poema, a autora confere ao eu lírico uma identidade que aqui representa a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- Matérias Necessárias: Literatura Contemporânea → Angélica Freitas; crítica feminista
- Nível: Médio — reconhecer a ironia que expõe o senso comum
- Tema/Habilidade: Análise da voz lírica como crítica do discurso machista
- Gabarito: A
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que identidade o eu lírico representa?"
- Palavras-chave decisivas: caro watson, elementar, eu já posso afirmar que conheço o seu desejo, o que ela quer sou euzinho
- Armadilha típica: marcar "mudança de paradigmas" (B) ou "sensibilidade como característica de gênero" (E) — vão na direção oposta à ironia crítica.
- O que a resposta precisa demonstrar: o eu lírico é uma construção irônica do macho do senso comum, cuja "lógica" é hipócrita.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ironia crítica: o poema não afirma o que parece; encena uma voz para ridicularizá-la.
- Senso comum machista: raciocínio ilusoriamente "elementar" que lê qualquer escolha feminina como sinalização sexual.
- Angélica Freitas (Um útero é do tamanho de um punho, 2013): crítica feminista à construção social da mulher.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: conclusões absurdas ("com base nesses fatos eu já posso afirmar que conheço o seu desejo") → ironia.
- Evidência 2: "caro watson, elementar" → paródia do raciocínio "lógico" holmesiano.
- Evidência 3: "o que ela quer sou euzinho" → autocentramento ridículo.
- Síntese: a voz lírica encena a hipocrisia do senso comum sobre a mulher.
Passo 4 — Resolução Completa
Subpasso 4.1 — Identificar a encenação
O eu lírico não afirma; reproduz uma voz machista para expô-la.
Subpasso 4.2 — Casar com alternativa
"Hipocrisia do discurso alicerçado sobre o senso comum" descreve exatamente a crítica encenada.
Subpasso 4.3 — Verificação
As outras opções ou celebram a imagem da mulher, ou deslocam para psicologia ou causa-efeito ou sensibilidade — perdem a ironia.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) hipocrisia do discurso alicerçado sobre o senso comum.
✅ Correta: a ironia expõe o raciocínio hipócrita do macho do senso comum.
B) mudança de paradigmas de imagem atribuídos à mulher.
❌ Incorreta: o poema critica a manutenção dos paradigmas, não celebra mudança.
C) tentativa de estabelecer preceitos da psicologia feminina.
❌ Incorreta: o poema ironiza, não estabelece psicologia.
D) importância da correlação entre ações e efeitos causados.
❌ Incorreta: não é esse o tema.
E) valorização da sensibilidade como característica de gênero.
❌ Incorreta: ao contrário, o poema ridiculariza a redução da mulher a sinalizações.
Gabarito: A
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a ironia expõe a hipocrisia do senso comum machista.
- Padrão de cobrança: poesia feminista contemporânea é recorrente no ENEM.
- Generalização: quando o eu lírico reproduz um raciocínio absurdo com "lógica", espere ironia crítica.
- Dica de eliminação rápida: descarte opções que levam o texto a sério quando ele é paródia.