Questão 6 — ENEM 2025Caderno azul · 1º Dia
Texto para as Questões de 06 a 10.
De próprio punho
A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro
Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, mais rotunda e mais cheia de arestas.
É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus e o mundo.
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura e Interpretação → Propósito Comunicativo da Crônica
- ⚡ Nível: Médio — exige captar o movimento do texto (do pessoal ao social) e identificar a função da expressão-título.
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Identificação do propósito central de um texto de circulação literária/jornalística.
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Ao tratar da expressão 'de próprio punho', o texto faz o quê?"
- Palavras-chave decisivas: ciranda, metamorfoses, combo de tecnologias, lápis, caneta, grafite, tinta, giz, carvão, Times New Roman, Arial, Calibri
- Armadilha típica: Reduzir o texto a uma crítica à tecnologia ou a uma valorização da caligrafia, perdendo o movimento mais amplo — o inventário de usos diferentes.
- O que a resposta precisa demonstrar: Percepção de que o texto mapeia, sem juízo negativo, a variedade de modos e suportes de escrita no cotidiano.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Crônica reflexiva: Gênero textual que parte de uma observação cotidiana (aqui, o estranhamento com a expressão "de próprio punho") para construir uma reflexão mais ampla.
- Inventário discursivo: Estratégia textual em que o autor acumula exemplos, suportes ou práticas para construir uma ideia de diversidade/multiplicidade.
- "De próprio punho" como disparador: A expressão bancária burocrática funciona como gatilho narrativo; a partir dela, a autora organiza um passeio pelas diferentes formas de escrever.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro" → subtítulo que já anuncia: o tema é a diversidade (bilhete, livro, tudo entre os dois).
- Evidência 2: "empregando algum tipo de tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou sangue e o que mais" → enumeração exaustiva de suportes materiais.
- Evidência 3: "No lugar, aparecem Times New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de 'letras' à minha escolha" → enumeração paralela no mundo digital.
- Síntese: O texto constrói, por acumulação, um inventário das várias maneiras de escrever no cotidiano — manuais e digitais, antigas e novas.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gesto inicial do texto
A autora parte de uma experiência pessoal (o estranhamento com a expressão burocrática) para introduzir o tema. Esse gatilho é anedótico, mas o foco não fica nele.
Subpasso 4.2 — Identificar o movimento principal
Do episódio bancário, o texto abre-se para um panorama dos usos da escrita no dia a dia: manuscrever, digitar em computador, tocar em telas, escolher entre dezenas de fontes. Há uma ciranda, um combo, uma diversidade.
Subpasso 4.3 — Verificação
O texto não critica, não questiona, não exige concisão, não ressalta formalidade. Ele apresenta a diversidade de usos da escrita no cotidiano contemporâneo.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) ressalta a formalidade na comunicação com as pessoas de sua convivência.
❌ Incorreta: O tom do texto é coloquial, quase humorístico ("Parecia que eu ia bater em alguém", "Eu e Deus e o mundo"). Não há defesa da formalidade; pelo contrário, a formalidade bancária aparece como curiosidade estranha.
B) critica a ansiedade causada pela velocidade da comunicação.
❌ Incorreta: Não há menção a ansiedade nem à velocidade. O texto discute suportes e modos de escrita, não ritmo ou efeitos psicológicos da comunicação.
C) expressa a obrigatoriedade de concisão nas anotações.
❌ Incorreta: "Escrever algo bem breve" é mencionado uma única vez, sobre a situação bancária — não é tematizado como exigência geral, muito menos como obrigatoriedade.
D) questiona a prática da escrita de próprio punho.
❌ Incorreta: A autora não questiona a escrita manual — ela até valoriza ("Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos"). O texto observa a mudança, não a condena.
E) apresenta a diversidade de usos no cotidiano.
✅ Correta: Ancorada em "ciranda", "metamorfoses", "combo de tecnologias" e nas enumerações de suportes (lápis, caneta, grafite, tinta, giz, carvão) e fontes digitais (Times, Arial, Calibri). O texto é um inventário da diversidade de usos da escrita.
🏆 Gabarito Final: E
O texto apresenta a diversidade de usos da escrita no cotidiano, a partir do disparador narrativo da expressão "de próprio punho".
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E capta a estratégia central do texto — acumular exemplos para mostrar variedade.
- Padrão de cobrança: Questões de crônica pedem o "propósito" do texto. Procure o movimento geral (do pessoal para o social/universal) e identifique o verbo que melhor descreve — aqui, "apresentar" (panorâmico), não "criticar" ou "questionar".
- Generalização: Quando um texto acumula enumerações longas de itens do mesmo campo (suportes, fontes, materiais), o propósito é quase sempre demonstrar diversidade.
- Dica de eliminação rápida: Elimine alternativas com verbos de crítica/juízo ("critica", "questiona", "ressalta formalidade") se o tom do texto é coloquial e observacional.
- Conexões com outros temas: Gêneros textuais, crônica contemporânea, cultura digital, escrita e tecnologia — temas frequentes em Linguagens.