Questão 21 — ENEM 2025Caderno azul · 1º Dia
O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei. […]
O meu medo é a vida piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei.
O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por aí desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que eu vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei.
FREIRE, M. Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2005.
Nesse texto, a reiteração dos medos e das angústias do narrador exprime
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Literatura Contemporânea → Periferia, Raça e Denúncia Social
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer o conjunto de medos como projeção de uma condição social específica.
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Análise de denúncia social em conto contemporâneo brasileiro.
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que tipo de angústia os medos reiterados do narrador expressam?"
- Palavras-chave decisivas: medo, faculdade, nunca gostei, não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de pedreiro, o policial me olhe de cara feia, cela especial
- Armadilha típica: Marcar B (fracasso escolar) ou D (formação profissional), prendendo-se a um dos medos e perdendo o padrão social que atravessa todos.
- O que a resposta precisa demonstrar: Percepção de que cada medo remete à precariedade social do narrador — educação frágil, trabalho precário, racismo policial, inacessibilidade da cela especial.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Marcelino Freire: Escritor pernambucano contemporâneo. Sua obra Contos negreiros (2005) é central na literatura brasileira afrocentrada, denunciando racismo estrutural, violência policial, trabalho precário e exclusão social.
- Monólogo interior: Técnica literária em que o pensamento do personagem é exposto sem filtros, reproduzindo o fluxo de consciência com sua desorganização lógica e emocional.
- Condição social como horizonte de angústia: Quando medos aparentemente desconexos (escola, emprego, polícia) compartilham uma origem comum, essa origem é a situação de vulnerabilidade social estrutural.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês" → o medo do ensino superior está ligado à precariedade da escolarização anterior, típica do estudante periférico.
- Evidência 2: "não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de pedreiro" → a escolha dos ofícios citados (trabalhos braçais de baixa remuneração) denuncia o horizonte ocupacional que é oferecido a essa subjetividade.
- Evidência 3 (decisiva): "o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que eu vou ter direito a uma cela especial" → racismo policial + consciência de que a cela especial (para diplomados) é um privilégio que talvez não alcance pessoas como ele.
- Evidência 4: "o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde" → consciência da narrativa oficial que culpabiliza o sujeito pobre.
- Síntese: Os medos não são pontuais — são projeções de uma mesma estrutura social de vulnerabilidade: educação precária, trabalho escasso, violência policial.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear os medos
- Fracasso no vestibular (escolarização precária).
- Desemprego mesmo em funções subalternas (mercado de trabalho excludente).
- Violência policial + ausência de proteção jurídica (racismo institucional).
Subpasso 4.2 — Encontrar o denominador comum
Todos os medos têm a mesma raiz: a posição social do narrador. Ele não é um jovem abstrato em crise vocacional; é alguém cuja condição social define cada medo. A escola ruim vem da pobreza; o desemprego vem da falta de qualificação; a polícia mira por perfil racial. Cada medo é capítulo da mesma história.
Subpasso 4.3 — Verificação
A reiteração dos medos exprime, portanto, incertezas centradas em sua condição social — exatamente a formulação da alternativa C.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) inseguranças sobre o futuro familiar.
❌ Incorreta: Embora o narrador fale "hein mãe não sei" como apoio afetivo, ele não tematiza família como tema central. Nenhum dos medos é sobre constituir família, cuidar de parentes ou herança familiar.
B) dilemas resultantes de seu fracasso escolar.
❌ Incorreta: O fracasso escolar é UM dos medos (primeiro parágrafo), mas não explica os outros dois (desemprego e violência policial). A alternativa reduz o texto a um só medo.
C) incertezas centradas em sua condição social.
✅ Correta: Junta todos os medos sob uma chave interpretativa — a vulnerabilidade social. A alternativa respeita a pluralidade dos medos e identifica corretamente sua origem comum.
D) hesitações em relação à sua formação profissional.
❌ Incorreta: Formação profissional é um sub-tema (faculdade, diploma), mas o texto não tematiza escolha vocacional, mudança de carreira ou dúvidas sobre qual profissão seguir. A angústia é sobre acesso e condição, não sobre escolha.
E) preocupações com as políticas públicas assistenciais.
❌ Incorreta: O governo é mencionado ("o governo já fez o que pôde"), mas como citação irônica de um discurso oficial, não como preocupação genuína com políticas assistenciais. O narrador não debate políticas; vive suas consequências.
🏆 Gabarito Final: C
A reiteração dos medos expressa incertezas centradas na condição social do narrador — educação frágil, trabalho precário, racismo policial são manifestações de uma mesma vulnerabilidade estrutural.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que capta simultaneamente os três eixos dos medos do narrador.
- Padrão de cobrança: Literatura contemporânea periférica (Conceição Evaristo, Marcelino Freire, Paulo Lins, Ferréz) é recorrente no ENEM. Identifique o sujeito social que fala e o horizonte de violência/exclusão que o texto denuncia.
- Generalização: Quando vários medos aparentemente diferentes compartilham uma raiz (pobreza, racismo, gênero), esse é o tema central — não cada medo individual.
- Dica de eliminação rápida: Elimine alternativas que isolam um único medo (B, D) ou projetam temas genéricos (A, E) quando o texto é explícito sobre violência policial, emprego precário e educação frágil.
- Conexões com outros temas: Literatura marginal, racismo estrutural, contos negreiros, monólogo interior, violência policial no Brasil.