Questão 47 — ENEM 2025 BelémCaderno azul · 1º Dia
Para os gregos, forçar alguém mediante violência, ordenar ao invés de persuadir, eram modos pré-políticos de lidar com as pessoas, típicos da vida fora da polis, característicos do lar e da vida em família, na qual o chefe da casa imperava com poderes incontestes e despóticos.
ARENDT, H. A condição humana. São Paulo: Perspectiva, 2004.
A filósofa alemã Hannah Arendt analisa uma noção de poder sustentada pelo vínculo entre a autoridade e a violência para criticar tendências que se baseiam no(a)
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Política em Hannah Arendt; poder, autoridade e violência
- ⚡ Nível: Médio — exige distinguir poder político (persuasão) de despotismo doméstico (violência)
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Conceitos de poder, autoridade e violência na tradição filosófica (CH5)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
🔎 Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A crítica de Arendt se dirige a um tipo de poder baseado em quê?"
- Palavras-chave decisivas: violência, ordenar ao invés de persuadir, despóticos, chefe da casa, incontestes
- Armadilha típica: confundir a crítica arendtiana com oposição genérica à lei ou à coerção estatal legítima.
- O que a resposta precisa demonstrar: que Arendt critica a redução do poder ao comando pessoal e arbitrário, típico do oikos (lar), transposto para a política.
📚 Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Polis vs oikos (Grécia antiga): na tradição grega analisada por Arendt, a polis é o espaço da palavra, da persuasão e da liberdade entre iguais; o oikos é o domínio privado em que o senhor manda com poderes absolutos sobre mulher, filhos e escravos.
- Poder (Arendt): capacidade de agir em conjunto, sustentada pelo discurso e pelo consentimento — opõe-se à violência.
- Violência e autoridade despótica: quando o poder se assenta no mando pessoal incontestável, deixa de ser poder político e se torna tirania — a vontade arbitrária do governante substitui o acordo público.
- Contexto: Arendt escreve no pós-guerra, refletindo sobre totalitarismos (nazismo, stalinismo) em que a vontade do líder se impôs como força bruta sobre a esfera pública.
🧭 Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "forçar alguém mediante violência, ordenar ao invés de persuadir" → oposição entre coerção e diálogo público.
- Evidência 2: "o chefe da casa imperava com poderes incontestes e despóticos" → modelo de poder pessoal, absoluto, sem contraditório.
- Síntese: Arendt denuncia tendências políticas que reproduzem o modelo doméstico — a autoridade passa a ser o arbítrio do governante.
🧠 Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o alvo da crítica A filósofa critica a confusão entre autoridade política (que exige deliberação entre iguais) e violência (comando unilateral). O que se assemelha ao "chefe da casa" no plano político é o governante que decide sozinho, sem contestação.
Subpasso 4.2 — Traduzir para a alternativa O que caracteriza o chefe de oikos é justamente o arbítrio individual: manda porque tem poder pessoal, não porque há acordo coletivo. Transpor esse modelo para a política corresponde à tirania/despotismo.
Subpasso 4.3 — Verificação As leis impessoais (A) são justamente o oposto do despotismo, então não servem de alvo da crítica; o arbítrio pessoal do governante (B) é exatamente o que Arendt identifica como pré-político.
✅❌ Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) força coercitiva das leis. ❌ Incorreta: a lei impessoal, para Arendt, integra o espaço público e a autoridade legítima; sua crítica é dirigida ao poder pessoal que dispensa a lei, não à própria legalidade.
B) arbítrio individual do governante. ✅ Correta: o modelo do "chefe da casa com poderes incontestes e despóticos" é, transposto à política, o arbítrio individual — exatamente o que Arendt denuncia como pré-político.
C) monitoramento coletivo dos cidadãos. ❌ Incorreta: vigilância coletiva remete a debates sobre sociedade disciplinar (Foucault) ou panóptico, tema alheio ao fragmento; Arendt discute a diferença oikos/polis.
D) imposição constritiva dos argumentos. ❌ Incorreta: no quadro arendtiano, o argumento e a persuasão são parte do poder político legítimo — Arendt não os critica, ela os valoriza frente à violência.
E) obediência aos mecanismos de repressão. ❌ Incorreta: a obediência seria efeito da violência, não sua causa ou fundamento; a crítica da autora recai sobre o fundamento do poder (o arbítrio), não sobre a resposta dos súditos.
🏆 Gabarito: B — Arendt critica a política reduzida ao mando pessoal, ou seja, o arbítrio individual do governante.
🏁 Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só B identifica o traço decisivo do "chefe da casa" aplicado à política: decidir sem contraditório.
- Padrão de cobrança: Arendt é recorrente no ENEM com a oposição poder/violência e com a defesa do espaço público.
- Generalização: em Arendt, poder legítimo = ação conjunta mediada pela palavra; violência = comando individual.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que envolvam lei, argumento ou debate público — elas estão do lado que Arendt valoriza, não do que ela critica.
- Conexões com outros temas: totalitarismo, banalidade do mal, república x tirania, democracia deliberativa.