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LinguagensPortuguêsDifícil

Questão 15ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia

Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação… Não, não, — repetia-se ela — é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada por alguém poderoso como a tia morta. Para depois no entanto pisá-la, repudiá-la sem contemplações. Porque a melhor frase, sempre ainda a mais jovem, era: a bondade me dá ânsias de vomitar. A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada há muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la um pedaço de carne morna e quieta. LISPECTOR, C. Perto do coração selvagem.

Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Nessa passagem, a reflexão feita pela personagem resulta da sua tomada de consciência da

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Ficha da Questão

  • Matérias: Português → literatura brasileira; Clarice Lispector; introspecção
  • Nível: Difícil
  • Gabarito: C

Passo 1 — Leitura

  • Comando: "a reflexão feita pela personagem resulta da sua tomada de consciência da(o)…"
  • Palavras-chave: "sentia dentro de si um animal perfeito"; "Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto"; "desejo de agradar e ser amada"; "a bondade me dá ânsias de vomitar"; "conservá-la um pedaço de carne morna e quieta".

Passo 2 — Conceitos

  • Dissimulação: fingimento consciente para manter a convivência social; reprimir o "animal interior" para agradar.
  • Joana (Perto do coração selvagem): personagem que percebe a incongruência entre seu impulso autêntico e a bondade performada.

Passo 3 — Decodificação

  • Evidência 1: o animal interior (autenticidade) tem que permanecer preso por "medo da falta de estética".
  • Evidência 2: o desejo de ser amada força a máscara da bondade.
  • Evidência 3: "bondade… carne morna e quieta" = hipocrisia conservada para a convivência.
  • Síntese: a personagem reconhece a dissimulação praticada em nome da convivência.

Passo 4 — Resolução

Dissimulação praticada em nome da convivênciaC.

Passo 5 — Análise

A) egoísmo humano. ❌ Não é egoísmo; é repressão do eu autêntico.

B) violência sofrida pelos membros da família. ❌ Não há violência.

C) dissimulação praticada em nome da convivência. ✅ A "bondade" como máscara social.

D) dificuldade de relacionamento entre as gerações. ❌ Não é tema.

E) desdém pela memória da tia morta. ❌ A tia morta é referência de poder, não de desdém.

Gabarito: C

Passo 6 — Dica

  • Padrão: Clarice = introspecção + desvelamento da hipocrisia social.
  • Conexões: Perto do coração selvagem; modernismo brasileiro; fluxo de consciência.

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