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Questão 30ENEM 2023

Enquanto estivemos entretidos com os urubus outras coisas andaram acontecendo na cidade. A Companhia baixou novas proibições, umas inteiramente bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia cuspir pra cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes, como a de pular muro pra cortar caminho, tática que quase todo mundo que não sofria de reumatismo vinha adotando ultimamente, principalmente os meninos. E não confiando na proibição só, nem na força dos castigos, que eram rigorosos, a Companhia ainda mandou fincar cacos de garrafa nos muros. Achei isso um exagero, e comentei o assunto com mamãe. Meu pai ouviu lá do quarto e veio explicar. Disse que em épocas normais bastava uma coisa ou outra; mas agora a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens; se alguém desobedecesse à proibição podia se cortar nos cacos; se alguém conseguisse pular um muro quebrando o corte de alguns cacos, ou jogando um couro por cima, era apanhado pela proibição, nhoc — e fez o gesto de quem torce o pescoço de um frango.

VEIGA, J. J. Sombras de reis barbudos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

Sob a perspectiva do menino que narra, os fatos ficcionais oferecem um esboço do momento político vigente na década de 1970, aqui representado pelo

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • Matérias Necessárias: Literatura brasileira; alegoria política; ditadura militar
  • Nível: Médio — ler o "momento político" por trás das proibições
  • Gabarito: A

Passo 1 — Leitura

  • Comando: "Qual elemento político da década de 1970 os fatos retratam?"
  • Armadilha: marcar B (dúvida sobre informações) — não é fake news; é medo.

Passo 2 — Conceitos

  • Alegoria política: a Companhia = regime autoritário; proibições = arbitrariedade.
  • Cacos nos muros: medida intimidatória típica do período repressivo.

Passo 3 — Decodificação

  • Evidência 1: "a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens".
  • Evidência 2: gesto de "nhoc" (torcer o pescoço) → medo difundido.
  • Evidência 3: proibições bobas + castigos rigorosos → clima de temor cotidiano.
  • Síntese: medo infiltrado no dia a dia.

Passo 4 — Resolução

Culto ao medo infiltrado no cotidiano = A.

Passo 5 — Análise

A) culto ao medo, infiltrado em situações do cotidiano. ✅ Núcleo da alegoria.

B) dúvida sobre veracidade das informações. ❌ Não é fake news.

C) ambiente de sonho. ❌ Texto realista, não onírico.

D) incentivo ao desenvolvimento econômico. ❌ Fora do tema.

E) política de isolamento das crianças. ❌ Medida é geral.

Gabarito: A

Passo 6 — Dica

  • Padrão: em Veiga, "a Companhia" = regime. Procure clima de vigilância.
  • Conexões: José J. Veiga; ditadura; alegoria.

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