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Questão 88ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia

Entretanto, nosso amigo Basso tem o ânimo alegre. Isso resulta da filosofia: estar alegre diante da morte, forte e contente qualquer que seja o estado do corpo, sem desfalecer, ainda que desfaleça.

SENECA. L Cartas morais Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1990

O excerto refere-se a uma carta de Sêneca na qual se apresenta como um bem fundamental da filosofia promover a

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia helenística, estoicismo romano e ética das paixões em Sêneca
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer o programa filosófico estoico (especialmente em sua forma romana, em Sêneca) a partir de uma cena de serenidade diante da morte
  • 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Filosofia antiga e ética (CH-1: interpretar manifestações culturais e filosóficas como respostas a desafios humanos universais)
  • 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que, segundo Sêneca neste excerto, a filosofia promove como bem fundamental?"
  • Palavras-chave decisivas: ânimo alegre, resulta da filosofia, estar alegre diante da morte, forte e contente qualquer que seja o estado do corpo, sem desfalecer, ainda que desfaleça
  • Armadilha típica: marcar "rejeição das convenções sociais" (B), confundindo estoicismo com cinismo (cínicos como Diógenes rejeitavam convenções; estoicos como Sêneca, não — eles aceitavam as circunstâncias e cumpriam dever cívico). Outra armadilha é "exaltação do sofrimento" (D), que confunde suportar o sofrimento com exaltá-lo — Sêneca não exalta a dor; ele propõe imperturbabilidade diante dela. Há ainda quem caia em "inspiração religiosa" (C), atribuindo o conforto a uma fonte transcendente em vez de à filosofia, contradizendo o próprio texto.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o programa estoico de Sêneca promove o autodomínio das paixões — manter-se sereno e alegre diante da morte e da doença é fruto do controle racional das paixões e dos afetos, não de exaltação nem de rejeição.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estoicismo: escola filosófica fundada por Zenão de Cítio (c. 300 a.C.) e desenvolvida em Roma por Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio. Sustenta que a virtude é o único bem verdadeiro, que devemos viver de acordo com a natureza/razão e que o sábio é aquele que distingue o que está sob seu controle (juízos, escolhas, atitudes) do que não está (corpo, fortuna, morte).
  • Apatheia/ataraxia: ideal estoico de imperturbabilidade ou domínio sobre as paixões (em grego, apatheia; em vocabulário próximo, ataraxia dos epicuristas). Não é insensibilidade nem indiferença, mas a capacidade de não ser arrastado por afetos descontrolados (medo, raiva, tristeza). Permite manter o ânimo estável em qualquer circunstância.
  • Paixões (pathē) na ética estoica: afetos irracionais que perturbam a alma — medo, desejo, tristeza, prazer descontrolado. O sábio não é um homem sem emoção; é alguém cujas emoções estão moderadas pela razão. A "moderação das paixões" é o coração do programa ético estoico.
  • Sêneca e a serenidade diante da morte: tema recorrente nas Cartas a Lucílio (e nas Cartas Morais) — a filosofia ensina a "meditatio mortis" (meditação da morte), que faz da morte um fato natural a ser aceito sem desespero. Quem domina o medo da morte adquire liberdade plena.
  • Diferença entre estoicismo, cinismo, epicurismo e cristianismo:

- Cinismo (Diógenes, Antístenes): rejeição das convenções sociais, vida ascética radical.

- Epicurismo (Epicuro): busca do prazer moderado e ausência de dor (ataraxia).

- Estoicismo (Zenão, Sêneca): autodomínio das paixões, virtude conforme a razão.

- Cristianismo: salvação por graça divina, exaltação do sofrimento como caminho redentor (esta é a corrente que exalta o sofrimento — não o estoicismo).

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "nosso amigo Basso tem o ânimo alegre. Isso resulta da filosofia" → o sentimento (ânimo alegre) é efeito de uma prática filosófica. A filosofia opera sobre a interioridade, modulando os afetos. Aponta para uma ética das paixões.
  • Evidência 2: "estar alegre diante da morte, forte e contente qualquer que seja o estado do corpo" → invariância da disposição interior independente das circunstâncias externas (corpo, doença, morte). Esse é o ideal de imperturbabilidade estoica.
  • Evidência 3: "sem desfalecer, ainda que desfaleça" → traz uma diferença entre o corpo (que pode desfalecer) e o ânimo (que não desfalece). É a marca clássica do estoicismo: separar o que está sob nosso controle (o juízo, a atitude) do que não está (o corpo, a sorte).
  • Síntese: filosofia → ânimo estável → imperturbabilidade diante da morte e do corpo → moderação das paixões. A resposta correta deve apontar a ética estoica do controle racional dos afetos.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a tradição filosófica de Sêneca

Sêneca (4 a.C.–65 d.C.) é uma das principais vozes do estoicismo romano. Suas obras (Cartas a Lucílio, Da brevidade da vida, Da tranquilidade da alma, Da ira) tratam centralmente de como o uso da razão pode produzir tranquilidade interior. Reconhecer Sêneca como estoico já direciona a leitura do excerto.

Subpasso 4.2 — Reconhecer o ideal de imperturbabilidade

A descrição do amigo Basso — alegre diante da morte, forte e contente qualquer que seja o estado do corpo — é uma representação literária do sábio estoico. O estoico mantém o ânimo estável independentemente das vicissitudes do corpo, da fortuna ou da morte. Essa estabilidade é fruto do autocontrole racional, do governo das paixões pela razão.

Subpasso 4.3 — Diferenciar moderação de exaltação ou rejeição

A "moderação das paixões" significa não ser dominado por afetos como medo da morte, dor física ou tristeza. Não é exaltar o sofrimento (como em algumas correntes ascéticas cristãs); não é rejeitar as convenções sociais (como o cínico); não é buscar inspiração religiosa (como tradições místicas). É uma prática racional que produz a constância interior. Por isso a alternativa correta deve falar em moderação — palavra com longa tradição filosófica grega (a sophrosyne aristotélica e a apatheia estoica).

Subpasso 4.4 — Verificação

A alternativa E ("moderação das paixões") capta exatamente o que o texto descreve: o ânimo alegre de Basso resulta de uma filosofia que ensinou a moderar (controlar, equilibrar, não ser dominado por) as paixões — especialmente o medo da morte e a tristeza diante da doença. As outras opções deslocam o foco para temas estranhos ao excerto (disputas dialógicas, religião, rejeição social, exaltação da dor).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) valorização de disputas dialógicas.

Incorreta: disputas dialógicas (debates filosóficos, dialética) são marca de outras tradições — sobretudo da escola socrático-platônica e da retórica clássica. O excerto de Sêneca não menciona debate, argumentação ou diálogo: descreve a disposição interior diante da morte. A alternativa troca o eixo (interioridade ética) por outro (procedimento dialético).

B) rejeição das convenções sociais.

Incorreta: rejeitar convenções sociais é marca do cinismo (Diógenes, Antístenes), que provocava a sociedade vivendo nu, comendo na praça pública, recusando títulos. O estoicismo de Sêneca, ao contrário, integra-se ao mundo romano (Sêneca foi conselheiro de Nero, senador, escritor público) e propõe transformar a interioridade, não rejeitar as convenções. Confunde duas escolas helenísticas distintas.

C) inspiração de natureza religiosa.

Incorreta: o texto atribui o ânimo alegre à filosofia ("Isso resulta da filosofia"), e não a uma fonte religiosa ou transcendente. Embora o estoicismo tenha dimensão cosmológica (a razão universal, o logos), Sêneca aqui frisa a ação racional sobre o ânimo, não a inspiração divina. Atribuir o efeito a "religião" contradiz o próprio enunciado.

D) exaltação do sofrimento.

Incorreta: Sêneca não exalta o sofrimento; ele propõe suportá-lo com serenidade. A diferença é decisiva. A exaltação do sofrimento como caminho de purificação é traço de algumas correntes ascético-cristãs medievais, não do estoicismo, que vê na dor um dos "indiferentes" — algo que se aceita, não que se busca nem se glorifica.

E) moderação das paixões.

Correta: o ânimo alegre de Basso resulta de uma filosofia que ensina a dominar pela razão os afetos perturbadores (medo da morte, tristeza diante da doença, desespero diante do corpo enfraquecido). É a apatheia estoica — moderação racional das paixões — que produz a constância interior descrita no excerto.

🏆 Gabarito: E — a filosofia de Sêneca promove a moderação das paixões pela razão, produzindo a constância interior que permite ao sábio estar alegre diante da morte e do corpo enfraquecido.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que coloca no centro o autocontrole racional dos afetos, característica definidora do estoicismo de Sêneca. As outras transferem o conteúdo para tradições estranhas ao texto (cinismo, religião, ascetismo) ou trocam o tema (do ânimo às disputas dialéticas).
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra periodicamente as escolas helenísticas (estoicismo, epicurismo, ceticismo) e a filosofia antiga, sempre apresentando trechos curtos com alta carga conceitual. Vale memorizar as palavras-chave de cada escola: estoicismo = autodomínio/imperturbabilidade; epicurismo = prazer moderado/ataraxia; cinismo = rejeição das convenções; ceticismo = suspensão do juízo.
  • Generalização: sempre que um texto antigo descrever serenidade interior diante de adversidades externas (morte, dor, perda), pense estoicismo e procure a alternativa que envolva controle/moderação das paixões ou conformidade à razão/natureza.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com vocabulário religioso (C), com conceitos de outras escolas (B — cinismo) ou com inversão semântica (D — exaltar é o oposto de moderar). Sobram pouquíssimas opções, e a moderação das paixões é o termo técnico clássico do estoicismo.
  • Conexões com outros temas: Marco Aurélio (Meditações); Epicteto (Manual); diferença entre virtudes cardinais gregas e estoicas; cristianismo primitivo e influência estoica; amor fati em Nietzsche como retomada do estoicismo; pensamento contemporâneo (resiliência, mindfulness) como diálogo com a tradição estoica.

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