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Questão 63 — ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia
Ainda que a fome ocorrida na Itália em 536 tenha. origem nos eventos climáticos, suas implicações são tanto políticas quanto econômicas. Nos primeiros séculos da Idade Média, o auxílio aos famintos se inscreve no domínio da gestão pública, mesmo quando a ação de. seus agentes é apresentada sob o ângulo da piedade e da caridade individuais, como é o caso da Gália merovingia. Assim, o fato de que as respostas à fome são mostradas, na Gália, como o fruto de iniciativas pessoais fundadas no imperativo da caridade deriva da natureza das fontes do século Vl.
SILVA. M C Os agentes públicos & a forme nos primeiros séculos da Idade Média. Varia Historia. n 60. set -dez 2018 ladaptado).c
Na conjuntura histórica destacada no texto, o dever de agir em face da situação de crise apresentada pertencia à jurisdição
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Alta Idade Média, reinos bárbaros, Gália merovíngia, monarquia cristã
- ⚡ Nível: Difícil — exige conhecimento específico sobre a natureza do poder régio no Ocidente cristianizado e a distinção entre esferas de responsabilidade
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Idade Média, formação dos reinos cristãos, relação entre política e religião na Alta Idade Média
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A quem cabia, na Gália merovíngia do século VI, o dever de agir diante da fome, mesmo quando as fontes mostram a ação como iniciativa pessoal de caridade?"
- Palavras-chave decisivas: auxílio aos famintos, gestão pública, Gália merovíngia, monarquia cristã
- Armadilha típica: marcar "mosteiros" ou "bispados", porque o texto cita "piedade e caridade individuais" e parece sugerir uma atuação religiosa. O enunciado, porém, afirma que isso é efeito das fontes do século VI, não da realidade institucional: o dever propriamente dito era da realeza.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de separar a aparência das fontes (ação pessoal piedosa) da estrutura real do poder merovíngio, em que o rei encarnava uma autoridade cristã com obrigação pública de socorrer os famintos.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Gália merovíngia: território que corresponde hoje à França e a partes dos países vizinhos, governado pela dinastia merovíngia (iniciada por Clóvis I, convertido ao cristianismo por volta de 496). Os merovíngios consolidaram um modelo de monarquia cristã em que o rei era investido de autoridade divina e responsabilidades espirituais e sociais.
- Monarquia cristã na Alta Idade Média: o governante não era apenas chefe militar; era também, por influência da tradição bíblica (modelo dos reis de Israel), um protetor do povo diante das calamidades. Socorrer pobres, distribuir grãos e prover a comunidade em crise fazia parte das virtudes régias esperadas. Essa obrigação tem fundamento teológico: o rei cristão deve imitar Cristo, o bom pastor.
- Fontes hagiográficas do século VI: crônicas e vidas de santos (como as de Gregório de Tours) que narram os eventos com foco na santidade pessoal dos atores. Por sua natureza, essas fontes individualizam a caridade e enfatizam a piedade de bispos e reis como virtude moral, em vez de descrever o sistema público de socorro.
- Confusão deliberada do autor: o texto explicitamente adverte que a ação apresentada como caridade individual deriva da natureza das fontes — ou seja, o registro é enviesado pela retórica hagiográfica, mas o dever institucional permanece na esfera pública, representada pela realeza.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o auxílio aos famintos se inscreve no domínio da gestão pública" → o dever é público, não apenas moral.
- Evidência 2: "mesmo quando a ação de seus agentes é apresentada sob o ângulo da piedade e da caridade individuais" → as fontes disfarçam o caráter público em roupagem pessoal.
- Evidência 3: "como é o caso da Gália merovingia" → o exemplo é explicitamente merovíngio, reino cristianizado cuja autoridade central é o rei.
- Evidência 4: "o fato de que as respostas à fome são mostradas, na Gália, como o fruto de iniciativas pessoais... deriva da natureza das fontes do século VI" → a caridade individual é efeito de estilo narrativo, não descrição institucional.
- Síntese: o enunciado empurra o aluno a distinguir entre o retrato piedoso das fontes e a estrutura real do poder público merovíngio. A resposta deve apontar a esfera pública responsável: a realeza cristã.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a instância responsável pela "gestão pública" na Gália merovíngia
Na Alta Idade Média ocidental, a principal instância de poder público era o rei, herdeiro do ideal romano do imperador cristão e, sobretudo, do modelo bíblico do rei-pastor. O rei merovíngio encarnava a autoridade pública do reino. Portanto, dizer que o auxílio aos famintos pertencia ao "domínio da gestão pública" é dizer, no contexto do século VI, que pertencia à jurisdição da realeza.
Subpasso 4.2 — Compreender por que o texto fala em "conceito de governo subjacente à monarquia cristã"
A alternativa correta (a que será revelada no Passo 5) vincula o dever de socorrer os famintos ao conceito de governo que fundamenta a monarquia cristã. Esse conceito é o de que o rei, por sagração religiosa, é responsável pelo bem-estar material e espiritual de seus súditos. Combater a fome está entre suas obrigações como governante cristão — um ato de governo, não de filantropia pessoal.
Subpasso 4.3 — Distinguir a realeza de outras esferas candidatas
- A nobreza feudal não atua, no século VI, como guardiã do campesinato num vínculo contratual — o feudalismo plenamente desenvolvido só surgirá do século IX em diante. A proteção senhorial, nesta fase, ainda não está estruturada.
- Os mosteiros praticavam caridade, mas não tinham jurisdição pública sobre a população civil; eram comunidades religiosas com regras internas, não administrações de reino.
- Os bispados tinham papel crescente, especialmente em cidades, mas sua autoridade nas questões civis dependia da delegação régia ou da ausência do poder real. A autoridade última ainda é da realeza.
- Corporações (associações de ofício com estatutos) são fenômeno posterior, típico dos séculos XII–XIII, em ambiente urbano muito mais denso. Não existem na Gália do século VI.
Subpasso 4.4 — Verificação
A resposta precisa explicar o dever como algo estrutural da autoridade pública, coerente com a monarquia cristã merovíngia do século VI. A alternativa B (realeza + conceito de governo subjacente à monarquia cristã) é a única que combina o sujeito histórico correto (o rei) com a justificativa conceitual exata (a natureza da monarquia cristã).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) da nobreza, proveniente da obrigação de proteção ao campesinato livre.
❌ Incorreta: esse modelo descreve um estado de coisas típico do feudalismo pleno (séculos X–XIII), quando o senhor feudal tinha obrigações específicas perante seus dependentes. No século VI da Gália merovíngia, a nobreza ainda não se estruturou como senhorio feudal, e o campesinato livre não está preso a essa relação. A "obrigação" mencionada é anacronismo.
B) da realeza, decorrente do conceito de governo subjacente à monarquia cristã.
✅ Correta: captura exatamente o argumento do texto. A "gestão pública" a que o artigo se refere é, no século VI, a jurisdição régia. A monarquia cristã merovíngia tinha entre seus deveres a proteção dos súditos diante de calamidades, incluindo a fome, por força do conceito teológico-político do rei como bom pastor. As fontes vestem esse dever de piedade individual, mas estruturalmente a responsabilidade é da realeza.
C) dos mosteiros, resultante do caráter fraternal afirmado nas regras monásticas.
❌ Incorreta: as regras monásticas (como a Regra de São Bento, de ~540) prescrevem fraternidade dentro da comunidade monástica e hospitalidade a peregrinos, mas não atribuem aos mosteiros jurisdição pública sobre o povo. Embora mosteiros socorressem famintos, isso não equivale a deter o dever institucional de resposta à crise.
D) dos bispados, consequente da participação dos clérigos nos assuntos comunitários.
❌ Incorreta: bispos merovíngios participavam ativamente da vida pública e muitas vezes mediavam conflitos ou supriam necessidades locais, mas o dever ultimamente público de gestão do reino continuava sendo da realeza. O texto pede a jurisdição estruturalmente responsável, não apenas qualquer ator que eventualmente agisse.
E) das corporações, procedente do padrão assistencialista previsto nas normas estatutárias.
❌ Incorreta: corporações de ofício, com estatutos e solidariedade intragrupo, são fenômeno baixo-medieval (séculos XII em diante), associado ao renascimento urbano. Não existem no século VI. Projetar essa estrutura para a Gália merovíngia é erro cronológico grave.
🏆 Gabarito: B — o dever de socorrer os famintos pertencia à jurisdição da realeza, por força do conceito de governo que fundamenta a monarquia cristã merovíngia, em que o rei responde pelo bem-estar material do reino.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a resposta B é a única que combina o ator histórico correto (o rei merovíngio) com a explicação conceitual correta (o modelo de monarquia cristã que o torna responsável pela proteção dos súditos).
- Padrão de cobrança: o ENEM gosta de questões em que o texto descreve uma cena com aparência religiosa mas pede o reconhecimento da estrutura política subjacente. O aluno precisa separar o que as fontes mostram do que as fontes escondem.
- Generalização: na Alta Idade Média ocidental, antes do feudalismo plenamente consolidado, o poder público central é o rei — ainda que cercado de mediação eclesiástica. Religião e política se entrelaçam, mas o rei continua sendo o agente do dever público.
- Dica de eliminação rápida: alternativas que mencionam "corporações", "mosteiros" ou "nobreza feudal" quando o enunciado fala do século VI quase sempre caem no anacronismo. Fique atento a datas: a Alta Idade Média é radicalmente diferente da Idade Média central e final.
- Conexões com outros temas: conversão de Clóvis, formação dos reinos germânico-cristãos, Gregório de Tours e a historiografia medieval, papel do cristianismo na legitimação do poder, origem do feudalismo, diferença entre autoridade régia e autoridade eclesiástica.