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Questão 60 — ENEM 2022Caderno azul · 1º Dia
Um experimento denominado FunFit foi desenvolvido com o objetivo de fazer com que os membros de uma comunidade local se tornassem mais ativos fisicamente, Todos os participantes do estudo foram vinculados a dois outros membros da comunidade que receberiam pequenos incentivos em dinheiro para serem estimulados a aumentar a sua atividade física, que era medida por acelerômetros nos celulares fenecidos pelo estado. Assim, se a pessoa andasse mais do que o habitual, seus conhecidos receberiam o dinheiro. Os resultados foram assombrosos: o esquema mostrou-se de quatro a oito vezes mais eficaz do que o método de oferecer incentivos individuais.
MOROZOV, E. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da politica. São Paulo: Ubu, 2018 (edaptado)
Contrariando a visão prevalente sobre o impacto tecnológico nas relações humanas, o texto revela que os celulares podem desempenhar uma função
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Tecnologia, sociabilidade e relações de reciprocidade
- ⚡ Nível: Médio — exige identificar a função social da tecnologia contrariando o senso comum sobre isolamento digital
- 🎯 Tema/Habilidade BNCC: Impactos sociais da tecnologia e capital social; competência de análise crítica de fenômenos contemporâneos
- 🏆 Gabarito: revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual função o celular desempenha no experimento FunFit, contrariando a visão prevalente sobre tecnologia e relações humanas?"
- Palavras-chave decisivas: contrariando a visão prevalente, impacto tecnológico nas relações humanas, função
- Armadilha típica: cair na resposta imediata "cognitiva" (porque envolve celular e aprendizagem) ou "recreativa" (porque envolve atividade física e lazer). Ambas ignoram o núcleo do experimento, que não é nem ensinar nem divertir, mas conectar pessoas por meio de um incentivo compartilhado.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o texto inverte a tese do isolamento digital mostrando que o celular pode, ao contrário, intensificar laços sociais por meio de mecanismos de reciprocidade e responsabilidade mútua.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Visão prevalente sobre tecnologia: o discurso hegemônico sobre smartphones e redes digitais tende a destacar o isolamento, a superficialidade dos vínculos e o enfraquecimento das relações presenciais. Autores como Bauman falam em "modernidade líquida" para descrever a fragilização dos laços. O enunciado ataca justamente esse senso comum.
- Reciprocidade (conceito sociológico): formulada por Marcel Mauss no Ensaio sobre a dádiva, é o princípio segundo o qual o dar, receber e retribuir constitui a base dos laços sociais. A reciprocidade não depende necessariamente de troca monetária direta: ela cria obrigações morais entre indivíduos e gera coesão coletiva.
- Capital social: conjunto de recursos disponíveis a um indivíduo ou grupo em virtude das redes de relações sociais de confiança e cooperação que mantêm. Quanto mais densas e ativas as redes, maior o capital social. O FunFit mobiliza esse capital ao vincular cada participante a dois outros membros da comunidade.
- Incentivo social vs. incentivo individual: psicologia comportamental e sociologia mostram que recompensas ligadas ao desempenho de terceiros ativam mecanismos de vergonha, dever e orgulho coletivo mais potentes do que recompensas pessoais. O resultado "quatro a oito vezes mais eficaz" é a evidência empírica deste mecanismo.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "os membros de uma comunidade local se tornassem mais ativos fisicamente" → a meta do experimento é comportamental, mas o meio é sociológico.
- Evidência 2: "Todos os participantes do estudo foram vinculados a dois outros membros da comunidade que receberiam pequenos incentivos em dinheiro" → o desenho experimental separa quem anda de quem recebe. Isso só faz sentido se a motivação for o outro.
- Evidência 3: "o esquema mostrou-se de quatro a oito vezes mais eficaz do que o método de oferecer incentivos individuais" → contraste explícito entre incentivo individual e incentivo mediado socialmente; a eficácia vem do laço social, não do dinheiro em si.
- Evidência 4: "Contrariando a visão prevalente sobre o impacto tecnológico nas relações humanas" → o enunciado explicita que a resposta deve romper com o discurso do isolamento digital.
- Síntese: o celular, no experimento, não é instrumento de entretenimento nem de aprendizagem cognitiva, mas infraestrutura que permite operacionalizar uma rede de obrigações recíprocas entre membros de uma comunidade.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que o celular efetivamente faz no experimento
O aparelho serve, primeiro, como acelerômetro que mede a atividade física, e, segundo, como nó de uma rede que conecta cada usuário a dois outros membros. O dispositivo digital viabiliza a vinculação social: sem ele, seria operacionalmente inviável medir e recompensar o desempenho de um em função de outros.
Subpasso 4.2 — Interpretar o mecanismo psicossocial que explica o resultado
A eficácia quatro a oito vezes maior não vem da soma dos incentivos, mas de uma troca simbólica: quando eu ando mais, meus conhecidos ganham dinheiro; logo, não andar deixa de ser uma falha pessoal e passa a ser uma falha em relação ao outro. É o clássico mecanismo da dádiva: o comportamento individual torna-se devedor de uma expectativa comunitária. Isso é reciprocidade pura.
Subpasso 4.3 — Conectar ao comando que pede a "função"
O comando não pergunta qual é o ganho do participante (seria "recreativa" ou "cognitiva"), nem qual é o ganho do mercado (seria "comercial"), nem qual é o papel do desenvolvedor (seria "laboral"). Pergunta qual função a tecnologia desempenha nesse contexto específico. Se o experimento comprova que o celular amplia obrigações mútuas entre pessoas de uma comunidade, a função é social: estimular a reciprocidade por meios digitais.
Subpasso 4.4 — Verificação
A função deve (i) contrariar o discurso do isolamento digital, (ii) explicar por que os incentivos socialmente mediados superam os individuais e (iii) descrever o que o celular faz no experimento. A função social que estimula a reciprocidade cumpre os três critérios simultaneamente.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) recreativa, promovendo o lazer em redes integradas.
❌ Incorreta: o experimento não trata de lazer nem de diversão. A atividade física medida pelo acelerômetro é meta de saúde pública, não recreação. Além disso, a alternativa descreve um uso trivial do celular e não contraria a "visão prevalente" — o lazer digital é justamente um dos eixos da crítica ao tecnoisolamento.
B) social, estimulando a reciprocidade por meios digitais.
✅ Correta: capta com precisão o desenho experimental. O celular opera como mediador de uma rede de obrigações recíprocas (meu esforço beneficia meus vínculos), configurando o princípio maussiano da dádiva numa versão digital. É exatamente isso que rompe com o discurso do isolamento.
C) laboral, convertendo o desenvolvedor em usuário final.
❌ Incorreta: a alternativa deslocaria o foco para a relação entre produtores e consumidores de software, tema ausente do texto. O experimento não trata de desenvolvimento de aplicativos nem do trabalho de engenheiros, e a frase "converter o desenvolvedor em usuário final" sequer descreve algo que o texto menciona.
D) comercial, direcionando a escolha por produtos industrializados.
❌ Incorreta: não há qualquer menção a consumo ou publicidade de produtos. O dinheiro oferecido é incentivo comportamental, não propaganda. Associar o FunFit à função comercial inverteria o propósito do estudo, que é precisamente mostrar um uso do celular distinto do consumismo digital.
E) cognitiva, favorecendo a aprendizagem pelas ferramentas virtuais.
❌ Incorreta: a questão não envolve aprendizagem, conteúdo ou desenvolvimento de habilidades mentais. O participante não aprende nada pelo celular; ele apenas tem seus passos contados. Função cognitiva seria adequada a aplicativos educacionais, não a este experimento de incentivo social.
🏆 Gabarito: B — o celular cumpre função social ao operacionalizar uma rede de reciprocidade entre membros da comunidade, contrariando a visão de que a tecnologia digital necessariamente enfraquece os laços humanos.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa B explica simultaneamente por que o experimento é quatro a oito vezes mais eficaz que incentivos individuais (a eficácia vem da rede de reciprocidade) e por que o texto "contraria a visão prevalente" (porque inverte o estereótipo do isolamento digital).
- Padrão de cobrança: o ENEM adora questões em que a tecnologia aparece deslocada do seu estereótipo mais óbvio. Quando o enunciado usa fórmulas como "contrariando a visão usual", "rompendo com", "ao contrário do esperado", o examinador quase sempre quer a alternativa que mostra um uso socialmente positivo, integrador ou cooperativo da ferramenta.
- Generalização: em sociologia da tecnologia, a chave é lembrar que meios digitais não produzem isolamento por si mesmos — o efeito depende do desenho social que os envolve. O mesmo aparelho pode isolar ou aproximar, dependendo de como a interação humana é configurada em torno dele.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que descrevem funções individuais do celular (recreativa, cognitiva, comercial) quando o enunciado fala explicitamente em "relações humanas" — a palavra-chave sinaliza coletividade. Restam apenas social e laboral; entre essas, laboral não cabe num contexto comunitário de saúde.
- Conexões com outros temas: modernidade líquida (Bauman), dádiva e reciprocidade (Mauss), capital social (Putnam, Bourdieu), sociedade em rede (Castells) e economia do compartilhamento são temas frequentemente cobrados em conjunto com este. A cada prova, pelo menos uma questão coloca o aluno para pensar criticamente sobre os efeitos sociais da tecnologia digital.